ENTREVISTA: BRUNA BATTYS*



JANEIRO/ 2015
FOTO MANDELACREW



Formada em Criação de Moda pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo, Bruna Battys fundou a grife que leva o seu nome em 2009: “o fiz com a pretensão de criar peças com formas, tecidos, modelagens, cores e estampas diferenciadas, trabalhando com as últimas tendências da moda e criando conceitos a cada coleção desenvolvida”. Atualmente dedica-se a criar, desenvolver e confeccionar figurinos e uniformes coorporativos, além de dividir o tempo como figurinista da cantora paulistana Negra Li.



O MENELICK 2º ATO - QUAIS SÃO OS MAIORES DESAFIOS ENQUANTO MULHER, NEGRA E CRIADORA/ EMPREENDEDORA?
BRUNA BATTYS:
O desafio maior é viver em um país racista, pois dependendo do público que você quer atingir, muitos não entendem, não aceitam suas criações e produtos. Infelizmente não temos no Brasil um espaço adequado para a moda afro-brasileira, enquanto a moda dita brasileira vem crescendo gradativamente.


OM2ºATO - VOCÊ ACREDITA QUE HAJA UMA ESTÉTICA NA MODA, ESTILO E MAQUIAGEM QUE POSSA SER CHAMADA DE NEGRA OU AFRO-BRASILEIRA E QUE NÃO RECAI EM ESTEREÓTIPOS, OU SEJA, A MANEIRA COMO ESPERAM QUE NÓS NEGROS NOS VISTAMOS E QUE POSSA SER APLICADA/ USADA NO COTIDIANO PARA O TRABALHO, UMA FESTA SIMPLES, ETC? UM EXEMPLO DE COMPOSIÇÃO/ ROUPAS E ACESSÓRIOS POSSÍVEIS.
BB:
Eu acredito que não existe nomenclatura, toda a forma na qual nos vestimos, nos maquiamos, o estilo que usamos para o nosso cabelo, é cultural, natural...A forma no qual nos vestimos para a sociedade, festa, trabalho etc... são frutos de nossas raízes. Um look que transparece a moda afro brasileira está nos pequenos detalhes, como tecidos, estampas, cores e formas.


OM2ºATO - QUAIS SÃO AS REFERÊNCIAS CRIATIVAS QUE VOCÊ SE INSPIRA AO MONTAR UM VISUAL, UMA VESTIMENTA? QUAIS ESTILISTAS, ARTISTAS, PAISAGENS, LUGARES, LIVROS E PENSAMENTOS TE INFLUENCIAM NO MOMENTO CRIATIVO?
BB:
Ao iniciar um trabalho, seja desenvolver novas coleções ou produzir meus clientes, busco me inspirar com a história do tema estabelecido, a partir deste principio vou atrás de referências, lugares como o Museu Afro Brasil, desfiles, vou ver a produção de estilistas como Goya Lopes, Mônica Anjos, Oswald Boateng e Stella Jean, ler livros sobre a história da moda, das tecelagens, das composições, revistas sobre tendências e, principalmente, a música, que me inspira diariamente.


OM2ºATO - NA INDÚSTRIA GLOBAL DE CONSUMO, COM TODAS AS SUAS EXCLUSIVIDADES E ACESSOS RESTRITOS PARA PRODUZIR E CONSUMIR, QUAL O LUGAR DAS ESTÉTICAS NEGRAS? ENTENDENDO O CONCEITO DE ESTÉTICA NÃO SÓ COMO PLÁSTICA, MAS COMO FORMA DE ESTAR NO MUNDO.
BB:
Ainda não há um lugar digno do que nós merecemos e não é só a questão de produção, trabalho, talento de cada profissional, mas, sim, de um resultado positivo da mídia, uma aceitação, uma promoção da moda afro-brasileira e o resultado positivo de vendas.
Existe muita dificuldade, mas existe uma grande possibilidade que é através da economia criativa. Existe por aí muitos talentos isolados; Mas eu acredito que se nós nos mobilizarmos e criarmos estratégias, este quadro mude.


OM2ºATO - EM SEU PROCESSO CRIATIVO VOCÊ UTILIZA DIRETAMENTE ALGUM ELEMENTO ORIUNDO DA CULTURA DIASPÓRICA OU INDÍGENA? (EXEMPLOS: PALHA DA COSTA, WAX, MISSANGA). VOCÊ PROPÕE ALGUMA REINVENÇÃO, ATUALIZAÇÃO?
BB:
Em minhas criações utilizo tecidos africanos em acessórios e roupas, a união de tecidos como jeans, seda, paetê, viscose e malharia com estampas valorizando a nossa cultura.


OM2ºATO - É POSSÍVEL REALIZAR UMA ANTI-MODA? FORMAS DE VESTIR E SE EXPRESSAR QUE NÃO ESTEJAM AMARRADAS POR TENDÊNCIAS DITADAS PELO MERCADO? COM TAMANHOS, MODELAGENS, CORES LIBERTAS ASSIM COMO UM CONTEÚDO QUE EXPRESSE DE FATO A IDENTIDADE DE QUEM VESTE?
BB:
Com certeza, hoje em dia você não precisa ser um profissional da área para executar de fato suas criações. Basta ser natural, amar suas raízes, ser antenado, que automaticamente o diferencial transmite em suas vestimentas e adornos.


OM2ºATO - COMO HOMENS E MULHERES NEGROS PODEM VALORIZAR SEUS ATRIBUTOS NATURAIS E CULTURAIS SEM A PARTIR DO USO DE ROUPAS E ACESSÓRIOS?
BB:
Através de estudos, frequentando lugares que agregam ao fortalecimento intelectual, como teatros, museus, eventos culturais, e através de comportamentos que reflitam realmente quem somos nós,cultivando nossas raízes e valores.



SAIBA + BRUNA BATTYS





*Texto originalmente publicado na edição zer014 da revista O Menelick 2º Ato.

http://omenelick2ato.com/files/gimgs/409_modelo-b-battys-6.jpg