BENJAMIN,
O FILHO DA AMNÉSIA NACIONAL



Por Nabor Jr.
Fotos MANDELACREW e ARQUIVO
Ilustração MZK
SETEMBRO/2010



Entre as décadas de 1880 e 1910, na transição entre os séculos XIX e XX, período que engloba a assinatura da Lei Áurea (sancionada em 13 de maio de 1888), enquanto grande parte da população negra do Brasil, com a alcunha da recém “pseudoliberdade”, ainda ardia sob o sol das plantações de café e cana-de-açúcar, e outra parcela vagava sem destino pelas ruas de barro batido do interior do país, um talentoso e jovem negro da cidade mineira de Pará de Minas, filho de escravos, desafiando o futuro que lhe aguardava e contrariando o seu próprio destino, transformou a diversidade social, étnica e econômica que lhe estendia as mãos em sorriso.


Benjamin de Oliveira, ou simplesmente o Palhaço Benjamim, foi, segundo críticos, o primeiro palhaço negro do país e também um dos primeiros do mundo. Modelo de conquistas, sucesso, determinação e superação para todos os brasileiros, Benjamim foi daqueles palhaços que tinham, nos cartazes, seu nome estampado em letras mais vistosas do que o próprio nome dos circos em que trabalhava. Criou o Circo-teatro, escreveu peças de sucesso e participou ativamente do início da indústria cinematográfica no país.


Nascido em Pará de Minas, em 1870, o palhaço faleceu no dia 3 de maio de 1954. Em 2010, completa-se 140 anos de nascimento do artista de tantas glórias e conquistas para o circuito artístico nacional. Mas quem conhece a sua biografia?


Os parcos, ou quase nulos, registros a cerca da vida e da obra do artista revelam o quanto a história do negro brasileiro é desconhecida da população. A professora e escritora Heloísa Pires Lima, autora do livro infanto-juvenil “Benjamin, o palhaço da felicidade”, define o fenômeno como “Amnésia Nacional”.


Em entrevista concedida à revista O MENELICK 2º ATO – AFROBRASILIDADES & AFINS, Pires fala da vida e obra do palhaço negro e reflete sobre a ausência de informações a cerca das contribuições do negro na formação da identidade cultural tupiniquim.



Como surgiu a ideia de estudar a vida e a obra do palhaço Benjamin?
HELOÍSA PIRES -
A primeira vez que ouvi falar de Benjamin foi no livro “A mão afro-brasileira” (Tenenge,1988) organizado por Emanoel Araújo (diretor do Museu Afro Brasil). Mais tarde, a escritora Heloísa Prieto me pediu uma pesquisa sobre o palhaço negro. Desse levantamento e de conversas com a Heloísa surgiu o convite para tornar o personagem real, tema de um dos títulos da coleção “De repente”, por ela coordenado.


A vontade de apresentar Benjamin às novas gerações traz implícita a questão da memória nacional. Por que eu nunca ouvi falar dele, grandes educadores jamais ouviram dele falar, apesar da trajetória tão importante para o país?
HP -
A biografia de Benjamim é apoteótica enquanto repertório. Oferece muitos elementos para uma boa história narrada em aspectos construtivos e muita afetividade. E ela aparece no destaque da habilidade de Benjamim em saltar fora, ou seja, superar situações de um contexto histórico imbuído de crueldades. E isso também é real como referência. Não significa, porém, apagar as dificuldades por ele enfrentadas.


O que mais te impressionou ao descobrir detalhes dessa trajetória?
HP -
A ideia do livro “Benjamin: o filho da felicidade” surgiu permeada pela coleção: “De repente”, ou seja, quando um acontecimento repentino muda, radicalmente, a biografia de uma pessoa. Imaginei o instante da decisão de Benjamim, então um gurizinho de 12 anos, quando ele resolve partir com o circo que passava pela cidade. Literariamente, a história dos circos em Minas Gerais, ainda no contexto do século XIX, trazia uma itinerância que podia ser contraposta à caracterização do modo de vida numa fazenda em Pará de Minas, onde Benjamin cresceu.Foi uma surpresa descobrir que ele teve o talento reconhecido por intelectuais do período, como o crítico Arthur de Azevedo, e de ser considerado o nome mais importante para a linguagem do circo-teatro no país. Trata-se de uma personalidade que respondia, com habilidade, às complicações do ambiente social em que vivia. "Rápido no troco" como ele mesmo falava.


Após sua pesquisa sobre o artista, como você avalia a importância de Benjamim no cenário artístico brasileiro?
HP -
Benjamin é uma personalidade absolutamente encantadora. Não é apenas o sucesso que ele alcançou, mas, sua postura elegante ao responder desafios. Seja lá no início da carreira, pois saibam que sua estreia como palhaço se deu em 1889 substituindo outro palhaço que havia adoecido. Na ocasião Benjamin foi enxovalhado pela plateia que o vaiava e o insultava. Atiraram batatas, ovos, tamancos e um dia, prepararam uma coroa de capim. Foi então que o palhaço retrucou para o atirador: “Se deram a Cristo uma coroa de espinho, por que não dariam a mim uma de capim?” A resposta do palhaço silenciou o picadeiro por instantes. E depois, vieram as primeiras palmas dirigidas a ele. Na virada do século XIX para o X, a chamada Belle Époque, vamos encontrá-lo como artista principal do luxuoso Circo Spinelli que circulava nas grandes capitais.


Na coluna Palcos e Circos do jornal O Estado de São Paulo aparecia a foto do chamado clown brasileiro Benjamin de Oliveira que enfrentava a concorrência dos artistas internacionais. As peças escritas por ele tinham figurino e adereços que vinham de Paris. Ele era muito arrojado. O sucesso veio por suas apresentações teatrais adaptadas à linguagem do circo. Nessa época ele cantava sendo intérprete e autor do início da indústria fonográfica. Ele convidava artistas para participarem das peças que ele mesmo escrevia e dirigia. Quando as câmaras dos irmãos Lablanca chegaram ao país para realizarem os primeiros filmes, foi a pantomima “Os Guaranis”, em cartaz e com grande sucesso, a selecionada para ser gravada sem decoupagem. Ou seja, ele também está associado ao início da indústria cinematográfica no país.


Qual foi a contribuição do Palhaço Benjamim para a criação do chamado Circo-teatro?
HP –
Bem, foi Benjamin de Oliveira que inventou uma modalidade artística e a chamou de circo-teatro. Podem ter tido iniciativas anteriores, mas foi ele que a projetou e a transformou em sucesso de público e de investimento.


Benjamin exercia, artisticamente, sua negritude? Sua cor ajudou ou atrapalhou sua carreira?
HP -
Suas peças debatiam sobre preconceito. Sobretudo, ele perseguia a falsa moral, o preconceito social e racial. A primeira peça que ele escreveu, “O Diabo e O Chico” é explícita na denúncia do racismo. Agora, para termos a dimensão de sua vida, imagine ele fugindo pelas estradas de Minas, antes da abolição. Pois ele mesmo conta em uma de suas entrevistas que precisou fugir de um circo de ciganos cujos donos planejavam trocá-lo por um cavalo. Ele salta fora e corre muito. Depois de muitas léguas, bate numa casa contando que estava sendo perseguido por ciganos e pede água e comida. Mas, a família achou que ele estava fugindo de alguma fazenda vizinha. Benjamin convence que tinha uma profissão demonstrando suas habilidades acrobáticas. Ele só contava com o próprio corpo e sua inteligência. Então recebeu comida, cama e a proteção que necessitava. Não devia ser fácil mas, a arte do palhaço é o improviso e nisto ele foi rei.


Por que a história de Benjamim é subestimada pela mídia e pelos livros?
HP -
A memória de Benjamin, assim como muitos aspectos da história da população negra no Brasil sofre da falta de acesso aos meios de comunicação. Por isso temos que exaltar toda conquista na mídia que permite a voz e o respeito a essas referências. Somos nós que temos que ser “rápidos no troco”. Ele é um modelo de conquistas, sucesso, determinação, superação para todos os brasileiros. Há muito material ainda para ser explorado nessa trajetória apoteótica. Há peças de teatro escritas por ele. Há os figurinos, os filmes, os discos, fotografias, cartazes, enfim...


Conte um pouco sobre a linha de produção, como educadora e escritora, voltada a assuntos que buscam valorizar o papel do negro.
HP -
A minha trajetória como educadora sempre procurou compreender a presença negra nas bibliotecas, videotecas, acervos de brinquedos, brincadeiras e montagem de acervos em museus. Desde 1995, eu produzo para além da leitura crítica do que há disponibilizado para a infância com o repertório afro-brasileiro.Há uma geração que sei, terá muito prazer em conhecer personagens como Benjamin de Oliveira, assim como eu tive. Quem sabe não escrevam mais e mais livros, montem mais e mais peças que espalhem esse conhecimento?







FRASES

É muito mais comum a referência à população negra aparecer como perdedora social, na chave da dor, do sofrimento ou da vitimização. Não que abordagens assim não devam existir, mas, por quê apenas essa?


A memória de Benjamin assim como muitos aspectos da história da população negra no Brasil sofre da falta de acesso aos meios de comunicação.



NOTAS DE RODAPÉ


CIRCO-TEATROfoi um gênero de teatro muito comum e de muito sucesso no Brasil durante o século XX. Onde pequenas companhias circenses se alternavam por todo o país, apresentando um número grande de textos teatrais, uns cômicos, outros melodramáticos.


BELLE ÉPOQUEé considerada uma era de ouro da beleza, inovação e paz entre os países europeus. Foi um período de efervescência que começou no final do século XIX e durou até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.



PARA LER

Benjamin: O Filho da Felicidade
Heloísa Pires Lima
Editora TFD
2007


As múltiplas linguagens na teatralidade circense - Benjamim de Oliveira e o circo-teatro no Brasil no final do século XIX e início do XX (Tese de doutorado Unicamp)
Ermínia Silva
2003

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Benjamin de Oliveira
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Heloísa Pires
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Ilustração MZK