DOSSIÊ GEGÊ


TEXTO NABOR JR. E SEMAYAT OLIVEIRA
FOTO MANDELACREW
NOVEMBRO/ 2013


São Paulo, 19 de outubro de 2013. Estação Barra Funda da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Estamos nos primeiros dos 35 quilômetros de extensão da Linha 8 – Diamante, rota que liga a Estação Ferroviária Júlio Prestes, na região central da cidade, ao município de Itapevi. E como diamante nos olhos dos outros é refresco, mesmo em um “tranquilo” início de tarde dominical paulistano os vagões estão relativamente cheios. São pouquíssimos os assentos livres. Definitivamente São Paulo não para.


No pulso o relógio marca pouco mais de 13h. Do lado de fora do trem o sol brilha forte. Na rua a sensação térmica supera tranquilamente a casa dos 30ºc. Um contraste com o frio condicionado dentro do vagão em que estamos. Frio este que nos acompanhou até o nosso destino final: a Estação Antônio João, em Barueri, onde erámos aguardados pelo MC, professor, educador e militante do movimento hip hop Cristiano Pereira da Rocha, o Gegê (derivação da palavra Jejê, original do Yorubá Adjeje, que significa estrangeiro, forasteiro).


Fanático consumidor de livros, discos e filmes “não oficiais e que contam a verdadeira trajetória do negro diaspórico”, como costuma dizer, Gegê abriu as portas do seu pequeno e aconchegante apartamento na Cidade Ariston para conceder uma entrevista a O Menelick 2º Ato.


Além do clima seco e do asfalto em “chamas”, nos pouco mais de 15 minutos percorridos no caminho entre a Estação Antônio João e a casa do artista fomos acompanhados também pelo alto e bom som que saía das caixas de som de carros, bares e até mesmo de algumas residências da região. A salada sonora de ritmos – característica comum nos finais de semana das periferias de São Paulo - incluía desde forrós e sambas até funks, raps e música sertaneja. Gêneros estes incorporados a nossa caminhada e que serviram de trilha sonora para as primeiras frases do nosso anfitrião.


“Antes as pessoas que ficavam na rua após as 18, 19 horas por aqui corriam o risco de não ver o sol nascer. O bicho pegava mesmo. Tinham finais de semana que 6, 7 amanheciam assassinadas aqui na quebrada”, nos contava o anfitrião enquanto passávamos por de baixo do viaduto Marechal Rondon (que divide as cidades de Carapicuíba e Barueri), caminhando em direção a sua casa, no bairro Cidade Ariston, em Carapicuíba.


Aos 29 anos de idade, Gegê, filho caçula de uma família de 9 irmãos, pais de dois filhos e integrante do grupo paulistano de rap Caos do Subúrbio, acaba de lançar Di Gegê pra Jejês, seu primeiro álbum solo. “O nome do disco vem de uma reflexão entorno dos povos africanos das mais variadas origens, como nagôs, malês, bantus, jejês – que forçosamente atravessaram o Atlântico na condição de escravos. Condição essa que perdura até os dias de hoje, e que por imposição, se tornaram forasteiros e estrangeiros nestas terras”.


Apesar da trajetória politizada e do histórico de militância racial, Gegê tem a pele clara. Facilmente poderia autodeclarar-se branco e se beneficiar das “vantagens” deste posicionamento em um país racista como o Brasil. Os livros e o rap, porém, o “salvaram”. “Eu sou preto! (...) Meu irmão mais velho e eu, que sou o caçula, somos os únicos claros, mas com o cabelo crespo da família. Meu pai e minha mãe são claros também. Só que o pai da minha mãe é preto, e minha avó, por parte de mãe é índia”, explica.


Do alto dos seus bem cultivados e longos dread locks, “símbolos de resistência”, seus conflitos e aspirações enquanto artista não se diferem muito dos demais rappers independentes do Brasil: o sonho de viver da música e ver os protagonistas do movimento hip hop colherem os frutos financeiros do investimento artístico e social que cotidianamente cultivam nas mais variadas quebradas do país.


Mas apesar dos mais de 15 anos dedicados ao rap e ao fortalecimento intelectual de jovens negros e moradores das bordas da cidade, a realidade que atualmente circunda o artista é outra. A rotina de shows, ensaios e gravações ainda é dividida e, porque não dizer, financiada, pelo trabalho que desenvolve como educador social na unidade Jaçana do SAICA (Serviço de Acolhimento Institucional Para Criança e Adolescente) e a venda de filmes e documentários relacionados a cultura negra. “Ainda são pouquíssimos os que conseguem viver da música. Nomes como Criolo, Emicida, Projota e Rashid são os únicos que me vem a cabeça agora”, conta.


Di Gegê pra Jejês levou cerca de um ano e meio para ser produzido. Fruto de uma parceria com o selo Rec Livres Records, o álbum chegou as ruas no último mês de agosto cercado por expectativas, especialmente pelos militantes do movimento rap de São Paulo. Afinal, tratava-se do primeiro disco solo de alguém que vive e respira o rap a quase duas décadas. Mas, conforme já prevíamos, nossa conversa transcendeu as ideias e sonoridades que permeiam o novo trabalho do artista. Gegê é daquelas figuras que enriquecem o movimento hip hop pela curiosidade em estudar o passado ancestral do negro diaspórico com o objetivo de fundamentar sua caminhada e legitimar a produção contemporânea dentro do gênero musical que escolheu. Mais do que isso, por ainda enxergar no rap os mesmos ideais que acompanharam o seu surgimento e desenvolvimento no Brasil, ou seja, um instrumento de luta, debate, reflexão e libertação.



ENTREVISTA



A DESCOBERTA DO RAP


Minha infância e adolescência foi toda ouvindo rap. Conheci o rap quando tinha uns sete ou oito anos de idade através do meu irmão mais velho, o Zezinho (que foi assassinado em 2001, aos 33 anos de idade). Ele tinha umas pick-ups em casa e colocava uns vinis pra gente escutar. Lembro-me de ouvir Pepeu (um dos precursores do rap no Brasil) com ele, Ndee do Rap (que mais tarde mudou de nome e tornou-se Ndee Naldinho), Região Abissal (que depois virou A Firma). Enfim, uma grande escola.


PELE CLARA, CONSCIÊNCIA NEGRA


Depois de quatro anos vivendo em Planaltina, Goiás, minha família retornou para São Paulo em 1999, viemos morar em Francisco Morato. Foi quando conheci uns moleques que partilhavam desse mesmo gosto pelo rap que eu. Na época quem estava no auge eram nomes como GOG, Consciência Humana, DMN.


E esse grupo de pessoas que mencionei e que compartilhavam deste gosto pelo rap começou a se encontrar com mais frequência. Era um coletivo grande, tipo uns 17, 18 caras. Depois inclusive, alguns deles vieram a se formar na faculdade, vários deles na PUC, como eu.


Alguns de nós, especialmente os mais velhos, que já tinham uma experiência e um envolvimento maior com a leitura e um conhecimento maior do que era o movimento Hip Hop, principalmente por terem vivido com mais intensidade a década de 80, como o Luiz Preto (do grupo Caos do Subúrbio), o Paulão (atual secretário de cultura de Francisco Morato), o Anderson (hoje vereador também em Francisco Morato), esses caras tinham a informação, nos indicavam livros, filmes. Foi então que começamos a consumir essa cultura e fazer deste grupo, mesmo que involuntária e indiretamente, um grupo de estudos. Quando fomos ver já estávamos falando da obra de Richard Wright (autor do livro Filho Nativo), problematizando a história de Malcolm X, falando do Abdias do Nascimento, Cuti, Correia Leite. Enfim, virou um hábito fazermos essas leituras e reflexões em conjunto.


Nesse momento, quando tivemos acesso a essas leituras, é que descobrimos, por exemplo, que no Brasil existiu um projeto político de embranquecimento da nação. Foi quando também tive acesso a um material onde o Malcolm X dizia que quando ele ainda era Malcolm Little, ouviu da mãe dele, que era filha de preto com irlandês, que ela odiava a parte branca dela. Soube da história do pai do Malcolm, que dava mais atenção para ele porque era o mais claro da família. Quando na verdade ele era tão preto quanto qualquer um na época. A minha consciência negra veio daí. Quando conheci o rap e a leitura, especialmente a leitura dos autores que não constam na história oficial. Estávamos tão envolvidos com esses temas que a gente respirava hip hop, movimento negro. Conhecemos o hip hop assim, ou seja, como instrumento político e de autoafirmação.


GEGÊ E OS FILMES


Desde pequeno eu curto muito ver filmes, desenho animado. Assisti muito Changeman, Lion Man, Jiban. Quando o pessoal mais velho do rap e do movimento negro começou a nos indicar uns filmes para assistir e não tínhamos esse lance de TV a cabo e tal, nos disseram que poderíamos encontrar alguns filmes nos sebos do centro de São Paulo. Foi então que começamos a virar ratos de sebo.


Na época, revistas como a Pode Crê, por exemplo, sempre tinham uma indicação de filme do Denzel Washington, dos Panteras Negras, enfim.


Então, pegávamos o trem e íamos em uma banca de moleques atrás destes sebos. Na época os VHS´s eram baratos e saímos dos sebos com caixas de filmes. Os preços baixos refletiam muito o fato dos sebos não serem muito procurados por interessados em uma filmografia que tratasse da questão do negro nos centros urbanos, da violência suburbana e tal. Os “caras” estavam aficionados por Stanley Kubrick. Nós, em John Singleton, Spike Lee.


Então eram três eixos, música, leitura e os filmes. Tínhamos que conhecer tudo, até porque os mais velhos cobravam isso da gente. E cobravam muito o conhecimento intelectual acerca do nosso povo. Ainda mais de mim que sou mais clarinho (risos). Os mais velhos cobram isso da gente até hoje, e eu também cobro isso da molecada mais nova do rap. Então o lance dos filmes começou basicamente assim.


Derrepente as visitas aos sebos começaram a ficar cada vez mais frequentes, e comecei a acumular muitos filmes em casa. Minha vida tinha virado CD, livro e filme. Eu trabalhava praticamente apenas para ter acesso a essas coisas. E como eu comecei a ter muitos filmes, muita gente começou a ir em casa para pegar emprestado esses materiais, mas os filmes iam e nunca voltavam. E pô, eu sabia o valor deles para mim. Era para minha formação, autoconhecimento e tal. Acabou que eu comecei a perder muitos filmes.


Foi neste mesmo período que conheci essa parada de transferir arquivos de uma mídia para outra. Tipo passar um material em VHS, fita cassete, vinil, enfim, para o CD ou DVD. Então comecei a passar os meus VHS´s para DVD. E a estética desses filmes ficava muito foda. Já havia DVD na galeria, mas era muito caro.


Depois que fiz as primeiras cópias, decidi leva-las aos encontros que nós íamos. Por exemplo na Posse Hausa, em Santo André, e outros eventos que tinham o hip hop e o movimento negro como mote. Um dia eu estava na Casa do Hip Hop, em Diadema, e o Dj Dandan viu os filmes e falou: “Mano, cada pérola que você tem aí, hein! Porque você não cola na rinha dos MCs com esses filmes para a molecada conhecer?” Depois, já na Rinha, o Dj Kl Jay me viu, também gostou dos filmes e me disse para eu leva-los na festa Sintonia. No Sintonia, o Dj Marco falou para eu ir em tal evento com os filmes. A Vivian Marques (Dj) me convidou para levar os filmes da festa Tempos da Soweto, enfim. Os convites foram rolando naturalmente e a coisa de vender os filmes tomou uma proporção grande.


O que chamava atenção das pessoas é que boa parte dos filmes que eu vendia foram responsáveis pela formação de mais de uma geração inteira de amantes do hip hop, dos anos 80 até meados de 2000. É muito mais fácil, por exemplo, o cara comprar um filme do Malcolm X do que este mesmo cara comprar a porra do livro sobre o Malcolm. O Brasil é um país que não tem a cultura da leitura. Somos um país que perde em leitura para a Argentina, Chile. Então o filme foi esse processo, dos eventos relacionados ao movimento negro, passando pelos evento de rap e agora praticamente em vários outros encontros que reúnem a negritude paulistana. Fiz Feira Preta, eventos da juventude negra. Acho que vou fazer um filme sobre isso aí! (risos).


O SURGIMENTO DO MC


Comecei a escrever meus primeiros versos em 1998, por volta dos 14 anos, quando morava em Brasília e me envolvi com uns meninos que faziam rap por lá. Esses meninos tinham umas batidas sampleadas de uns vinis e começamos a ensaiar. Nunca chegamos a nos aprofundar muito no trampo ou fazer alguma apresentação, apesar de termos ensaiado bastante. Coincidiu também que minha família teve que se mudar as pressas para São Paulo e fui parar novamente em Francisco Morato. Isso era em meados do final de 1999 e o rap nesse período estava estralando em São Paulo. Posso dizer que o rap era popular nessa época. Não existiam ainda os centros culturais onde o rap tivesse abertura. Não se tinha internet, ou melhor, acesso a internet a grande população. O único veículo de massa da época era a rádio 105 FM. No máximo tinha um ou outro programa na RCP (uma rádio especifica de black music) e na Rádio Metropolitana, com o falecido Natanael Valêncio, que também divulgava o rap nacional. O que havia aos montes eram os shows rolando única e exclusivamente nas periferias, em Francisco Morato, Jundiaí, Guaianazes, Santo André, ou seja, no entorno do centro da capital.


Ao mesmo tempo em que rolava toda essa efervescência nas periferias de São Paulo, no bairro onde eu morava, que era o bairro Lago Azul Alto, em Franco da Rocha, um certo dia os meninos com quem eu andava estavam discutindo que ninguém da nossa banca cantava rap. Daí eu falei: “Pera aí, eu canto!”. Aí eles disseram que tinha um mano no Morro do Facão (bairro vizinho) que também cantava um rap. Esse cara era o Eliabe (hoje integrante do grupo Caos do Subúrbio). Dai eu fui trocar uma ideia com ele.


- E aí, já fez rap? Eu perguntei.
- Não, mas a gente faz sem problema! Ele respondeu.


Não demorou muito e ele me apresentou para uns caras que faziam rap no bairro dele também e assim nasceu o embrião do que hoje é o Caos do Subúrbio.


CAOS DO SUBÚRBIO


Antes de ter o nome Caos do Subúrbio, tivemos outros nomes. Primeiro foi Verso Letal. Mas aí passou um tempo e eu observei que os grupos que surgiam na época meio que colocavam quase que todos os nomes muito parecidos. Tipo Conexão Verbal, Calibre Verbal, não sei o que lá letal. Daí nós pensamos: ‘Porra, vamos ter que mudar essa merda’. Como éramos um coletivo diverso - dentro do nosso grupo, por exemplo, tinha cara que era do punk, do rock, cara que só jogava um basquete, mas curtia ouvir o som - eu pensei comigo: "Pô, mô caos isso aqui!". Só que caos não é uma palavra muito falada na periferia, né mano. Então eu adotei o Caos como norte. Mas só Caos era foda, na época inclusive tinham vários grupos de punk e tal com o nome Caos. Mas também nós não queríamos algo muito batido para complementar o nome, tipo favela. Então eu pesquisei, cai no latim e tal e chegamos na palavra Subúrbio.


Nessa mesma época, como eu estava com vários problemas pessoais, de família, comecei a escrever muito. Parece que quanto mais miserável vocês está, digo miserável em todos os sentidos, espiritual, financeiro, enfim, quanto mais miserável você está, parece que mais capacidade você tem de produzir, poetizar seu cotidiano. Pelo menos para mim foi assim. E nesta fase escrevi os meus melhores raps. Eu estava com 15 anos. Neste mesmo período começamos a ter uma certa visibilidade na quebrada porque eu, clarinho, com a cabeça raspada e o Eliabe, um galego de olho azul, fazendo rap, chamava a atenção. Era comum uns caras falarem: “o que que esses branquinhos querem?” Mas nos tínhamos talento. Então o Caos nasceu assim, lá em Francisco Morato, comigo e o Eliabe. Depois vieram os agregados.


E agora em 2010, fizemos uma formação comigo, Eliabe Caos, Negro Ras, Dj Guinho e o Luiz Preto, que era um daqueles caras que eu mencionei que chegavam com as informações. Ele era de uma organização chamada OCPP (Organização Consciente do Povo Preto) que era tipo uma versão brasileira dos Black Panther. Eles alimentavam culturalmente a molecada da quebrada. Chegaram até a montar uma biblioteca comunitária, iam nas escolas falar sobre a questão do racismo, dos problemas sociais e tal. E foram esses caras os primeiros a apresentar os livros e as músicas para gente. Eles diziam que não tinha essa de democracia racial, social, e que vivíamos sim, em uma sociedade capitalista, individualista. O Luiz Preto e esses outros da organização eram os caras conceito da quebrada. Se precisássemos de conhecimento e informação íamos atrás destes caras, e é assim até hoje.


DI GEGÊ PRA JEJÊS


O projeto que culminou no disco Di Gegê pra Jejê surgiu de um convite de um MC das antigas de um coletivo chamado Organização Xiita, que é o Pixote Xiita, que hoje faz parte do grupo Família 4 Vidas. Ele era diretor de um selo independente chamado Rec Livre Records, que foi quem fez a produção do disco. O convite e os trabalhos começaram no início de 2012, então o disco foi concebido e concluído neste período de cerca de um ano e meio. O Pixote já conhecia o trabalho do Caos do Subúrbio e ele tinha interesse de trabalhar ou com o Caos, ou comigo. Só que o Caos estava naquele processo de fazer shows, ensaios, clipes, enfim, atarefado pra caramba. Daí eu disse pra ele que tinha uma porrada de música guardada. Foi aí que ele me disse que eu tinha um potencial dentro do rap que não se esgotava nas rimas e nas marras. E eu topei tocar o projeto.


Este trabalho solo não tem diferença do trabalho que eu desenvolvo no Caos do Subúrbio, porque o Caos é minha escola, minha base de formação enquanto artista, enquanto militante, enquanto pai. Eu aprendi a ser muito mais organizado no trabalho com o coletivo, mais humano. Então Di Gegê pra Jejê é uma continuidade, uma extensão do trabalho do Caos, e do álbum Canibais do Novo Tempo.


É claro que, individualmente, tenho minhas particularidades, na construção das harmonias, melodias. Tem musicas que falam de sonhos, coisa que em um coletivo, onde se prega a diversidade e a libertação do povo, não é uma prioridade. Então no meu disco eu tenho a liberdade de tratar de temas que eu julgo importante para qualquer cidadão.


O disco é conceitual. Quem é o Jejê? Ele é o forasteiro, o andarilho, o estrangeiro. Esta mensagem de Gegê, que sou eu, para Jejês, é como se Jejê fosse uma generalização do povo africano, onde estão incluídos os bantus, nagôs, malês. O disco é uma mensagem específica de um cara, remanescente de um povo, para este mesmo povo. E quando eu digo povo eu não estou dizendo este povo de Perdizes não, Vila Mariana, não. Mas se eles quiserem ouvir e entender a mensagem é a cara deles, até mesmo porque eles não sabem o que é Oyá, Iansã e vivem falando.


A DESUMANIZAÇÃO DO SER HUMANO


Antes de ser educador sou MC, sou um filho do Hip Hop, e sou também pai, professor, músico, então eu sou um caos. E hoje, para trabalhar com educação, educar um sujeito, a pessoa não pode ser unilateral, eu não posso ter uma única interpretação. Até mesmo porque hoje em dia a vivência das pessoas é vasta, sejam elas vindas da onde for: do sul, do norte, da Bolívia, enfim, de vários tipos de realidade. Hoje o meu norte de trabalho é o diálogo, respeitar o sujeito. O respeito ao sujeito é trata-lo como sujeito, e não como um ser dependente do meu conhecimento ou da sua atenção, saca. Não, é simplesmente tratar o cidadão como sujeito. Mas sim tratar com igualdade alguém que nunca foi tratado como sujeito. Essa é a maior dificuldade: transmitir a essa pessoa que ela não é alguém apenas quando ela adquire algo, um diploma, um carro, ela é alguém por natureza. A desumanização do ser humano chegou ao seu ápice. E eu não estou falando de cinco séculos não, estou falando de vários séculos. Hoje você dá bom dia a uma pessoa e você esta pedindo para sair na mão com ela. Várias irmãs e tal que você chega e diz: “Pô, você tá bonita hoje”. A irmã te responde: “O que você quer comigo!”. “Calma, só estou dizendo que você esta bonita”. Você vai no trem hoje e observa que ninguém mais se olha. Eu tenho medo do que vai ser daqui a dez anos.


NOVOS PROJETOS


Estou com um projeto parceria com o Luiz Preto chamado Vanguarda Palmares, que fala da Lei 10.639/03. Um tema pouco falado e debatido dentro do rap. E fora dele também uma vez que não temos livros, ou melhor, são escassas as produções literárias que tratam desta questão. No Brasil se fala muito dos problemas sociais e minimamente das questões raciais. Então nos temos que trazer novamente a tona essas discussões envolvendo a educação. Porque o racismo esta aí, e o capitalismo nos engole. Minha filha, de 6 anos, ainda tem problema com o cabelo crespo dela na escola.


O RAP DE ONTEM


E sou praticamente fruto de uma terceira geração do rap. Tem a geração do final dos anos 80, geração do início dos anos 90 e a geração do final dos anos 90, a qual eu pertenço. Tive que acompanhar, ou aprender, sobre as outras duas gerações para conhecer a minha geração. Tive que saber quem era Nino Brown, Nelson Triunfo, tive que saber quais foram os primeiros discos lançados, tipo Consciência Black. Tive que conhecer o que era Zimbabwe, tive que saber quem eram os caras que estavam lá na São Bento, na Roosevelt, ou seja, eu tive que legitimar essa caminhada anterior a minha para entender o meu processo dentro deste universo. Não bastava ser preto e pobre para fazer rap. O conhecimento era exigido de nós. O mote de toda a produção de hip hop era o conhecimento. Até então o dispositivo da nossa libertação.


Como é que a gente fica livre? Livre do racismo, do preconceito. Cada rap pra gente, na época, era construído com afinco a partir dessas ideias. Não tinha uma linha tênue, o bagulho era uma linha só. Se agente vai falar de droga, com qual objetivo nos vamos falar dela? porque sabemos que droga é ruim para o nosso povo. Vamos falar de amor, amor com qual finalidade? Que amor iremos falar? Tem que ter coerência. Tem que ser algo importante para nossa comunidade. Vamos falar de revolução, é a mesma coisa. Vamos falar de revolução para que os nossos alcancem outro estado, outra realidade. Ou seja, tudo era militância.


Falar de amor, não é chamar as irmãs de puta, vagabunda – mesmo que existisse essa realidade também, e existe ainda hoje, e não é só por parte da mulher. Todo rap tinha conteúdo. Até pra falar de maconha você tinha que ter uma causa, não era aleatório.


O RAP HOJE


Hoje os caras do rap tem tanto acesso a tanta coisa, né. Coisas que eu não tive acesso e muitos outros também não, ou seja, temos condições de construir coisas com muito mais conteúdo, vivacidade. Mas hoje a gente escuta as paradas e parece que soa mentiroso, meio que fadado ao fracasso. Pô, quando você ouvia uma musica chamada Fio da Navalha (do Racionais MC´s) que falava “precisamos de nos mesmos essa é a questão”, você parava e pensava: “Precisamos de nos mesmos. Não precisamos do sistema”. Ou quando escutávamos Mova-se (do DMN) que falava “de politica em politica” e tal, ou seja, tinha toda uma construção, uma reflexão para fazer o ouvinte pensar. Quando minha música diz “Não é rap a granel” é isso que quero dizer, que cada rap meu tem uma finalidade, um objetivo a ser alcançado, também a ser versado e também a ser refletido. Cada rap é como se fosse um livro pra entender, compreender, ou de repente só entreter.


BOOM BAP


Rap pra mim é uma remanescência de cultura africana. Em vários momentos da história do homem preto, seja em África ou na diáspora, são registrados vários momentos de luta, libertação e o hip hop é um desses momentos. O hip hop enquanto movimento urbano, periférico, feito por pessoas da periferia e tal, eu vejo isso como uma remanescência desta luta.


E quando o rap chegou dos EUA para cá ele chegou um tipo de rap, mais pesadão. E nós vamos descobrindo as coisas através de um processo, a década de 90 por lá se desenvolveu de uma maneira que era muito mais radical, muito mais hardcore, literalmente duro e pesado, puxado por grupos como Gang Star, Big Dog Producitions, Tribe Called Quest, que faziam uma batida que remetia a marcação das batidas dos tambores africanos e que se tornou um conceito de rap. Hoje nos temos uma legião de grupos e MCs que fazem rap boom bap. Eu utilizei o conceito boom bap no disco para ter um norte, uma vez que todos que estão envolvidos na produção do disco já trabalham a linha boom bap, mas se você ouvir o disco vai ver que também tem R&B, meus vocais são de R&B. A musica negra é vasta, cresci ouvindo tudo e ainda hoje ouço muita coisa, então adotei outros elementos que fazem parte da minhas referências musicais a este trabalho, mas a produção do disco é baseada no boom bap.


O RAP COMO NEGÓCIO


Eu quero ir muito além de fazer musica por amor ao rap, eu quero fazer disso um ganha pão. Apesar de ter uma formação em história, o máximo que eu vou conseguir sendo pobre, da periferia e preto meu chapa é ser professor. Então decidi fazer um disco que é minha cara, minhas verdades, não é verdade de ninguém, são minhas, até as duvidas que tem no disco são minhas. E para tornar realidade o lance de ter o rap como um ganha pão isso eu precisei me organizar. Isso quer dizer, agregar ao meu lado pessoas para organizar shows, agenda, imprensa, mas quem faz isso? Nos não temos entre os nossos profissionais que fazem isso, que pegam a musica rap, o artista e faça esse trabalho. Hoje você tem a Baguá Records que faz um bom trampo, mas ainda é pouco. Ter pessoas compromissadas é difícil. Quem fazia tudo isso (organizar shows, agenda) no Caos era eu. E eu percebi que isso (o artista fazer tudo) infelizmente não funciona. Não vivemos no país da palavra, vivemos no país do papel. Os caras foram lá na África, assinaram um papel e trouxeram milhares de negros pra cá. Sabe onde a gente tem palavra, na nossa casa, com os nossos amigos, e olha lá.


A arte produz lucro. E porque a gente não tem lucro nenhum nessa merda?


Então, pra podermos viver do que a gente ama temos que tratar a música rap como negócio, e tomar cuidado com quem se diz liberal, porque eles não são a favor de tudo. Sempre tem um adjetivo para separar.



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