PELA NOSSA FÉ


Por Eduardo Brechó
MAIO/ 2011


Ontem (27), ouvi a minha predileta Home is Where the Hatred Is algumas vezes na sua versão piano e voz, presente no disco I'm New Here (2010). E chorei como choro hoje. Não há coincidência nisso, eu ouço Gil Scott Heron (1949 – 2011) quase todos os dias há anos. Essa é a verdadeira superstição.


Por isso, acho natural que vários amigos tenham me ligado e/ou escrito quando souberam da morte do mestre (a 27 de maio de 2011). E agradeço do fundo.


Ele se foi bastante cedo, aos 62 anos. Começou muito cedo também.


Com seus 20 e poucos já tinha escrito Abutre (um de seus 5 ótimos livros), já tinha batido aquele papo na Lenoxx com a 125 e gritado que “a revolução não será televisionada”.
Com 22, já estava integrando ritmo e poesia-canto-falado-declamado-percutido ao Hip Hop e trilhando novos caminhos na sua parceria com Brian Jackson. Um som único entre o soul e o free jazz. Monstruosamente emocionante.


Cuspindo versos agressivos, tambores puros diretos, cantando melodias doces tortas com sua voz barítona cabulosa, o mestre fará sempre sentido. E quem faz sentirá.


Quem viu aquele filme sobre Rubin Carter – Hurricane (1999), com Denzel Washington e se lembra da sequência em que a trilha da luta é The Revolution Will Not be Televised sabe como faz sentido.


De tudo que consegui ouvir e pensar sobre ele depois dessa notícia, esse disco mais recente I'm New Here (2010) é o que mais consegue chegar perto do que sinto. E como sinto já. Este trabalho mostra como a sua personalidade e a sua arte se confundiram e se conflitaram tantas vezes em todos estes anos de batalha. E como é difícil conciliar o cerne da ideologia com o do sentimento. Do serviço pelo outro e por si próprio. E que seu exemplo final seja íntegro como homem artista e principalmente sobrevivente. Gil Scott é sobrevida aos sobreviventes. Desde sempre. E esse ainda é nosso motivo. Para além da música. Ainda lutamos pela sobrevivência e contra ela. Muitos colocam nossas dificuldades e crises nos excessos. Continuamos, porém, precisando de muito. A sua obra está aqui e é por isso que escrevo. Ainda é tempo de viver e se deixar contaminar pelo espírito de Gil Scott Heron.


A despeito da minha necessidade por heróis. A despeito da nossa fluência artística blasê. Pela nossa fé.



Líder do Coletivo Aláfia (SP), Eduardo Brechó é poeta, DJ e compositor.

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