ALÁFIA SURPREENDE POR MATURIDADE MUSICAL EM DISCO DE ESTREIA



POR NABOR JR.
AGOSTO/ 2013


“Vale a pena acompanhá-los em 2013”. Dessa forma concluí o texto Operação Aláfia, publicado em dezembro do ano passado na edição zer010 da revista O Menelick 2º Ato, e que versava sobre a potencialidade coletiva e versatilidade individual do grupo paulistano Aláfia.


Na ocasião da entrevista, os músicos da banda viviam a expectativa da finalização do primeiro álbum do grupo, então previsto para chegar às ruas no primeiro semestre de 2013, mas que será oficialmente lançado no próximo dia 10 de setembro, em show que acontece no SESC Pompeia, em São Paulo.


Intitulado Aláfia, o trabalho revela uma maturidade musical surpreendente para um disco de estreia, reunindo boas composições, arranjos e uma difícil, mas aparentemente encontrada, musicalidade própria, que mescla a pluralidade da música popular brasileira com referências do que há de melhor na música negra norte-americana, especialmente a produzida nos anos 60 e 70.


Diferente do show, o disco soa mais comportado. Mas nada que impeça que as dançantes Kwa Lé Ki Pá e Mais Tarde, inspiradas nas músicas de salão dos bailes black, cheias de balanço, palmas e com arranjos precisos se destaquem. Apesar de alguns excessos, ou licenças poéticas para longas passagens instrumentais, a pegada black pop do grupo se saem bem em Aláfia.


Sobressai-se no disco, porém, a poesia de Eduardo Brechó. Das 10 músicas do álbum, 9 tem a participação dele como compositor, com destaque para as ótimas Mulher da Costa, O Homem Que Virou Música, Pura, Em Punga e Dara Dara. E são justamente essas composições, pela riqueza das letras e complexidade dos arranjos, somadas a sobriedade da interpretação de Xênia França, que dão o tom mais sério ao disco. Os corpos não deixam de dançar, é verdade, mas são os ouvidos que celebram o privilégio de ouvi-las.


No palco são 10 músicos (às vezes 9), muitas vozes, instrumentos e performances. Uma dinâmica que requer uma casa de shows capaz de abrigar não apenas a intrincada sonoridade proposta pelo grupo como também o grande número de artistas que o compõe. O que nem sempre é possível em uma apresentação ao vivo. No disco, ao contrário, o Aláfia é mais melodioso, minucioso e sonoro. Características que impulsionam a musicalidade do grupo e a competência técnica do seu experiente corpo de músicos.


As referências às matrizes da música negra deixam de ser exclusividade das vestes, programações e da esperta percussão de Allysson Bruno, mais contido e cirúrgico na gravação, e no álbum também dialogam com a rica tradição oral do povo africano, e se fazem presente nos muitos côros que se estendem ao longo de várias faixas, nas palmas e nas rimas de Lurdez da Luz e Raphão Allafin, que puxam a lista de convidados do álbum que ainda conta com os nomes de Akins Kinte, Luciana Oliveira, Quinteto Alma Negra, Lews Barbosa e Júlio Fejuca.


Aláfia é o disco de estreia que todo artista deseja conceber. Um trabalho autoral, maduro pelo pouco tempo de formação do grupo e muito bem produzido. Resta saber se darão conta de fazer no show a ótima impressão que deixaram no disco.




ALÁFIA
Aláfia
Gravadora YB
2013

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