EMICIDA E A REVOLUÇÃO SILENCIOSA. TIPO I LOVE QUEBRADA


TEXTO NABOR JR.
FOTOS MANDELACREW
MARÇO/ 2013


A principal atração musical da pequena e hippada casa de shows Nublu, na fria noite nova-iorquina do último sábado (09), seria o conceituado projeto local Wax Poectic (que já teve nos vocais a doce voz da pianista e cantora estadunidense Norah Jones). Seria, pois na prática o que se viu foi o flow singular e o carisma de um dos melhores mc´s que a terra brasilis produziu nos últimos anos, Emicida (acompanhando do Dj Nyack, Evandro Fioti e Felipe Vassão), roubar a cena no clube.


A apresentação do rapper durou pouco mais de uma hora e, no que diz respeito aos arranjos do set-list da noite, teve algumas nítidas diferenças com relação aos shows realizados no Brasil (certamente para melhor entreter o público gringo), como a utilização de ritmos genuinamente brasilireiros tais quais samplers de Jackson do Pandeiro (Sebastiana) e maracatus da Nação Zumbi entre a introdução de uma música e outra, além da substituição da frase “foda-se vocês” por “fuck the system!”, na música Dedo na Ferida. A fórmula arrancou aplausos do público (que em muitos momentos chegou a cantar algumas estrofes junto com o rapper) e, apesar da barreira do idioma, aproximou os gringos que somavam pouco mais da metade dos presentes no show. Entre eles estava o dj norte-americano K-salaam, um dos produtores da música Zica Vai Lá (2102), do próprio Emicida.


Já entre os brazucas estava a atriz Sônia Braga, amiga do rapper e há mais de 20 anos moradora da Big Aple.


Com um repertório que mesclou músicas dos seus principais discos: Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe... (2009), Emicídio (2010), Sua Mina Ouve Meu Rap Tamém (2010) e Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011), o show, apesar de não ter a mesma energia de outras apresentações, foi muito bom.


Mas foi o after party, numa conversa tête-à-tête com Emicida (a quem chamo de Leandro), já nos camarins do Nublu, a melhor parte da noite. Conversando sobre sua turnê nos EUA (esta já é a quarta ou quinta vez que o rapper faz shows no país), Emicida, cada vez mais maduro como artista e também como busineesman, revelou alguns dos seus próximos planos profissionais. Não necessariamente em cima do palco. Mas fora dele.


Entre suas frases e colocações, a que mais me chamou a atenção foi o de “meter o pé”, conforme ele mesmo disse, no entretenimento underground brasileiro. Tal qual ocorreu com o processo de apropriação da mídia norte-americana pelos negros nos EUA. “Roubar a cena do entretenimento brasileiro” significa ocupar com qualidade e profissionalismo um lugar que nos é de direito, utilizando estratégias que passam, em primeiro lugar, pelo diálogo (com ganhos para ambos os lado) com as grandes corporações.


“Às vezes a gente chega em um lugar considerado grã-fino e se sente acanhado, pensando que ali não é um lugar para gente. Mas pelo contrário, é lugar para gente sim! O que esses engravatados fizeram para estar lá? Nada. E por que a gente que faz um puta corre não pode estar também. Fiquei anos xingando os ‘caras’ e onde cheguei? A lugar nenhum. Hoje eles (grande corporações do entretenimento nacional) me respeitam. Sento pra conversar com eles de igual pra igual, e sei o que é e o que não é bom pra mim”, diz. Os planos do rapper, produtor e compositor passam ainda, entre outros, pela produção de um seriado de ficção para a Internet e a criação de uma nova mídia física (tal qual o inovador projeto digital NOIZ) com força suficiente para alcançar os quatro cantos do país e movimentar nichos excluídos da sociedade.


“Tudo isso, é claro, passa por um processo de educação do nosso país. E este processo é lento. Muito provavelmente a gente dê início a essas mudanças, mas talvez já não estejamos mais aqui para ver os verdadeiros frutos dessas transformações”, diz ele.


Apesar deste empecilho histórico que trava boa parte das boas iniciativas independentes no Brasil, basta olharmos com atenção para os feitos do rapper para notarmos que os primeiros passos rumo essa transformação já foram dados: a estabilidade alcançada pela grife A Rua é Nóiz, o fortalecimento do seu nome como um dos principais representantes do rap nacional (já fazem quase dois anos que o rapper não lança um disco e mesmo assim segue com a popularidade em alta) e o crescimento do Laboratório Fantasma (que hoje produz e agencia a carreira de nomes como Ogi, Mão de Oito e Rael da Rima), os milhares de views e seguidores de suas páginas sociais são exemplos de um rap nacional não apenas autosustentável, mas também, e principalmente, rentável.


A estrutura profissional até aqui arquitetada por Emicida (já desenvolvida em menor escala, mas com a mesma seriedade que o tema merece ser tratado, por nomes como Parteum, por exemplo), e que sustenta não apenas sua carreira em cima dos palcos, mas também os produtos derivados da sua música e da sua imagem, nos levam a crer que capacidade organizacional e de mão de obra qualificada para realizar esses próximos passos não lhe faltam. Pelo contrário, tendo como grande coringa o peso que hoje o seu nome possui no mercado (guardada as devidas proporções, é verdade) por trás dos projetos que pretende realizar, os mesmos tem tudo para vingar.


Não duvidamos da capacidade de realização de Emicida para além da sua qualidade artística. Desde que despontou com o single Triunfo, em 2008, suas boas ideias e, principalmente, suas as ações efetivas, não se resumem a um pedaço de papel. É fato que trata-se de um ótimo articulador, uma cabeça pensante para além de fazer e vender discos e shows, e que segue a passos largos em sua revolução nem tão silenciosa assim. Bom para ele, para o rap nacional e para a democratização de uma sociedade que ainda é refém de hábitos e costumes pré-estabelecidos.


Zica, vai lá!



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