BAOBÁ

MODA AFRO URBANA


Texto Tenka Dara
FEVEREIRO / 2013


Comecei a fazer roupas porque não encontrava nas lojas o que vestir e se encontrava, não me servia. Não havia modelos que se adaptassem ao meu corpo: quadril largo, cintura fina, etc. Desde 2001 eu crio saias e vestidos evasê que valorizam esse formato. As roupas que eu confeccionava faziam sucesso entre mulheres que tinham a mesma questão: “se eu não caibo nessa saia justa, vou vestir o quê?”


A BAOBÁ nasce desse vazio no mercado da moda brasileira. Posso me considerar uma estilista casual. Sou jornalista, formada em Comunicação e Artes pela PUC de São Paulo (turma de 2006) e trabalho com documentários. Aprendi sobre vestimenta fazendo figurinos para teatro (a minha primeira formação). Fiz Licenciatura em Artes Cênicas na Faculdade Paulista de Artes de 1998 à 2001.


Nasci em uma família negra de classe média baixa, na zona oeste de São Paulo e cresci no meio de uma elite intelectualizada bastante branca. Em diversos momentos eu era “a única” e me sentia mal com a minha própria diferença. Queria ser “igual” aos ídolos do meu grupo, aos artistas do cinema e da televisão. Desejava ser aceita, amada, ter a imagem que nos vendiam como fórmula de sucesso. Clássico!


Ao mesmo tempo fui criada por Dida Pinho (mãe) e T.C. Silva (pai), dois artistas militantes da causa negra e dos direitos humanos. O posicionamento dos meu pais me ajudou a entender um pouco melhor a história e o funcionamento da nossa sociedade. Constatei muito cedo que estava fora do padrão estético ocidental. Tentar persegui-lo seria a velha história do “Patinho Feio”, que se sente mal por não conhecer a sua verdadeira identidade.


Para desconstruir internamente esse padrão tão contraditório: onde aprendemos a amar e desejar o que nunca seremos, onde o bom e belo tem a imagem oposta a da maioria, fui buscar referências fora da cultura norteada por padrões de beleza europeus. Me fortaleci na imagem do negro nos Estados Unidos: Billie Holiday, Malcom X, Martin Luther King e outros. Na busca por referências me identifiquei com essa estética negra que chegava ao Brasil através dos filmes e da música consoladora e apaixonante dos brothers americanos. Adotei o estilo Black Chic, seguido pela minha família e por boa parte da comunidade negra paulistana. Um dia também questionei o “american dream”. Me dava a impressão de que a população negra para se afirmar imitava o padrão branco-capitalista.


Comecei a escutar MPB e a me inspirar nos seus representantes negros: Gilberto Gil, Elza Soares, Itamar Assunção. Em contato com a cultura brasileira me encontrei com as manifestações populares: o samba, o maracatu, a umbanda, o candomblé. Descobrir a sabedoria contida nos cultos de matrizes africanas me fez ver outras maneiras de pensar o mundo. Esses elementos revolucionaram a minha idéia de beleza. Descobri na cultura popular espaço para viver a diferença.


Em 2005 fui a África pela primeira vez, visitar a minha mãe que vive em Moçambique há muitos anos trabalhando como educadora. Cheguei com a cabeça povoada de idéias românticas, pensava que talvez pudesse ajudar os meus “irmãos de cor”. Lá, vi que não tinha nada a fazer a não ser ver e ouvir. Me deparei com um mundo complexo, cheio de tradições e culturas milenares, mas modificado pela colonização, pela modernidade. Mais intrigante do que imaginava, vi a África contemporânea.


Na capital moçambicana Maputo, as pessoas exalam criatividade, a arte está em cada esquina, nos cabelos, nas roupas, nos grafites, nos batiques. Cada um faz a sua moda, moda e arte fazem uma coisa só. As ruas parecem um grande desfile de estilos e de cores. As pessoas driblam as adversidades do cotidiano com a “criação” que permite reinventar a realidade. Tudo é arte e tudo se integra. Musica, dança, moda, teatro, pintura, poesia, transitam naturalmente pelas ruas da cidade e falam do mundo de sempre e do mundo de HOJE. Ganhei dessa experiência a possibilidade de romper as fronteiras entre moda, arte e vida. A estética africana se transformou indiscutivelmente na minha maior referência.


Voltei recarregada, me fez bem ver tantos negros juntos, donos das suas terras, da sua história, do seu passado e antenados no presente. Nós os negros da diáspora africana tivemos o passado roubado e isso nos tira simbolicamente o chão e o homem sem chão não caminha. Creio que por isso tenha me decidido a plantar e criar a minha identidade em solo brasileiro. O baobá é uma árvore milenar, cresce em diversos países da África e simboliza o conhecimento ancestral. É uma árvore que se adapta bem as condições climáticas do Brasil, por isso escolhi esse nome.


Apesar de estar convencida da necessidade de abrir espaço para uma moda “própria”, continuei me perguntando internamente: “Como dar forma a essa massa cheia de elementos?” O Brasil tem uma estética particular formada por muitas “tribos” e comportamentos. Influências européias e africanas se enraizaram num solo indígena povoado pelo mundo inteiro. Dessa somatória se faz a nossa cultura, somos frutos da multiplicidade, mas somos também os seus componentes.


No meio disso tudo está a moda, uma expressão comum a todos nós. Não apenas a moda das passarelas e revistas, mas também a moda de gente comum, das ruas da cidade: dos transeuntes, dos estudantes, mendigos, grafiteiros, camelôs, artistas populares, dos jovens da periferia. Através de roupas, pinturas, acessórios e penteados, nos expressamos e dizemos quem somos.


A BAOBÁ é uma marca que nasce em 2006 diante desse panorama: uma “colagem” que reúne os elementos com os quais me identifico dentro dessa diversidade.


A Capulana (tecido estampado com padrões africanos), é a matéria prima para a criação das roupas e acessórios da marca. Pano tradicional usado por mulheres de diferentes países da África há muitas gerações. As suas cores vibrantes trazidas para um contexto urbano quebram a rotina em preto e branco de uma cidade como São Paulo.


Outros ingredientes temperam essa receita: eu, Tenka Dara (“Terra Bela” em Iorubá), mulher negra, cabocla brasileira, paulistana afro-ameríndia, ocidental urbana, globalizada, “única” e parecida com tantas outras pessoas.


A vida urbana é sem dúvida a minha outra fonte de inspiração. A intervenção urbana é uma atividade importante da marca. Levar as cores para as ruas em forma de bandeiras e lambi-lambi são algumas formas interferência que criamos. Realizamos também a Exposição interativa: “VESTINDO AS CORES DA ÁFRICA”. Levamos um estúdio fotográfico móvel para as ruas, vestimos as pessoas comuns com tecidos africanos e fotografamos. Uma brincadeira que aproxima a estética africana da rotina na metrópole.


A nossa imagem reflete a nossa identidade, a moda pode ser mais do que uma alegoria, pode ser também um veículo de comunicação com o poder de construir e de desconstruir padrões. Por isso é importante que sejamos agentes da moda, criadores e não meros consumidores dos modelos que já existem.


A BAOBÁ é uma marca que reúne partes da cultura brasileira: urbana, afro-descendente, mestiça, globalizada. A marca faz uma “colagem” dos elementos dessa diversidade que é o Brasil. Creio que por esse motivo pessoas de todas cores e de muitos lugares do mundo se identificam com o trabalho que faço.



+ INFO BAOBÁ




Tenka Dara é jornalista, documentarista e micro-empresária proprietária da BAOBÁ.

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