OPERÁRIO DAS ARTES

O ATIVISMO DE MANUEL QUERINO


Por Valéria Alves
Ilustração Gilberto Júnior
MARÇO/2012


Durante o século 19 e começo do século 20, o Brasil passou por grandes transições. Mudanças sociais e culturais caracterizaram o período marcado por revoltas populares, pela Guerra do Paraguai (1870), a Abolição da Escravatura (1888), o incentivo a imigração da força de trabalho européia e a opressão aos negros. Era a passagem do Império para a República.


Neste cenário, um ilustre afrodescendente, intelectual, artista, operário e líder abolicionista ocupou um lugar central em meio a sociedade baiana. Manuel Raimundo Querino nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Estado da Bahia, em 28 de julho de 1851. Órfão aos 4 anos, o menino preto e pobre foi apadrinhado por Manuel Garcia, professor da Escola Normal de Salvador. Criado e educado por uma família de classe média branca desenvolveu aptidões para as artes, desenho, pintura e ofícios manuais. Durante sua vida desafiou as estrutura sociais alicerçadas no preconceito racial e de classe, suas crenças estavam fincadas na liberdade, educação, igualdade e justiça, sempre lutando pela valorização da identidade e cultura negra. Como grande operário posicionou-se criticamente à situação de sofrimento do trabalhador dedicando parte de sua vida às lutas por melhores condições do negro e do pobre.


Duas das maiores marcas do ativismo de Manuel Querino foram, sem dúvida, sua busca pela ancestralidade de matriz africana e sua inclinação em resgatar essas origens, seus valores e traços culturais que, fadados à extinção, devido à política do “branqueamento” e também, por afirmar que quem construiu e alicerçou o Brasil foi o africano.


Ainda jovem, Querino fez uma incursão pelos sertões de Piauí e Pernambuco e sem nenhum tipo de apoio, vivencia as experiências de um jovem negro num país escravocrata. Após servir a Guerra do Paraguai como escriba em um quartel no Rio de Janeiro, Manuel Querino volta à Bahia e se dedica ao estudo do Francês e às atividades de pintor e decorador. Forma-se em arquitetura e em desenho Geométrico, escreve dois livros didáticos e passa a se dedicar ao desenho e à pintura. Entretanto, seus ideais abolicionistas e a luta por uma sociedade justa e igualitária continuavam presentes marcando fortemente suas ações.


A ARTE

Manuel Querino estudou no Liceu de Artes e Ofício, tendo completado sua formação na Academia de Belas Artes da Bahia ganhando prêmios em exposições e concursos. Querino é tido como co-fundador da História da Arte baiana, juntamente com outros artistas como Marieta Alves, Carlos Otte e Germain Bazin.


Na época, a pintura no Brasil ainda tinha forte influência do Neoclassicismo, gênero que se apresentava em oposição ao Rococó e ao Barroco e que retoma os padrões de estética, regidos pela ordem e clareza, que observamos no período clássico, ou seja, a Grécia Clássica, por isso o nome. Esta escola anunciava a modernidade e o fim do encantamento do mundo, a questão preeminente era a construção e valorização do Estado e de uma nação fortificada contra a exaltação da temática religiosa da estética Barroca. Querino foi o responsável pela preservação e propagação das artes e artistas baianos. Ciente da necessidade de preservar e valorizar a história, em 1906, publicou um artigo sob o título Artistas Bahianos. Em um dos seus escritos faz a seguinte observação:


...resolvi traçar o ligeiro esboço que se segue, no
intuito de tornar conhecido, si bem que resumidamente,
o merecimento incontestável de alguns artistas que
floresceram nos séculos XVIII e XIX, a par de poetas,
escritores e jornalistas que enaltecem as glórias desta terra,
pois a Bahia possui muita preciosidade na poeira do esquecimento.

(QUERINO, 1911 p.17).


Criado para empregos manuais, Querino se considerava de fato um operário e entendia a importância de várias profissões, quando em 1913, lança o livro As Artes na Bahia apontando a presença dos negros nos ofícios artísticos. Maquinistas, fundidores, caldeeiros de ferro, marceneiros, construtores de máquina, serralheiros, escultores, pintores, arquitetos são algumas das profissões consideradas por Querino como relevantemente artísticas.



ONDA NEGRA

Na época que Manuel Querino viveu, a elite intelectual e econômica brasileira atuava ativamente nas instituições culturais, na política e no universo das artes. A população era dominada pelas ideias racialistas do médico Raimundo Nina Rodrigues (1862 -1906). Este intelectual apresenta a problemática racial brasileira polarizada em duas vertentes; a primeira é a vertente civilizada representada pelos brancos, a segunda é a primitiva, o crime, representado pelos negros.


Nina Rodrigues, embora mestiço, via os negros como uma raça inferior e, por serem numerosos, pregava a crença de que o Brasil não iria se desenvolver. Acreditava que a nação acabaria sendo governada por negros e mestiços, e que a solução seria um controle social por meio da higienização, era necessário para frear a mestiçagem. Para Nina, os negros estavam um estado psíquico inferior, eram histéricos e o contexto ritual proporcionava a manifestação da histeria levando ao transe. Na cabeça deste pensador, não era possível desenvolver no Brasil uma fusão da cultura, os mestiços eram tidos como uma raça degenerada.


Apesar disso, a população negra continuava lutando. As revoltas urbanas de escravos, homens negros livres e mulatos se multiplicavam. Os escravos fugitivos se organizavam em mucambos e quilombos nas matas dos próprios engenhos, o grande ano de fuga de escravos foi 1867. Ficaram célebres alguns fatos como o enforcamento dos escravos Crispim e Malaquias acusados de assassinarem seus senhores, a fuga do escravo João Mulungo do Engenho Flor da Rosa em 1868, tempos depois sendo capturado e enforcado. As ações cruéis dos senhores contra os escravos provocaram protestos da população negra até a chegada da abolição.



ATIVISMO

Abolicionista e Republicano, Manuel Querino ingressa na política. Sua militância é em favor das causas sociais, operárias e artísticas. Valorizava o povo baiano e circulava em diversos espaços de sociabilidade negra, nas festas, botequins, terreiros, igrejas, nas associações artísticas e, no meio intelectual travou grandes debates em oposição às ideias racistas de Nina Rodrigues.


Foi nos periódicos A Província e O Trabalho, fundados pelo próprio Querino, que suas ideias abolicionistas ganham força e adeptos. O ativista retratava e denunciava as situações de humilhação e violência contra os negros e pobres e mesmo sofrendo pressões, ocupa um lugar central na luta pelo fim da escravidão e por melhores condições de trabalho.


Com o intuito de organizar a classe operária no Império, cria a Liga Operária Baiana e mais tarde, na República, ajuda e fundar o Partido Operário, do qual foi eleito vereador. Querino participou, foi testemunha e se posicionou diante das questões trabalhistas no intenso processo de mudança na estrutura social que também marcaram sua trajetória. Foi por meio da política que adentra a elite da época gerando desconforto e polêmicas, pois, seus ideais, sua arte, seu corpo negro, estavam fora de lugar.


Contudo, Querino decepciona-se com a República por não valorizar os trabalhadores e desrespeitar a autonomia popular. Ingressa no funcionalismo público no cargo de 3º oficial da Secretaria da Agricultura. Contam seus biógrafos que Manuel Querino foi um funcionário médio e passou por diversas dificuldades e vexames, justamente pelo seu engajamento em prol da liberdade e das causas sociais.


Querino testemunhou as transformações que culminaram na República. Sobre elas registrou em seus escritos inquietações próprias de quem experimentou dificuldades para movimentar-se nos diversos espaços e desafiou as estruturas sociais baseadas no preconceito de classe e raça. O negro órfão e pobre moveu-se na sociedade escravista buscando cominhos que garantissem a realização se suas crenças baseadas na justiça, na liberdade e igualdade para todos.


O ativista desliga-se da política partidária e passa a dedicar-se ao magistério e à produção de conhecimento.



O COLONO PRETO

Querino aprofunda-se intensamente nos estudos históricos, preocupa-se em registrar e enunciar as contribuições dos africanos e dos afrodescendentes para a formação do Brasil. Foi o primeiro a marcar na historiografia brasileira a contribuição dos africanos para o crescimento social e econômico do país. Em toda sua produção Querino mostra às influências culturais, a comida, a dança, a arte, a religião afro-brasileira para a formação da identidade nacional.


O abolicionista observa que a presença do negro na história brasileira estava sendo desprezada pelas autoridades. Passa a percorrer os arredores de Salvador, terreiros de candomblé, festas, bares, oficinas, casas e em todos os lugares onde pudesse encontrar negras e negros para que em conversas pudesse resgatar a memória, a sabedoria, preciosas informações sobre as qualidades, lutas, habilidades, valores, crenças e conhecimento da tradição africana no Brasil. Considerado o primeiro etnólogo negro a registrar a cultura afro , em 1918, lança o ensaio O Colono Preto como Fator da Civilização Brasileira.


Este ensaio dividido em cinco capítulos trata o africano como colonizador e como elemento atuante na criação da civilização, para ele a sociedade brasileira foi construída pelo trabalho dos negros. Querino aponta que os portugueses, de fato, não tinham capacidade para exercer nenhum tipo de controle ou poder, que estes eram incompetentes no que se refere às artes, à economia, às ciências, e que a maior habilidade era a de escravizar.


Nos capítulos que se seguem, Manuel Querino apresenta as habilidades do “colono preto” como bom trabalhador,caçador, marinheiro pastor, minerador, mercador e agricultor, a virtude e coragem como parte do ethos africano. Trata também das humilhações exploração e castigos nos quais eram submetidos e a reação por meio de revoltas, motins; assassinatos e suicídios. Por fim, Manuel Querino aponta a resistência coletiva via Quilombos e a formação da família e seus descendentes, a formação do afrobrasileiro:


Tratando-se da riqueza econômica, fonte da organização nacional, ainda é o colono preto a principal figura, o fator máximo. São esses os florões que cingem a fonte da raça perseguida e sofredora que, a extinguir-se, deixará imorredouras provas do seu valor incontestável que a justiça da história há de respeitar e bendizer, pelos inestimáveis serviços que nos prestou, no período de mais três séculos ( QUERINO 1955, p.38).


Manuel Querino faleceu em 14 de fevereiro de 1923, na cidade de Salvador, numa quarta feira de cinzas. Este grande artista e militante deve ser lembrado e homenageado por seu ativismo político e, principalmente, por ter sido o primeiro historiador da arte baiana afrobrasileira.





NOTA DE RODAPÉ

LICEU DE ARTES E OFÍCIOS DA BAHIA
Instituição criada em 20 de outubro de 1872, em Salvador, com o objetivo de qualificar operários e artífices para o mercado de trabalho.



PARA LER

A História da Arte de Manuel Querino - 19º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas: “Entre Territórios”
Cachoeira, Bahia
2010


Manoel Querino e a formação do “pensamento negro” no Brasil, entre 1890 e 1920
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães
Departamento de Sociologia (USP)








Valéria Alves é mestranda em Antropologia das Populações Afro- brasileiras e Africanas pela USP, pesquisa temas referentes às relações raciais, sexualidade, gênero e políticas culturais. Atualmente compõe o grupo de estudo e pesquisa: Gênero, Direitos Humanos, Raça/etnia da Fundação Carlos Chagas atuando no projeto Levantamento Bibliográfico- Mulheres e Políticas.

http://omenelick2ato.com/files/gimgs/125_ilustra_v2.jpg
GILBERTO JUNIOR
flickr.com/photos/juniorart