O BANDO É DA CARELLI!

A DAMA DE FERRO POR TRÁS DAS COXIAS DO TEATRO NEGRO BRASILEIRO



Por Nayara de Deus
Fotos MANDELACREW
MAIO/2010



O rótulo, apesar de confrontar a doce figura da atriz e diretora teatral, sintetiza bem a importância da mulher que - desde o surgimento do Teatro Experimental do Negro (TEN), em 1944, e do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal - ousou oferecer ao país uma dramaturgia voltada ao diálogo para as minorias e a valorização de grupos étnicos notadamente marginalizados pela sociedade, neste caso, os negros.


Fundadora do Bando de Teatro Olodum (grupo de teatro baiano formado essencialmente por atores negros) ao lado de Márcio Meirelles, Chica costuma dizer que o Bando é uma companhia necessária porque seu discurso “que incomoda” precisa ser ouvido.


Há 20 anos em cena, o Bando (responsável pela formação de artistas como o baiano Lázaro Ramos) já promoveu cerca de 20 espetáculos teatrais, com destaque para “Cabaré da RRRRRaça” (1997), mais encenada montagem do grupo, “Sonho de Uma Noite de Verão” (2006), vencedor do prêmio Braskem; e “Ó Paí, Ó”, que ganhou expressão nacional ao se tornar longa-metragem, em 2007.


Com cores vibrantes, dança e questionamentos sobre o papel do negro na sociedade contemporânea, o grupo já encantou platéias da Alemanha, Portugal, Angola e Inglaterra, e prepara para o segundo semestre deste ano a estréia do espetáculo “A coisa tá Preta”.


Em abril, o Menelick acompanhou de perto a temporada de apresentações do Bando por Sampa, e entre um espetáculo e outro, conseguimos um dedinho de prosa com Chica Carelli. Confira!



O Menelick 2ª Ato - Chica, você com essa pigmentação que, não é a da maioria baiana, (rs), porque resolveu se juntar a um propósito que viesse de encontro aos anseios da população negra?
Chica Carelli -
(rs)...Olha...foi uma coisa que foi acontecendo. Eu nasci na França, fui criada em São Paulo, e aos 16 anos voltei pra França. Porém, decidi que era aqui que eu queria ficar. Mas, também não queria mais São Paulo. Então fui pra Bahia, porque na época, o tipo de teatro que eu queria só tinha na faculdade federal da Bahia. Eu fiquei porque estava buscando uma cultura diferente e consegui encontrar lá; na Bahia. Fui fazer dança afro, capoeira...cantei numa banda de percussão..., simplesmente, porque eu gostava!


OM2ªATO - Como nasceu o Bando?
CC -
Surgiu da vontade de criar um teatro mais brasileiro, mais baiano. Começamos (ela e o diretor Márcio Meirelles) com um espetáculo sobre Gregório de Matos, primeira encenação que tinha essa coisa da cultura negra. Essa experiência chamou a atenção do pessoal do Olodum, e eles chamaram a gente pra criar essa Companhia de teatro, dentro do Olodum. No começo éramos 30 atores e sete meninos da banda mirim do Olodum. Começou de uma audição que abrimos, alguns foram atraídos pelo nome do Olodum, outros, pelo nome do Márcio. O pré-requisito para estar no Bando era: se jogar! Não era nem a qualidade porque, a gente fala: o mais importante em um ator é o desejo de fazer aquilo, porque o talento a gente desenvolve. E nunca foi pré-requisito do bando ser negro. Muitos brancos passaram pelo Bando mas, eles sempre saíram...nunca permaneceram (rs).No início trabalhamos calcados na commedia dell'arte, na criação de personagens que improvisavam e criavam situações... “Ó Paí ,Ó” foi criado assim, e acho que por isso fomos criando uma dramaturgia própria porque, na época, não existia um texto que pudesse atender a um discurso contemporâneo sobre a situação do negro na sociedade brasileira.


OM2ªATO - O que naquela época precisava ser dito?
CC -
Olha... primeiro: a valorização da cultura negra. Nós tínhamos pouquíssimos atores negros, isso na Bahia, com uma população 80% negra e, 1% de público negro no teatro. Imagina aqui em São Paulo: piorou! E isso porque o negro não se via representado naquele teatro feito na Bahia, e você tem que se ver! Por isso, não comparecia. Hoje, nosso público é muito mais negro que o público habitual do teatro.


OM2ªATO – O que é ser artista pra você?
CC -
Ser artista é acima de tudo estar a serviço de algo que tem que ser dito, não é só um exercício narcisista, né...de estar em cena. Tanto é que sou atriz, mas, em um determinado momento foi mais importante pra mim ser diretora ou, produtora do Bando, ou administradora, enfim, o que fosse necessário para deixar nosso discurso em cena. Então, acabou que eu não escolhi fazer o Bando, o Bando de alguma maneira veio pra mim, e eu fui vivendo o Bando porque o Bando realmente atende a um público que quer aquele discurso, que quer ver aquilo em cena porque aquele teatro é necessário!


OM2ªATO - Falar sobre a realidade do negro muitas vezes agride o branco. Você mesma hoje, já se referiu ao Bando como “xiitas”, rs. O Bando agride?
CC –
Olha, já teve quem disse ter se sentido agredido ao ver, por exemplo, “Cabaré da RRRRRRaça”. Mas, assim: eu entendo que agrida, mas, a pessoa tem que entender que se aquilo é dito é porque é necessário. Se aquelas pessoas disseram é porque tiveram a necessidade de falar aquilo, e os pontos de vista tem que ser ouvidos por todos. Nossa Companhia tem essa função, de colocar os cérebros pra refletir...indagar, questionar, denunciar. E olha que a atenção que nós chamamos ainda não é o suficiente, nós ainda temos um papel meio que de formigas. Quando nós chegamos a Angola e falamos pra eles que 80% da população da Bahia era negra, eles não acreditaram. Por quê? Porque as produções da Globo que passaram e que passam lá..., mostram um Brasil branco. Então, quer dizer, a televisão brasileira ainda não é um reflexo da nossa população, é só um reflexo da população dominante.


OM2ªATO - Qual o papel do ator negro na sociedade?
CC -
Eu penso que vão te oferecer um papel, uma coisa que seja degradante...você vai ter que dizer: “Não! Não tô a fim porque essa imagem já está muito reforçada”. O artista tem que ter consciência do seu discurso. A gente não é uma massa de modelar, a gente tem que ter uma posição. Seu personagem pode ser até equivocado, mas, o seu discurso geral, não pode. Essa será sua luta cotidiana.


OM2ªATO - O Bando faz um trabalho voltado à sociedade carente. Conta pra gente isso.
CC -
Nós abrimos espaço para a inclusão e muito debate. A gente promove fóruns de discussão, muitos seminários, trazemos gente pra falar com a gente e a comunidade, além das oficinas... Então, quando você sai do Bando, sai com outra posição...você sai e já é dono do seu discurso. E é muito importante ser dono do seu discurso porque senão, você é destruído..., e a vida te destrói se você não sabe exatamente porque você veio. Então, o importante é ver que nossos artistas, quando se desvinculam do Bando, saem sabendo pra que vieram e o que querem cada um na sua trajetória.



FRASE

“Quando chegamos a Angola e falamos pra eles que 80% da população da Bahia era negra, eles não acreditaram. Por quê? Porque as produções da Globo que passaram e que passam lá, mostram um Brasil branco”.



BANDO DE TEATRO OLODUM

teatrovilavelha.com.br


PARA LER

Livro: Abdias Nascimento
Autora: Sandra Almada
Editora Selo Negro Edições
2009


Livro: Dramas para Negros e prólogos para brancos
Autor: Abdias Nascimento
Edição do Teatro Experimental do Negro
Rio de Janeiro, 1961






Nayara de Deus é jornalista e modelo.


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