SOBRE DIAMANTES E BANANAS

LEÔNIDAS DA SILVA: A MAGIA NEGRA DO FUTEBOL BRASILEIRO



TEXTO VALÉRIA ALVES
AGOSTO/ 2014



Ultimamente temos acompanhado pela mídia impressa, noticiários de TV e programas de entretenimento o aumento no número de casos de racismo no futebol mundial envolvendo, principalmente, jogadores negros, muitos deles brasileiros, e torcidas compostas majoritariamente por pessoas brancas.


Nesses noticiários a impressão que se tem é: manifestações racistas no futebol são fenômenos recentes e devem ser combatidos. No Brasil, os casos mais recentes envolvendo jogadores negros foram alvo de repulsa imbuída de uma vontade enorme de combater esse tipo de comportamento nos estádios de futebol. No entanto, essa repulsa disfarça o maior, mais elaborado e antigo crime perfeito: o racismo que transita livremente nas falas, gestos, comportamentos e olhares de uma grande parcela da população brasileira.


O racismo, dentro e fora dos campos de futebol e em outros esportes, sempre existiu, e não é algo fruto do século 21, da ascensão e expansão das redes sociais ou de mentes maldosas. No Brasil, há uma etiqueta racial que juntamente com a concepção de uma democracia ou harmonia racial, torna velado e não nomeável atitudes de descriminação e desigualdades baseadas na cor da pele dos descendentes de africanas e africanos.


A “repulsa” contra atos racistas no futebol fez surgir, por exemplo, uma campanha que tinha como “estrela” um dos maiores símbolos racistas contra o negro: a banana. Por desconhecimento, ignorância, vontade de fazer barulho e deixar tudo como está e como sempre foi, ou seja, “cada um no seu lugar” foi elaborada uma campanha publicitária que ao invés de descortinar e revelar a face dos racistas, reforçou os estereótipos e barrou o diálogo entre brancos e negros na resolução desta questão que nos é cara. A campanha apenas estimulou a impunidade de um crime.


Veremos como Leônidas da Silva, apelidado de Diamante Negro, mesmo sofrendo constrangimentos de toda sorte, decidiu não engolir bananas e o racismo expresso nela.


PARA O CENTRO E AVANTE


O centroavante Leônidas da Silva nasceu em São Cristóvão, Rio de Janeiro, em 1913. Educado pelos pais para ser advogado ou médico, deixou os estudos de lado para se dedicar àquilo que mais gostava de fazer e que sonhava um dia ser a sua verdadeira profissão: jogar futebol.


O primeiro clube que Leônidas jogou foi o São Cristóvão, no final dos anos 20. O talento e as jogadas criativas nunca vistas antes fizeram com que rapidamente o clube perdesse o jogador para outras equipes como o Bonsucesso, o Sul-América e Sírio Libanês. Alguns jornalistas esportivos o chamavam de “mulato invocado e cheio de gás”. Em 1932, vestindo a camisa do Bonsucesso, Leônidas inventou e eternizou uma jogada que até hoje craques de diferentes times fazem, ou tentam fazer, a famosa Bicicleta.


A Bicicleta de Leônidas ficou conhecida no mundo interiro durante uma partida entre Brasil e Uruguai, pela Copa Rio Branco, em Montevidéu, no ano de 1932. O Blog Imortais do Futebol relembra que quando o Brasil já vencia por 1 a 0 o time do Uruguai, na ocasião os atuais campeões do mundo, “Leônidas deu uma bicicleta para a direita, correu em direção da grande área e conseguiu marcar o segundo gol da seleção”. O craque executava a jogada com o corpo a mais de 1,5 metros do chão e na posição horizontal, algo que jamais alguém havia feito naquele momento.


Com apenas 1,65m de altura e realizando tais jogadas, Leônidas da Silva ganhou o apelido de “Homem de Borracha”. Este apelido traduzia a incrível facilidade e elasticidade nas jogadas e no domínio da bola. Em 1933, o clube uruguaio Peñarol contratou o craque. No ano seguinte, de volta ao Brasil, assinou contrato com o Vasco da Gama.


Quando ainda atuava no Vasco, a então Confederação Brasileira de Desporto (CBD), atual CBF, fez um contrato de exclusividade com o jogador e o levou para disputar, em 1934, a Copa do Mundo, realizada na Europa. Mesmo com a péssima campanha do Brasil no torneio, Leônidas ficou mais famoso e admirado naquele mundial por ter marcado um gol histórico em cima do goleiro mais famoso da época, o goleiro espanhol Zamora.


Após a Copa, Leônidas passou a jogar no Botafogo (RJ) dando ao clube inúmeras vitórias até 1936, quando foi para o Flamengo. Lá, sofreu com o racismo que era latente em diversos clubes brasileiros à época. Leônidas foi o primeiro jogador dono do seu próprio passe e isso causava desconforto nos dirigentes dos times, pois além de ser uma estrela do futebol ele era independente, autônomo e não engolia bananas, fossem elas verdes ou maduras.


Nas décadas de 1930 e 1940, enquanto o jogador vivia o auge da carreira, no Brasil, a miscigenação era um fato estudado e debatido por cientistas de diversas áreas. Então, inicia-se no país a construção de um ideário de miscigenação positiva. Edifica-se assim, uma versão nacional de um “homem cordial”, avesso à discriminação racial. Mestiços educados, geralmente, homens já com alguma expressão social, como por exemplo, Machado de Assis, são trazidos para o centro do “poder” na tentativa de consolidar a ideia da superação do passado e uma convivência harmoniosa entre os tipos nacionais.


Apesar disso, a sociedade brasileira era profundamente hierarquizada. A elite controlava a mobilidade social dos negros e mulatos e internamente as relações continuavam profundamente racistas. O Brasil miscigenado, tido como degenerado, passa a valorizar a miscigenação como algo positivo, no entanto, a ideia de desaparecimento dos negros, negras e indígenas mantinha-se forte.


Vestindo a camisa Flamengo, Leônidas deu ao rubro negro inúmeros títulos e popularizou o clube. Na copa da França em 1938, o jogador brilhou novamente descrito como “cômico, travesso e produtivo”. O “homem de borracha” se tornou mais popular e querido pelos torcedores e pela imprensa após fazer um gol descalço na partida de estreia da seleção brasileira contra o selecionado polonês. Artilheiro da Copa, Leônidas se consagra também como o melhor jogador do planeta. O jornalista francês Raymond Thourmagen, espantado com a agilidade e talento do jogador, confere a ele o apelido de “Diamante Negro”. O jornalista escreve:


"Esse homem de borracha da terra do ar possui um dom diabólico de controlar a bola em qualquer lugar, desferindo chutes violentos quando menos se espera. Nessa posição de fera atingida, vi Leônidas executar uma série de tesouras com as pernas, aproveitando um centro e golpeando a bola de costas para o gol. Quando Leônidas faz um gol, pensa-se estar sonhando. Esfregam-se os olhos. Leônidas é Magia Negra!"


Com o sucesso obtido na França, o Diamante Negro volta ao Brasil e é recebido com pompa e circunstâncias e uma imensa festa da torcida. Na mesma época a fábrica de chocolates Lacta comercializava um chocolate ao leite com crocante. Este era o carro chefe da empresa. Quando Leônidas volta ao Brasil com o apelido de Diamante Negro, a Lacta rebatiza seu chocolate. De ao leite e crocante vira “Diamante Negro” e foi o mais vendido na época e é um dos mais vendidos até os dias de hoje.


O produto ajudou a evidenciar ainda mais o jogador, no entanto, ele nunca recebeu nenhuma porcentagem com a venda dos chocolates, não ganhou dinheiro e nem ficou rico com a comercialização do produto, o contrário da Lacta.


Vestindo a camisa do rubro negro Diamante Negro se torna o artilheiro do campeonato carioca com 30 gols. No mesmo ano, devido à algumas fraturas e o menisco rompido já em 1940, Leônidas passa a ter um desempenho um pouco menor. Os dirigentes do Flamengo achando que o clube já estava consagrado se desentenderam com Leônidas e disseram a ele que o clube não aceitaria mais negros.


Leônidas da Silva teve seu salário suspenso e foi impedido de participar do campeonato seguinte. O craque que não engolia bananas, principalmente quando enfiadas goela a baixo, entrou na justiça para exigir seus direitos. A reação do Flamengo à tal ação foi imediata: Gustavo Adolfho de Carvalho, um dos dirigentes do rubro negro descobriu que Leônidas havia falsificado seu certificado de dispensa militar na década de 1930 para conseguir um emprego público. Este dirigente, sem pestanejar denunciou Leônidas e fez com que ele ficasse preso na cadeia militar durante 8 meses.


Ao sair da prisão, em 1942, Leônidas sai do Flamengo e vai para o São Paulo. Na época seu passe custou 200 réis, o mais caro da história do futebol brasileiro à época. Com 29 anos de idade, o jogador desembarcou na capital paulista onde foi recebido por uma torcida de mais de 10 mil pessoas. No primeiro jogo da equipe contra o Corinthians o estádio do Pacaembu recebeu o maior público de toda a sua história: 71.280 pessoas. Graças as jogadas de Leônidas da Silva e de outros bons jogadores do futebol paulistano, o time do São Paulo foi campeão paulista nos anos de 1943, 1945, 1946 (invicto), 1948 e 1949.


Aos 37 anos Leônidas se aposenta do futebol com o titulo de melhor jogador de todos os tempos (até surgir, anos mais tarde, um tal Pelé), começa uma nova carreira como comentarista esportivo e vive até os 90 anos de idade.


A história de vida desse homem negro é sem dúvida digna de aplausos. Além de ser um magnífico atleta, através do seu corpo, personalidade, inteligência, carisma e altivez rompeu as barreiras que a sociedade lhe colocava por conta da cor da sua pele, se mostrou digno e conhecedor dos seus direitos e durante sua carreira nunca se permitiu engolir bananas, a não serem aquelas que ele mesmo comprava e comia.



PARA NAVEGAR
imortaisdofutebol.com


PARA LER
A Banalização do Racismo
Texto de Ana Maria Gonçalves
Disponível em geledes.org.br






VALÉRIA ALVES é mestranda em Antropologia das Populações Afro-brasileira e Africana pela USP. Seu campo de atuação e pesquisa está voltado para as questões raciais, de gênero, sexualidade e cultura. Atualmente está responsável pela Coordenação Editorial das Pílulas de Cultura/ Feira Preta.

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ILUSTRAÇÃO: Victor Mikalonis
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EUSTÁQUIO NEVES
Série Futebol, 1997.
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KEHINDE WILEY
Unity, 2010. Óleo sobre tela. 108 X 144 cm.