REVISTA ILUSTRADA


Por Nabor Jr.
JULHO/2012


Ao tomar ciência do recente intercâmbio que a artista plástica paulistana Rosana Paulino realizou no gabaritado Tamarind Institute, de Albuquerque, no Novo México, um dos maiores centros de litografia do mundo, lembrei-me de um centenário e vanguardista projeto editorial brasileiro que muito influenciou a estética gráfica adotada pela revista O Menelick 2º Ato.


Trata-se da Revista Ilustrada, fundada em 1876 pelo caricaturista, ilustrador, desenhista, crítico, pintor e gravador Angelo Agostini (Vercelli, Itália 1843 - Rio de Janeiro RJ 1910).


Importante periódico do fim do século XIX, a Revista Ilustrada é uma referência não apenas para os historiadores que pesquisam a imprensa nacional, mas também a àqueles que se voltam às idéias e aos valores de uma época. Há, entre as litografias do cartunista, algumas que podemos indicar como significativas para o estudo da escravidão e do abolicionismo. Entre elas destacam-se a série de caricaturas Cenas da Escravidão, em que Agostini, fazendo referência aos passos da paixão, apresenta, em 14 ilustrações, diversas formas de tortura a que eram submetidos os negros cativos.


Fundador da publicação e responsável pelas bem humoradas e sátiras charges da revista, Ângelo Agostini apresentava através de suas ilustrações um interessante contraponto crítico à realidade social e política do final do Império. A Revista foi, também por esta razão, um dos mais eficientes meios de comunicação para uma parcela da população iletrada e descontente com sua situação a margem da sociedade.


As litografias de Ângelo Agostini se encaixam em um contexto que podemos chamar de “ação permitida” em prol da abolição. Entretanto, ainda que arrolada como parte das ações “oficiais”, sua campanha teve a capacidade de captar o não dito, sentidos mais amplos e por vezes mesmo oculto aos olhares mais desatentos.


Segundo relatos de Joaquim Nabuco (1849 - 1910), um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Agostini era um idealista, não preso à prática política institucional, mas interessado nos re?exos dessa prática na realidade das pessoas: “... Angelo Agostini teve a fortuna de ser o que se pôde chamar em matéria de liberalismo o caráter bem equilibrado, o daquele que ama a liberdade, não pela palavra, mas pela causa, não pela doutrina, mas pelo fato, e, sobretudo não por si, mas pelos outros ...”.


A crítica realizada por Angelo Agostini através das caricaturas e textos nos mostra uma grande inquietação do artista com as belas-artes. Suas preocupações políticas perpassavam toda a sua produção, dando o tom de suas opiniões. Algo realmente inédito no trabalho de Agostini foi sua militância política e sua não-isenção.


Aliás, a política era intrínseca a tudo o que Agostini fazia. Mesmo sem assumir uma posição institucional, expressava no seu trabalho claras concepções antiimperiais e antiescravistas. Dessa forma, instituições ligadas ao poder imperial, ou que defendiam as ações do governo, não eram vistas com bons olhos pelo crítico.


Sobre a popularidade da Revista Ilustrada, Monteiro Lobato afirmou certa vez: “Não havia casa em que não penetrasse a Revista e tanto deliciava as cidades como as fazendas. Quadro típico da cor local era o fazendeiro que chegava cansado da roça... e abria a Revista... E ali na rede ‘via’ o Império, como nós hoje vemos a história do cinema. Via Pedro II, de chambre a espiar o céu pelo telescópio; um ministro entreabre o reposteiro e mete a cara para falar de negócios públicos; o Imperador, sem desfitar as estrelas, resmunga enfadado: ‘Já sei! Já sei’... toda a história da Corte se desenhava ali, rezando as alegorias e os subentendidos por forma muito entradiça olhos adentro. Disso resultou termos na coleção da Revista Ilustrada um documento histórico retrospectivo cujo valor sempre crescerá com o tempo – tal qual aconteceu com os desenhos de Debret e de Rugendas”.


SAIBA MAIS
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