UM CANTO LIVRE QUE NUNCA FUGIU A SUA NEGRITUDE



Jorge Bem é o Orfeu Negro. Por suas artérias corre o vinho escuro que narra a saga feiticeira da sensibilidade popular de nosso país. Seu canto é uma espécie de amuleto que upa no neguinho na estrada, que ui no menino que encarna o sentimento atual da negritude nacional, que cai-pra-lá-cai-pra-cá no luxo só de uma mulata quando samba. Sua poesia é ingênua, primitiva, negra, crioula: vulgar navio negreiro a vagar nas águas turvas de nossa mazela cultural.


É impressionante a economia de metáforas na poesia de Jorge. Um nó poderoso, que vem de uma cultura silenciada, amarra o vôo da duplicidade da linguagem. Poderíamos dizer que se trata de uma poética que se articula a partir de um simbolismo modesto. Suas referências são mais literais do que literárias – no sentido de que não há o jogo, os desdobramentos e os vários níveis da linguagem poética. Antes de evocar, seu canto denota e descreve. Sua poesia é esfolada na carne, transpira a vida. Em seus versos palpita um coração que vibra com as belezas da raça.


Talvez não exista uma consciência poética em Jorge Bem. Tudo se passa como se ele, no coração da era tecnológica mais avançada, conservasse atavicamente os traços mais característicos da chama “arte primitiva”; arte que ainda não é Arte, com um fim em si mesma. Uma música que registra um vazio de finalidade puramente artística. Para usarmos as expressões de Mário de Andrade, trata-se de formações artísticas “empenhadas”, impuras e interessadas, que cumprem um objetivo extra-arte. Portanto, essa música que se encontra em estado selvagem, esse tipo de canto-fetiche, tem um interesse prático, seja ele religioso, celebrativo, social ou racial. É a música do Zé Pretinho que vem animar a festa e a do Zumbi que vislumbra sempre a transformação. Estamos no campo de uma arte não representativa, não figurativa, mas ativista e participante. Ela diz mais respeito a uma Ética e a uma Etnia do que à Estética.


Corrigindo um pouco as afirmações anteriores, talvez fosse mais adequado dizer que Jorge Bem se assemelha mais aqueles pintores que costumam ser rotulados de “primitivistas” ou “ingênuos”. Assim como nestes últimos chama a atenção a desproporcionalidade das formas e dos volumes, a ausência de perspectiva, o desenho “infantil”, em Jorge Bem nos desconcertam as imagens disparatadas, a absoluta gratuidade de certos versos, a espontaneidade estonteante com que ele pronuncia as aproximações mais absurdas. A exemplo do artista que, pensando captar melhor a essência das coisas, fixa o objeto como se ele fosse visto de múltiplos ângulos simultaneamente (um rosto com os olhos vistos de frente e o nariz de perfil, para citar um caso comum), Jorge inventa novas palavras, “palavras cantáveis”, com o prazer de criar “chistes musicais”: saiubá, sambaby, zautomóveis, voxê, tetê-teteretê.


Em alguns casos se trata de uma poesia intrigamente óbvia, cheia de associações em clichês, um inventário de estereótipos. Uma exposição tão à vontade de lugares-comuns poéticos que chega mesmo a produzir o efeito inverso, o do desatino. Uma aderência tão profunda e tão sem remorsos ao banal que ele se torna inusitado. Eis o paradoxo de Jorge Bem. Há um quê de super-realismo nessa atitude, confundindo espontaneidade com automatismo, fato que o coloca nas clareiras do surrealismo: fora das regras das convenções poéticas, as imagens podem jorrar em liberdade (“Me senti com direitos/ Com princípios e dignidade de me libertar/ Por isso sem preconceito eu canto”), produzindo a sensação do absurdo de um universo musical em que convivem temas como tradições africanas, lendas árabes, histórias medievais, alquimia, citação de Dostoievski e paisagem brasileira.


A pulsação rítmica é o lado selvagem da música. Os ritmos negros, que percorrem a América de norte a sul, são ecos da barbárie e de uma violenta história de opressão. A mão do preto no couro devolve a integridade do dilaceramento da mão negra que colhe o algodão branco. A dança se inscreve como a nostalgia de uma totalidade desaparecida para sempre, é o lugar onde o corpo decomposto pelo trabalho se transforma em corpo-em-regozijo.


Reparem na obsessão rítmica de Jorge Bem. Em suas músicas são escassos os fraseados melódicos rebuscados, os intervalos entre os graus. Ao contrário, são freqüentes as pequenas variações de altura e a repetição constante denotas iguais que, aliadas a suas curtas durações, reforçam o caráter rítmico das melodias. Em Os Alquimistas Estão Chegando, por exemplo, há uma sequência de seis compassos que repetem a mesma nota, com exceção do primeiro deles, quando se registra um intervalo descendente de um tom entre duas colcheias. Nos outros cinco, tem-se uma repetição quase infindável da mesma altura, sendo que, nos quatro últimos, ocorrem duas síncopes de colcehia entre semicolcheias no interior de cada compasso. (Como se sabe, a síncope é uma das principais patentes da música brasileira. Nela reside uma manifestação da astúcia do negro. Segundo Muniz Sodré, por meio da síncope, “o escravo – não podendo manter integralmente a música africana – infiltrou sua concepção temporal-cósmica-rítmica nas formas musicais brancas. Era uma tática de falsa submissão: o negro acatava o sistema tonal europeu, mas, ao mesmo tempo, o desestabilizava, ritmicamente, através as síncope”). Jorge Bem promove uma espécie de “ritmização” da melodia, como um reforço da visão musical negra. O ritmo devolve o preto a uma temporalidade mítica, coletivamente e liberadora.


Trazidos da África para o continente american, os negros vieram contar a história mucisal do final do século. A asa da graúna alçou seu vôo por todo o continente, estendendo o manto negro dos ruídos vibrantes de Orô, prenunciando a redenção final: “Quando Zumbi chega, é a zumba quem manda”. Salve Jorge. Salve simpatia.









Texto do jornalista Matinas Suzuki, originalmente publicado no encarte do disco Jorge Ben – Música Popular Brasileira, de 1981.