ENTREVISTA: MARINA NASCIMENTO*



JANEIRO/ 2015
FOTO MANDELACREW



Estilista, empresária, mãe, Marina Nascimento trabalha com moda há 21 anos “apesar de não incluir nesta conta minhas mais antigas lembranças que se relacionam ao vestuário e a moda, ainda guardo desenhos de croquis que fiz com nove anos”, recorda. Há cinco anos decidiu abrir o próprio espaço, a refinada Casa Pau Brasil. “Ao investir num espaço próprio, quis finalmente criar um lugar que evidenciasse nossas riquezas sem fazer uso de nenhum clichê, utilizando a moda como aliada e não como ditadora, quis usar as ferramentas que ela propicia numa busca permeada por rigor estético, mas absolutamente vinculada á valores atemporais”.



O MENELICK 2º ATO - É POSSÍVEL REALIZAR UMA ANTI-MODA? FORMAS DE VESTIR E SE EXPRESSAR QUE NÃO ESTEJAM AMARRADAS POR TENDÊNCIAS DITADAS PELO MERCADO? COM TAMANHOS, MODELAGENS, CORES LIBERTAS ASSIM COMO UM CONTEÚDO QUE EXPRESSE DE FATO A IDENTIDADE DE QUEM VESTE?
MARINA NASCIMENTO:
Minhas criações são sempre atemporais. Acho que temos de fazer uso das tendências, contemporaneidades, das novas descobertas de modelagens e dos recursos tecnológicos. Gosto muito de propor conversas com seda pura, por exemplo. Mas acho que sempre é possível ter uma moda atemporal. Peças que falam de mim hoje e que vão falar de mim daqui a 10 anos. Acho muito possível isso. Acho inclusive o ideal. Tenho um ideal de luxo que é um pouco diferente do que as pessoas de uma maneira geral tem. Para mim, luxo se refere ao que é único, especial, por conter, ou contar, um legado, uma história, características que a África e o Brasil possuem. Berços riquíssimos, que conversam entre si e por isso extremamente luxuosos, únicos e absolutamente atemporais.


Gosto da possibilidade de ter um lugar (Casa Pau Brasil) que foge as características de exotismo, da roupa folclórica, e traz uma roupa mais contemporânea e atemporal para um lugar onde estas conversas sejam possíveis.



OM2ºATO - NA INDÚSTRIA GLOBAL DE CONSUMO, COM TODAS AS SUAS EXCLUSIVIDADES E ACESSOS RESTRITOS PARA PRODUZIR E CONSUMIR, QUAL O LUGAR DAS ESTÉTICAS NEGRAS? ENTENDENDO O CONCEITO DE ESTÉTICA NÃO SÓ COMO PLÁSTICA, MAS COMO FORMA DE ESTAR NO MUNDO.
MN:
Acho que este lugar é justamente o não-lugar. Acho que esta estética negra pode permear tudo, pode ser muito porosa. Ela pode estar conversando, propondo diálogos com outras estéticas, e ela pode trocar. Ou seja, também é um lugar de troca e que ainda não esta totalmente definida neste momento, ela esta se definindo. É um caminho. Importante salientar que este lugar, ainda é um lugar de resistência, afirmação, de identidade.


OM2ºATO - QUAIS SÃO OS MAIORES DESAFIOS ENQUANTO MULHERES NEGRAS CRIADORAS/ EMPREENDEDORAS?
MN:
É justamente se desligar disso tudo e ser somente empreendedora. Ser vista como uma empreendedora. Antes de mulher, negra, ser vista como empreendedora. O que eu quero empreender. Qual o conceito do meu empreendimento. Isso ser mais levado mais em conta do que eu ser mulher e negra.


É quase a mesma coisa que dizer que determinada pessoa é uma mulher negra bonita. Quer dizer, antes de você falar que ele é bonita você diz que ela é mulher, negra. Antes de você ver beleza você vê o sexo, a cor, depois você vê a beleza.


Como mulher você já tem um desafio, como negra você tem outro desafio, como empreendedora você tem outro desafio, maior ainda. Se você ficar com um esses desafios já é bastante trabalho. A gente não fica apenas com um deles, temos que dar conta desses três. Não estou dizendo que fuja a luta, mas eles existem e, no caso, não é só um.


OM2ºATO - EM SEU PROCESSO CRIATIVO VOCÊ UTILIZA DIRETAMENTE ALGUM ELEMENTO ORIUNDO DA CULTURA DIASPÓRICA OU INDÍGENA? (EXEMPLOS: PALHA DA COSTA, WAX, MISSANGA). VOCÊ PROPÕE ALGUMA REINVENÇÃO, ATUALIZAÇÃO?
MN:
Atualmente estou utilizando o wax, que pra mim além de um tecido é um bem material com um valor enorme. Tenho pensado muito em conversas, diálogos mesmo. E tenho usado este tecido – que acho que tem um valor imaterial até superior ao valor material dele, por contar história e ter uma cultura imagética muito grande, eu penso que devemos dar um tratamento a altura. Então eu acho que temos que nos preocupar com a modelagem, se preocupar com preciosismos no acabamento e trazer uma modelagem que seja atemporal, que não fique ligado a nenhuma tendência, porque o tecido não é ligado a nenhuma tendência.


Agora o diálogo que tenho pensado é com a renda renascença, especificamente, renda do sertão. Uma renda feita artesanalmente e gosto muito desta conversa. Este também é um material carregado de valor. Penso também no Movimento Armorial, que tratava das culturas e da arte popular do nordeste e tentava dar um caráter erudito a elas. Um movimento que criou uma arte a partir da arte popular, e eu acho que é preciso este olhar, com esta significância com relação ao wax, que tem um potencial que ainda não foi plenamente utilizado.


OM2ºATO - VOCÊ ACREDITA QUE HAJA UMA ESTÉTICA NA MODA, ESTILO E MAQUIAGEM QUE POSSA SER CHAMADA DE NEGRA OU AFRO-BRASILEIRA E QUE NÃO RECAI EM ESTEREÓTIPOS, OU SEJA, A MANEIRA COMO ESPERAM QUE NÓS NEGROS NOS VISTAMOS E QUE POSSA SER APLICADA/ USADA NO COTIDIANO PARA O TRABALHO, UMA FESTA SIMPLES, ETC? UM EXEMPLO DE COMPOSIÇÃO/ ROUPAS E ACESSÓRIOS POSSÍVEIS.
MN:
Acredito que exista sim. E acredito também que ela é uma silhueta com um tanto de elegância, uma silhueta fora do que se esperam da gente, uma mulher não precisa usar uma roupa curta, um super decote, nem justa. Ela pode falar da identidade dela e trazer essa característica do tecido africano sem também ser folclórica, pode fugir destas características de exotismo com personalidade, perenidade.


OM2ºATO - COMO HOMENS E MULHERES NEGROS PODEM VALORIZAR SEUS ATRIBUTOS NATURAIS E CULTURAIS SEM SER A PARTIR DO USO DE ROUPAS E ACESSÓRIOS?
MN:
Eu acho que temos uma presença que é muito significativa e muito forte, e quando nos fazemos uso da beleza natural que gente tem, do crespo do nosso cabelo, do formato que ele pode adquirir. Se você ficar em frente ao espelho, ver a textura que o seu cabelo tem, as possibilidades que ele te oferece já é um exercício que te propiciara caminhos inusitados e insuspeitos, com certeza. Isso no caso é uma coisa exterior. Agora anterior, é o trabalho de pesquisa. Uma vez que os pensadores negros, os criadores negros não estão – infelizmente – na mídia dominante e com facilidade de acesso para a maioria das pessoas. Então você tem que pesquisar, suspeitar e ser curioso. Quando você se enriquece culturalmente a partir do seu legado você ganha recursos extremamente mais abrangentes.


OM2ºATO - QUAIS AS REFERÊNCIAS CRIATIVAS DE VOCÊS AO MONTAREM UM VISUAL, UMA VESTIMENTA? QUAIS ESTILISTAS, ARTISTAS, PAISAGENS, LUGARES, LIVROS E PENSAMENTOS TE INFLUENCIAM NO MOMENTO CRIATIVO?
MN:
Quando eu crio eu penso sempre numa ancestralidade de nobreza anterior a que eu conheci a vida inteira. Então, a partir de algumas pesquisas eu conheci, por exemplo, como era a Rainha de Sabá, a mãe do Menelick. Ela era negra. E como ela era? Como era essa mulher com tanto poder? Como era a Rainha Nzinga? Como era a Rainha Nefertiti? Esses exercícios de imaginação eu uso na hora que eu vou criar.



SAIBA + MARINA NASCIMENTO





*Texto originalmente publicado na edição zer014 da revista O Menelick 2º Ato.

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