O NOVO CARNAVAL AFROBRASILEIRO


Antônio Risério
Foto MANDELACREW



O carnaval baiano se projetou nacionalmente graças à sua natureza de grande festa popular de rua, incendiando-se ao som dos trios elétricos. Enquanto o carnaval do Rio de Janeiro se converteu num espetáculo para uma platéia, um público pagante, na Bahia vai rolando uma festa onde todo mundo cai da gandaia. Esta é a originalidade do carnaval baiano, e seu atrativo: um baile imenso, colorido, feérico e frenético, nas ruas centrais de Salvador, estendendo-se do Campo Grande ao Terreiro de Jesus.


Sem perder esta sua característica essencial de festa popular, o carnaval baiano vem passando por uma grande mudança, desde meados da década de 70, e já nos mostra uma outra cara. Mais precisamente, o carnaval vem experimentado um processo de “reafricanização”. Processo que se tornou visível demais, que se impôs a todos, em 1980, quando novos afoxés e os chamados blocos afrobrasileiros (gênero estético-carnavalesco inaugurado por um bloco de jovens negros do Curuzu, Liberdade: o Ilê Aiyê) ocuparam definitivamente o espaço carnavalizado de Salvador, fazendo lembrar uma antiga afirmação de Nina Rodrigues, de que “a festa brasileira é ocasião de verdadeiras práticas africanas”. No carnaval de 81, a presença das entidades carnavalescas afrobrasileiras foi ainda maior. Quem circulassem pelas ruas, becos e praças do circuito carnavalesco, ia atravessando uma série de afoxés e blocos afro, pessoas exibindo trancinhas variadas e caprichosas, vestindo panos e batas, torsos e turbantes, colares e búzios, ao som dos atabaques e de cantigas baianagôs. Eram verdadeiras tribos afrobaianas, ostentando nomes sonoros e coloridos, geralmente iorubanos: Ilê Aiyê, Araketu, Olorum Babá Mi, Malê, Debalê, Oba Dudu Agoiyê, Olodum, Rumpylé, Tenda de Olorum, etc.


Difícil saber o número total de pessoas participantes desses blocos e afoxés. Certa vez, entre amigos íntimos da área, levantei a bola. As estimativas variaram entre 60 e 100 mil foliões (Geraldo Badá, que conhece o assunto e gosta dessas contas, me disse que o fazer o levantamento, mas não é o meu caso. O problema é que ninguém abre o jogo. Rxiste um decreto oficial limitando o número de participantes de blocos e afoxés (medida de preocupação da Secretara de Segurança Pública). Os blocos não podem sair com mais de mil integrantes e o teto dos afoxé é de 500 participantes.


Daí, teoricamente, era só fazer a listagem completa dos blocos e afoxés – e somar. Acontece que, embora fingindo acatar, ninguém respeita o decreto. Se alguém pergunta à diretoria do Ilê Aiyê sobre o número de foliões do bloco, a resposta é invariavelmente a mesma: cerca de mil. Na verdade, é o dobro. O Afoxé Badauê já saiu com cerca de 3 mil foliões, ou seis vezes mais do que o permitido pela polícia.


Mas, mais que meros números, o que importa mesmo é saber que é indiscutível a “reafricanização” do carnaval da Bahia. Digo “reafricanização” porque já aconteceu algo semelhante no passado, entre o final do século 19 e começos do século 20, por exemplo, como sabemos através de registros que chegaram até nós, desde notas estampadas na imprensa diária (Donald Pierson ficou impressionado com a imprensa, noticiando diariamente assuntos carnavalescos, desde 150 dias antes do carnaval – o que é mais um atestado da importância complexa e profunda do carnaval na vida baiana) até referências numa obra clássica da antropologia brasileira, Os Africanos no Brasil, de Nina Rodrigues.


Falando cobre a época, Nina observa: “As festas carnavalescas da Bahia se reduzem ultimamente quase que a clubes africanos organizados por alguns africanos, negros crioulos e mestiços”. É o tempo de entidades como A Embaixada Africana, Filhos da África, A Chegada Africana, Pândegos da África, com seus cantos e danças aplaudidos nas ruas. “As danças e cantigas africanas, que se exibiam com este sucesso no carnaval, são as danças e cantos dos candomblés, do culto jeje-iorubano, fortemente radicado na nossa população de cor”, escreve Nina. Testemunha ocular, Nina enfatiza os temas e motivos africanos desses grupos, como Pândegos da África. Fazendo desfilar pelas ruas de Salvador, ao som da poemúsica nagô, um carro e, que representava o rei Labossi, cercado de seus ministros, na margem do rio Zambeze.
Mas nem sempre os grupos carnavalescos afrobrasileiros estão na crista da onda. É curioso este movimento de maré, de fluxo e refluxo, na transa afrocarnavalesca. Há momentos em que a onda se espalha irresistivelmente, colorindo toda a cidade, seja na época do Pândgos da África, seja no auge dos Filhos de Gandhi, seja na exploração do Badauê. E há momentos de retração, quando tudo parece indicar o desaparecimento dos afoxés. Entre um extremo e outro, o inevitável banho-maria. Eu mesmo, aí entre a infância e a puberdade, conheci afoxés que sumiram do mapa, como o Mercadores de Bagdá. Pode ser que este movimento de fluxo e refluxo faça parte da própria respiração natural das coisas do mundo. Mas há também o condicionamento conjuntural, o terreno mais acidentado e palpável da explicação sociológica. O esmorecimento dos afoxés coincide, sem dúvida, com momentos de retração, de recolhimento, de presença discreta da comunidade negromestiça na vida local. Da mesma forma, a passagem da maré vazante à maré cheia afrocarnavalesca é inseparável do ativamento da transa dos pretos baianos.


Comentando a ascensão atual dos afoxés e dos blocos afrobrasileiros – “afirmação humana da gente da Bahia” -, Caetano Veloso vai por esse caminho. “Acho que é o boom da negritude...”, diz ele, pensativo. E acrescenta: “...vejo os negros delineando a própria imagem da Bahia, cada vez mais eles estão nas ruas, com trajes e posturas novas, quando até bem pouco tempo se escondiam nos bairros obres da periferia”. Caetano notou corretamente o nexo entre retraimento social e retraimento físico no espaço urbano. A projeção social, ao contrário, é acompanhada pela expansão – a vida da periferia se estende então aos locais públicos da cidade, e um bom exemplo disso foi a Festafro organizada por Linio Almeida em pleno Campo Grande. Nesse sentido, vale lembrar o que o ator Mário Gusmão, uma das figuras mais queridas e respeitadas da comunidade negrosmestiça baiana, disse do Ilê Aiyê: “O Ilê foi, simplesmente, o bloco que teve a coragem de botar no meio da rua aquilo que antes só acontecia na cozinha”.


Conhecendo a Bahia num momento especial de sua “reafricanização”, o poeta-cantor-compositor carioca do Morro do Estácio, Luís Melodia, pôde dizer: “Em Salvador, os negros saem ás ruas e ocupam o espaço a que têm direito na cidade. No Rio, eles têm que viver no morro e raramente descem pro asfalto. Raramente eu vejo um Black na Zona Sul. Até eu, quando comecei, tinha certo grilo de descer à cidade”. E oq eu se pode dizer em conclusão, é que viemos atualmente um momento em que se amplia e é ativado o já razoável espaço interétnico de Salvador. De resto, esta movimentação negra vai se expandindo também em direção ao interior baiano. É o caso da pequena cidade de Gandu, por exemplo.


Hoje, quando afoxés e blocos afro retomam conta do carnaval baiano, podemos ver claramente que o carnaval continua sendo um espaço privilegiado para a manifestação e a afirmação cultural dos negros, com as implicações sociais e políticas daí decorrentes. “Como o carnaval é uma das poucas conquistas já asseguradas dos negros, é natural que seja o momento máximo de aglutinação estética das forças de celebração”, comenta Gilberto Gil. Ele sabe do que está falando: “Vivemos numa época em que existe uma especialização em lutas setoriais, lutas de minorias. A luta negra do Brasil está dentro disso, com o papel preponderante dado à importância histórica da cultura negra e, aqui, ao fato da maioria da população da Bahia ter ascendência negra. Os negros começam a conquistar a possibilidade de se autogerir esteticamente”. Tendo em perspectiva esta mesma luta negra, Caetano concorda: “Os direitos dos negros são iguais aos dos brancos perante a Constituição, mas de fato não são considerados. Então, começa pela afirmação dos valores estéticos e o carnaval sem dúvida é o momento de concentrar as manifestações culturais”.


Caetano e Gil tocam num ponto decisivo. O carnaval apresenta claramente sua dimensão política e sociocultural. Uma complexa força transformadora atua intensamente ali naqueles poucos dias. E não é verdade dizer que depois do carnaval tudo volta a ser como era antes, como se nada tivesse acontecido. Trata-se de uma convenção social, certamente, de uma suspensão delirante da vida rotineira por um curto espaço de tempo. Mas esta convenção existe numa sociedade real, constituída por pessoas reais, que vivem, no carnaval, momentos especial e concentradamente importantes de suas vidas. Em outras palavras, o carnaval não existe no vácuo. Ele é um momento-sonho em que a vida social se expressa de forma específica, concentrada, simbólica. Ao mesmo tempo, ele é parte integrante dessa vida social, atuando concretamente sobre ela. Desse modo, a “reafricanização” deque falo não é simplesmente carnavalesca. Trata-se de um processo bem mais geral: o da “reafricanização” da vida baiana (e brasileira, evidentemente; a particularização vai por conta da perspectiva regional aqui adotada). “Reafricanização” que está tendo, no carnaval, seu clímax, sua expressão mais densa e colorida, mas que de modo algum se resuma aí. Fazendo certas críticas ao intelectualismo e ao burocratismo do Movimento Negro Unificado, Vovô, um dos criadores do Ilê Aiyê, demonstra perfeita consciência do lance: “A nossa mensagem maior é a festa, o espetáculo. O pessoal do Movimento Negro se reúne, se reúne, e não faz nada. E nós, através do carnaval, sem fazer discurso nenhum, já conseguimos modificar muita coisa por aqui”.







Artigo do antropólogo e poeta Antônio Risério, presente na obra Carnaval Ilexá (1981), Salvador, Editora Corrupio.



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