CAFÉ AMARGO



UMA POESIA DE CARMEN FAUSTINO
ILUSTRAÇÕES RENATA FELINTO
SETEMBRO/ 2014



Naquela manhã,
O gole do café desceu queimando
Ardendo no sol
Gosto forte, de sangue e asfalto...


Na favela, o tiro nunca é perdido
Achou a Mulher Negra
Que deixou de alimentar seus filhos
Para virar saco pelas, ruas do cartão postal
Tudo gravado, a cena é forte, põe no ar!
Porém, se a cor da pele é quase a cor do chão
Não desperta sentimento algum
Nem de justiça, nem comoção
O choro profundo da família
Não derramou no horário nobre da novela
O grito de dor dos seus filhos
Não ecoaram nos casarões da zona sul


A notícia segue...
Dizem que é ano bom por aqui
Bola no pé, dedo na urna.
Turista e candidato subindo o morro
Foto e abraço na criança
Gosto de gol, caipirinha e cerveja
Discurso bonito, santinho na mão
Mantém a imagem, garantem a eleição...
Mas lá no Morro da Congonha, é ano de luto
O coração da família partiu
Seu corpo e sua vida banalizados na tela
Feridas gritando, vozes calando
Mulher negra, racismo e invisibilidade social...


E agora, o gole de café
Na boca dos filhos de Cacau
Desce amargo como fel
Gosto forte, de saudade e de sal.







CARMEN FAUSTINO Periférica da zona sul de São Paulo, tem formação em Letras e Literaturas. Atua no coletivo Mijiba de mulheres negras e entre prosas e poemas também é pesquisadora, articuladora cultural, revisora e educadora.

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