O DONO DA CENA


Por Sidney Santiago
Foto Duran Machfee
MARÇO/2012



“O Teatro brasileiro que é tão pobre, tão vazio, e que vive ainda na sua pré historia, bem que precisava descobrir o negro, seus temas, seus dramas...”Nelson Rodrigues (1948).


Pouco mais de seis décadas após a afirmação de Nelson Rodrigues (1912 - 1980) para o jornal Quilombo (periódico mensal fundado por Abdias Nascimento e que circulou na cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1948 e 1950), não tivemos mudanças significativas em nossos palcos. Os intérpretes negros ainda têm sua capacidade emocional, seu ímpeto dramático e sua formação lírica subestimadas.


“Não podemos mais ficar na dependência dos brancos”, afirma Eduardo Silva, baluarte dos palcos da terra da garoa. Nascido na cidade de São Paulo e no hospital de mesmo nome no ano de 1964, Edú (como é conhecido), filho de uma jovem empregada doméstica, passou sua infância entre a Praça da República e o Largo do Arouche. Seus estudos foram iniciados no antigo colégio Caetano de Campos, onde hoje fica a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.


Na ditadura militar, a invisibilidade, o sexismo, a pobreza extrema e a discriminação racial sob a mulher negra fizeram com que Eduardo, já em sua primeira infância, fosse adotado pela patroa a quem sua mãe biológica sempre nutriu muita gratidão. Foi ducado com rédeas curtas por uma Nonna italiana, malufista e com ideais separatistas.


Desde criança por onde passava chamava a atenção e encantava a todos. Era um menino gorducho e carismático. Até os seis anos só vestia branco da cabeça aos pés. Sua maior lembrança dos tempos da meninice eram os passeios com a cachorrinha e a ausência do futebol por ser um legítimo “perna de pau”.


A vida artística começou em 1970. Visto na rua acompanhado de sua madrinha veio o convite para participar dos programas de Moacir Franco e Roquete Pinto, onde interpretou Pelé. De lá pra cá são 33 anos de carreira, algumas dezenas de peças, mais de 30 novelas e filmes e aproximadamente 25 prêmios, entre eles o Shell, APCA e Moliére.


Formado em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), pianista e cantor, Eduardo Silva é a própria história contemporânea do nosso palco. Desde os anos 70 enfrenta os mesmos dogmas relacionados ao artista negro. Porém, negocia sua imagem, deixando explícito suas escolhas políticas e trava uma luta diária para subverter estereótipos em cena. ”Me interessa fazer um motorista que apareça bem mais, do que um médico ausente na trama”.


Seus personagens, sejam em novelas como A História de Ana Raio e Zé Trovão, Éramos Seis e Meu Pé de Laranja Lima, ou no cinema, em filmes lendários como Quilombo, de Cacá Diegues e Garrincha - Estrela Solitária sempre tiveram algo a dizer e a problematizar. Mas é na arena do teatro que ele aposta suas fichas e acredita que, diante do projeto da barbárie da invisibilidade a qual o povo negro ainda está inserido, o caminho é criar possibilidades de novos espaços e parcerias para a construção de outras imagens e só assim nessa guerra das paisagens um imaginário de liberdade nascerá. Mas para Eduardo, tudo isso só será possível com estudo, conhecimento tecnológico e científico.


Eduardo é um esperançoso na vida e no Brasil. Atualmente direciona suas forças para a direção teatral de projetos de cunho social, voltados para uma dramaturgia nacional e na preparação e formação de artistas negros. “Cansei de fazer peça que só faz rir”.







Sidney Santiago é formado em Arte Dramática na ECA/USP, ator e membro fundador da Companhia de Teatro e Intervenção Urbana Os Crespos. Estudante de Sociologia e Política da FESPSP e articulador do Coletivo Homens de Cor.

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EDUARDO SILVA POR DURAN MACHFEE
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