DI GEGÊ PRA JEJÊS

CRÍTICA


TEXTO NABOR JR.
NOVEMBRO/ 2013


As letras e sonoridades que emanam do álbum Di Gegê pra Jejês estão intrinsicamente ligadas as reflexões que permeiam a trajetória intelectual do artista: um militante e estudioso das condições sociais do negro urbano e da vida nas periferias brasileiras. Mas, acima de tudo, revelam um rapper protagonista das realidades que canta e que acredita no poder de transformação dos versos que o movimento produz.


Ao privilegiar nas bases do disco a utilização de um dos mais tradicionais segmentos que a música rap fez florescer, o boom bap (onomatopeia que faz referência ao toque básico de um tambor, ou seja, boom – grave e bap – agudo), Gegê, com luvas de pelica, assume um tom político que questiona a miscelânea musical que transfigurou (em muitos casos para pior) a singular sonoridade e mensagem do ritmo, sugerindo assim um retorno as “origens” do rap: das letras engajadas a marcação seca das batidas.


Gegê - derivação da palavra Jejê original do Yorubá Adjeje que significa estrangeiro, forasteiro - inicia suas reflexões etimológicas e o resgate histórico as origens ancestrais do negro brasileiro já no batismo do disco, uma vez que a palavra Jejês faz referência aos povos africanos das mais variadas origens como nagôs, malês, bantus, que constituem boa parte do contingente de escravos traficados para o Brasil. O disco, dessa forma, popularmente falando, apresenta -se como uma mensagem de preto pra preto.


As letras da maioria das 15 músicas que compõe o trabalho reforçam ideais políticos, sociais e estéticos que estimulam a “libertação” intelectual do negro. Do começo ao fim do disco Gegê canta a superação do homem negro dentro do preconceituoso cotidiano da sociedade brasileira, a força do homem do gueto, o desejo por dias melhores, o sonho de ser feliz, a autonomia governamental e também cita nomes que simbolizam a luta do negro pela igualdade racial. O sul-africano Steve Biko, o nigeriano Fela Kuti, os norte-americanos James Brown e Malcolm X, Zumbi dos Palmares e Sabotage são alguns dos personagens mencionados ao longo do álbum.


A musicalidade simples, com bases mais sombrias e samplers sem muitos floreios (com exceção aos scratches do Dj Erick Jay na faixa Introdução), deve agradar especialmente os amantes do bom e tradicional rap. Os destaques do álbum ficam para o beat pesado e a rima afiada que acompanham as músicas Rap de Encruza, Refém da Emoção e Cerco Fechado.


Di Gegê pra Jejês nos apresenta um MC de flow harmonioso e um compositor com sagacidade poética para interpretar a realidade ao seu redor sem ser enfadonho. A maturidade intelectual do artista e sua longa caminhada dentro do movimento hip hop, porém, não foram capazes de se traduzir por completo no disco. Di Gegê pra Jejês carece de um diferencial estético, no campo da musicalidade, que o faça se destacar entre as milhares de produções do rap nacional. Contudo, em tempos de efervescência musical sem limites e experiências sonoras duvidosas, os ouvidos agradecem quando surpreendidos por um bom rap, e Di Gegê pra Jejês cumpre bem esse papel: um autêntico hino contra as forças do inimigo.



ÁLBUM Di Gegê pra Jejês
SELO Rec Livre Records
ANO 2013
PARTICIPAÇÕES Luiz Preto, Eliabe Caos, Pixote Xiita, Maique Maia, Sem Grana, H2 Czar, Godo, Jô Maloupas, Phantom, Ras Dartanhã, Dj Erick Jay, Heron Beats, DoismBeats e Ricardo Mock.


PARA OUVIR
Di Gegê pra Jejês

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