UM JAZZ NO HARLEM


TEXTO NABOR JR.
FOTOS MANDELACREW
MAIO/ 2013


Pequenos prédios residenciais de quatro andares com tijolos amarronzados e a predominância de famílias negras nas estreitas calçadas da rua 126 compõe a vizinhança que abriga o Museu Nacional de Jazz do Harlem, ou The National Jazz Museum in Harlem, em Nova Iorque. Localizado ao leste da 5º avenida e estrategicamente posicionado atrás do Boulevard Dr. Martin Luther King Jr., o museu, apesar de acanhado, detém um dos mais importantes acervos musicais de jazz do mundo.


Por fora do prédio (um antigo e pequeno edifício comercial de três pavimentos) uma bandeira estilizada e um painel com uma fotografia do músico e ícone jazzista Louis Armstrong (1901 – 1971) tocando trompete recebem a companhia tipográfica do nome do museu. As letras garrafais e o colorido das mensagens os fazem percebidos inclusive por quem passa com olhos vagando pelas janelas dos trens das linhas 4, 5 e 6, que rasgam a paisagem da região passando em trilhos elevados a poucos metros dali.


A entrada do edifício é simples e nem de longe lembra o glamour que boa parte dos concorridos museus nova-iorquinos destilam pela cidade. Do lado esquerdo do pequeno hall um quadro com os nomes das organizações que ocupam as demais salas do prédio (entre elas Harvest Home Farmer´s Market e Harlem United Health Home), alguns metros adiante um elevador não muito confiável e uma íngreme escada de alvenaria nos separam a exatos 20 degraus (ou cerca de 10 segundos se a opção for o elevador) da importante Coleção Savory e de outras riquezas jazzísticas que o Museu Nacional de Jazz do Harlem abriga.


THE SAVORY COLLECTION


Criado em 1995, e mesmo ocupando uma tímida sala expositiva (infinitamente aquém do acervo que guarda e preserva), a instituição detém os valiosos áudios da Coleção Savory, ou The Savory Collection. Até poucos anos desconhecidos, esses os áudios foram adquiridos em 2010. São cerca de 1.000 discos com gravações de rádio feitas entre 1935 e 1946 (o auge da era do swing) pelo engenheiro de som e músico norte-americano William Savory (1916 – 2004). O material é basicamente composto por longas e notáveis performances ao vivo de estrelas do jazz norte-americano como Duke Ellington (1899 – 1974), Fats Waller (1904 – 1943), Louis Armstrong, Billie Holiday (195 – 1959), Count Basie (1904 – 1984), Benny Goodman (1909 – 1986), Nat Cole (1919 – 1965) entre outros.


No museu é possível ouvir boa parte dos áudios já digitalizados. Uma experiência incrível capaz de nos transportar mesmo que por alguns poucos minutos para uma era de ouro do jazz norte-americano. Pelo site do museu também se tem acesso a alguns trechos da Coleção.


William Savory, ou Bill Savory como era conhecido, fez as gravações em discos de alumínio e acetato de 16 polegadas a uma velocidade de 33 1/3 rpm (rotações por minuto). Condições essas raríssimas a época, uma vez que a imensa maioria dos discos disponíveis era de apenas 78 rotações e 10 polegadas, capazes de capturar, no máximo, cerca de três minutos de música por gravação. A combinação de discos maiores, velocidades mais lentas e materiais mais duráveis, permitiu que Savory, dotado de suas habilidades técnicas, gravasse performances na sua totalidade, incluindo longas jam sessions e tornando seu material de raríssimo valor histórico.


Até 2010, poucas pessoas no mundo do jazz sabiam desse acervo. Quando Savory morreu, em 2004, Eugene Desavouret, um filho do engenheiro que vive no estado norte-americano de Illinois, recuperou os discos e vendeu a coleção em sua totalidade para o museu.


Dizem alguns especialistas que a coleção lançou, inclusive, uma nova luz sobre o que é considerado o primeiro festival de jazz ao ar livre do mundo, o Carnival of Swing, realizado em 1938 na Randalls Island (NY). Mais de 20 grupos tocaram no evento, incluindo as orquestras de Duke Ellington e Count Basie. E embora existam algumas filmagens do festival, parte das performances de Count Basie e Stuff Smith (1909 – 1967), por exemplo, só vieram a aparecer nos áudios colhidos por Savory.


Outra parte importante da coleção é composta por performances de nomes como Goodman, Teddy Wilson (1912 – 1986) e Billie Holiday tocando em ambientes inusitados ou em conjuntos de improviso. Fantástico!


JAZZ EM IMAGENS


Duas mostras fotográficas (ambas sem título) estão em exibição no museu desde o início do ano e permanecerão em cartaz até dezembro.


Uma delas é assinada pelo fotógrafo Ed Berger. Figura conhecida pelas instituições de jazz nova-iorquinas, Berger também é biógrafo (co-autor, entre outros, do livro Benny Carter: A Life in American Music, 1982) e chefe de serviços de pesquisa do Institute of Jazz Studies, ligado a Rutger University, em Newark/ NJ, considerada a maior e mais completa biblioteca/arquivo de jazz do mundo.


Revelando a intimidade com a luz já apresentada no livro dedicado ao jazzista Benny Carter, Berger apresenta oito fotografias em P&B onde capta com plástica detalhes de gestos, instrumentos e outras nuances de performances ao vivo que passam despercebidas aos olhares em transe já rendidos aos apelos da audição. Dedos, mãos, braços e suor, mesmo fixados na parede e eternizados em fotografias, ora parecem se mover nas imagens de Berger.


Richard Conde exibe outras 13 fotografias em dimensões maiores e praticamente ao lado da mostra de Berger. A única divisão entre elas é um cubo de vidro sob uma bancada de concreto que guarda um disco original de alumínio de uma das gravações da Coleção Savory.


Apesar de também ter como objeto das fotografias jazzistas contemporâneos, Conde optou por imagens coloridas e retratos posados; e o invés de detalhes, a composição de cenários e a capacidade de extrair boas expressões dos retratados. Por serem maiores chamam mais atenção.


Interessante para conhecer bons nomes da nova cena jazzista de Nova Iorque.


VOCAÇÃO EMPREENDEDORA / FORTALECIMENTO DA CULTURA LOCAL


Para além do acervo da Coleção Savory, das exposições fotográficas e do pequeno acervo de livros e discos dedicados ao jazz, o Museu possui claramente como vocação principal o empreendedorismo cultural e a lealdade aos seus princípios em dedicar-se a promoção e preservação da música e ao que chamam de “espírito” jazzista.


São 11 programas fixos dedicados ao jazz, como encontros entre músicos, estudiosos e apreciadores do ritmo, performances ao vivo, rodas de conversa e workshops. As atividades (entre elas o Harlem Speaks e o Jazz in the Parks), a maioria gratuitas, são tanto realizadas nas dependências do museu como também em espaços públicos da cidade de Nova Iorque em parcerias com organizações locais e a participação efetiva do poder público. Além de atrair visitantes ao museu, essas atividades aproximam a comunidade da instituição e oxigenam a já movimentada cena jazzista no Harlem.


AQUÉM DO ACERVO QUE TEM E DA MÍSTICA DO BAIRRO


A área expositiva do museu propriamente dita é acanhada, ocupando pouco mais que 10 metros quadrados onde ainda encontram-se um piano Steinway, duas estantes com um pequeno acervo de livros e utensílios promocionais do museu, cadeiras destinadas às atividades presenciais e uma mesa utilizada por um funcionário que recepciona os visitantes.


Pela influência que o tradicional ritmo norte-americano exerce e pelas cifras que direta e indiretamente movimenta (só na cidade de Nova Iorque, incluindo seus cinco condados: Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e State Island, são cerca de 300 bares, restaurantes e clubes que tocam jazz ao vivo), o museu é pequeno.


A infraestrutura também não é das melhores. A iluminação central de luz branca pouco ressalta as fotografias que forram suas paredes (pelo contrário, refletem seus raios de luz) e as cadeiras espalhadas no centro do museu (utilizadas para as atividades internas promovidas pelo espaço) dificultam a locomoção dos visitantes.


Por levar consigo o "peso" que representa o nome do tradicional bairro negro e jazzista, talvez o mais pulsante reduto do jazz fora de sua nativa Nova Orleans, o museu também mereceria mais.


Mas esses entraves tornam-se meros detalhes ao caminharmos pelas místicas ruas do Harlem expiando sua gente, suas casas de jazz e igrejas, até chegarmos ao museu e descobrirmos aos poucos as preciosidades que ele nos reserva.




THE NATIONAL JAZZ MUSEUM IN HARLEM

104 E 126th St.
Nova Iorque, NY 10035
Entrada gratuita
+ INFO NJMH


PARA VER E LER

Benny Carter: A Life in American Music
M. Berger, E. Berger and J. Patrick
Published by Scarecrow Press
1982


PARA OUVIR

Afro-Bossa
Duke Ellington and his Orchestra
1963

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