NA NOITE CALUNGA
DO BAIRRO CABULA




POEMA E FOTOGRAFIAS POR RICARDO ALEIXO
SETEMBRO/ 2015


*Texto originalmente publicado na edição zer016 da revista O Menelick 2º Ato.




Morri quantas vezes
na noite mais longa?


Na noite imóvel, a
mais longa e espessa,


morri quantas vezes
na noite calunga?


A noite não passa
e eu dentro dela


morrendo de novo
sem nome e de novo


morrendo a cada
outro rombo aberto


na musculatura
do que um dia eu fui.


Morri quantas vezes
na noite mais rubra?


Na noite calunga,
tão espessa e longa,


morri quantas vezes
na noite terrível?


A noite mais morte
e eu dentro dela


morrendo de novo
sem voz e outra vez


morria a cada
outra bala alojada


no fundo mais fundo
do que eu ainda sou


(a cada silêncio
de pedra e de cal


que despeja o branco
de sua indiferença


por cima da sombra
do que eu já não sou


nem serei nunca mais).
Morri quantas vezes


na noite calunga?
Na noite trevosa,


noite que não finda,
a noite oceano, pleno


vão de sangue,
morri quantas vezes


na noite terrível,
na noite calunga


do bairro Cabula?
Morri tantas vezes


mas nunca me matam
de uma vez por todas.


Meu sangue é semente
que o vento enraíza


no ventre da terra
e eu nasço de novo


e de novo e meu nome
é aquele que não morre


sem fazer da noite
não mais a silente


parceira da morte
mas a mãe que pare


filhos cor da noite
e zela por eles,


tal qual uma pantera
que mostra, na chispa


do olhar e no gume
das presas, o quanto


será capaz de fazer
se a mão da maldade


ao menos pensar
em perturbar o sono


da sua ninhada.
Morri tantas vezes


mas sempre renasço
ainda mais forte


corajoso e belo
- só o que sei é ser.


Sou muitos, me espalho
pelo mundo afora


e pelo tempo adentro
de mim e sou tantos


que um dia eu faço
a vida viver.





SOBRE O POEMA


O poema NA NOITE CALUNGA DO BAIRRO CABULA foi escrito especialmente para a revista O Menelick 2° Ato, e versa sob o impacto do massacre, por integrantes da Polícia Militar, de 13 jovens negros da periferia de Salvador, na Bahia, na noite do dia 06 de fevereiro de 2015. O trágico episódio foi batizado por integrantes da campanha Reaja ou será morta, Reaja ou será morto de Chacina do Cabula, nome do bairro onde residiam os rapazes assassinados.


Jogando com a dupla acepção da palavra calunga - mar e morte -, o poema, que li, pela primeira vez, em público, durante debate de que participei em 23 de março de 2015 no Salão do Livro de Paris, organiza-se, a um só tempo, como um protesto contra a naturalização das práticas de extermínio da juventude negra no Brasil e em diversos outros países e como um elogio da Resistência Ativa, em nome da Vida.


Dedico-o às minhas filhas Iná e Flora e ao meu filho Ravi.







RICARDO ALEIXO é poeta, musico, cantor, compositor, artista visual/sonoro, perfomador, ensaísta e editor. É autor, entre outros, dos livros Mundo Palavreado (2013) e Modelos Vivos (2010). Ja fez performances na Argentina, Portugal, Alemanha, Franca, Espanha e Mexico. Tem, no prelo, o livro Impossível Como Nunca Ter Tido Um Rosto, com poemas escritos entre 2011 e 2014.

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