COMO A DITADURA ESPIONOU O MOVIMENTO NEGRO – E OS “PERIGOSOS” BAILES BLACK




TEXTO CARLOS ALBERTO MEDEIROS
FOTOS ACERVO CULTNE
MARÇO/ 2016





Em julho último, fui convidado a dar um depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. O tema não era a situação por que passei na Aeronáutica, de onde fui excluído, juntamente com dois outros cadetes, pela suspeita de que tivéssemos um “grupo de estudos marxistas” (na verdade, uma espécie de clube do livro, o suficiente para atrairmos esse tipo de atenção numa época como o ano de 1968). O assunto, na verdade, era o conteúdo de documentos que vêm sendo liberados a respeito da espionagem de que foram objeto, no período ditatorial, as organizações do movimento negro e também, curiosamente, os responsáveis pelas festas de soul, que por algum tempo foram vistas como uma espécie de sucursais tupiniquins do radicalismo de grupos afro-americanos como os Panteras Negras.


E o que para mim foi mais interessante é que minha trajetória no movimento negro representa exatamente a confluência de organizações e festas. Afinal, foi num baile de soul – a Noite do Shaft, promovida por Asfilófio de Oliveira, o Dom Filó, no historicamente negro Renascença Clube – que fiquei sabendo de uma reunião que seria realizada no Centro de Estudos Afro-Asiáticos, da Universidade Cândido Mendes, em Ipanema, para discutir o 13 de Maio. Foi nessa reunião que me tornei um militante. Isso nos remete à própria história do Movimento Negro no Brasil.


A GÊNESE DO MOVIMENTO NEGRO CONTEMPORÂNEO


O Movimento Negro contemporâneo começa a se estruturar no início da década de 1970, com o Grupo Palmares de Porto Alegre, criado em 1971. Logo ele se faria presente, de modo autônomo e espontâneo, de vez que não havia Internet àquela época, na maioria das grandes cidades brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador... Duas influências externas deixaram nele a sua marca: o movimento anticolonial na África e a luta dos negros nos Estados Unidos. Esta última com efeitos mais poderosos em função não apenas do papel central exercido por esse país no sistema-mundo, mas também da maior semelhança entre os problemas enfrentados por afro-americanos e afro-brasileiros, cujo objetivo não era, como na África (com exceção da União Sul-Africana e da Rodésia, atual Zimbábue), expulsar os colonizadores, mas encontrar formas de coexistência pacífica e igualitária. O Movimento Negro contemporâneo trazia duas marcas distintivas em relação à luta dos negros até então: a denúncia do mito da “democracia racial”, considerado quase inatacável, sobretudo por negros, cuja ousadia seria contemplada com acusações de racismo às avessas, divisionismo ou simplesmente “complexo de cor”, como então se dizia; e a ênfase na construção de uma identidade negra positiva, baseada na valorização do fenótipo negro (o black is beautiful), assim como da história e da cultura dos africanos e afrodescendentes.


Apesar da oposição que provocava, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político, o novo movimento contou com o apoio decisivo de um importante conjunto de atores que retornava, com novas ideias, à cena brasileira. Refiro-me aos intelectuais e políticos que haviam sido forçados ao exílio e que começam a voltar com o processo de abertura, iniciado na segunda metade da década de 1970, muitos dos quais haviam tomado contato com visões da questão racial que estavam em conflito com as ideias freyrianas então predominantes na academia e no senso comum.


Em paralelo a tudo isso, e com muitos pontos de conexão entre os dois fenômenos, espalhavam-se pelo Brasil as festas embaladas pela soul music – a música negra americana –, responsáveis por levar às massas de afro-brasileiros a ideia de valorização de nossos traços e de nossa ancestralidade africana. Essas festas, que constituíam, antes de mais nada, encontros de celebração da beleza e da identidade negras, foram mal-interpretadas e desprezadas tanto pelas forças de segurança quanto pela esquerda tradicional, como é brilhantemente exposto por Paulina Alberto em When Rio was black: soul music, national culture, and the poltics of racial comparison in Brazil (Latin American Historical Review, fevereiro de 2009). Chega ser irônico constatarmos o grau de preocupação que essas festas provocaram nos órgãos de repressão e na direita em geral, sob as bênçãos do próprio Gilberto Freyre, que enxergou no movimento black uma tentativa de introduzir no Brasil um racismo inexistente, teoria conspiratória que consegue reunir, num mesmo e improvável saco, os megarrivais Estados Unidos e União Soviética:


"Será que estou enxergando mal? Ou terei realmente lido que os Estados Unidos vão chegar ao Brasil (...) norte-americanos de cor (...) para convencer os brasileiros também de cor de que seus bailes e suas canções afro-brasileiras teriam de ser de 'melancolia' e de 'revolta'? E não, como acontece hoje (...), os sambas, que são quase todos alegres e fraternos. Se o que li é verdade, trata-se, mais uma vez, de uma tentativa de introduzir, num Brasil que cresce plena e fraternalmente moreno – que parece provocar ciúme nas nações que também são birraciais ou trirraciais – o mito da negritude, não do tipo do de Senghor, da justa valorização dos valores negros ou africanos, mas do tipo que às vezes traz a 'luta de classes' como instrumento de guerra civil, não do Marx sociólogo, mas do outro, do inspirador de um marxismo militante que é provocador de ódios (...). O que se deve destacar, nestes tempos difíceis que o mundo está vivendo, com uma crise terrível de liderança (...) [é que] o Brasil precisa estar preparado para o trabalho que é feito contra ele, não apenas pelo imperialismo soviético (...) mas também pelo dos Estados Unidos".

(Gilberto Freyre, Atenção, brasileiros, Diário de Pernambuco, 15 de maio de 1977)


Enquanto isso, a miopia de amplos setores da esquerda fazia com que vissem nele unicamente um braço do imperialismo americano que, do ponto de vista ideológico, estaria interessado em solapar a cultura brasileira. Textos lamentáveis foram publicados, nessa direção, por órgãos respeitáveis da mídia alternativa, como o Movimento e O Pasquim. Com o tempo, os agentes infiltrados, evidentemente negros, chegam à conclusão, positiva para eles, de que as festas não eram políticas nem pregavam a violência, enquanto a esquerda foi mais perseverante em sua miopia.


Entretanto, como nos mostra Paulina Alberto, se as festas soul não eram políticas no sentido usual do termo, expressavam, não obstante, o que hoje se denomina “política de identidade”, voltada à celebração da negritude, que influenciou futuros militantes. É o que nos revela o livro Lideranças Negras (2006), de Márcia Contins: a maioria das pessoas por ela entrevistadas na qualidade de lideranças do movimento negro afirma ter tido nos bailes black uma experiência fundamental. É o que eu mesmo pude constatar ao entrevistar fundadores dos blocos afro Ilê-Aiyê e Olodum, como Antônio Carlos Vovô e Edu Omô Oguiam, os quais me confirmaram, como afirma Antônio Risério em Carnaval Ijexá, que os bailes de soul estão na origem dessas organizações: “Nós dançávamos o brown”, confirmou Vovô numa entrevista informal.


Curiosamente, o nome pelo qual essas festas vieram a se tornar conhecidas – Black Rio, Black São Paulo, Black Bahia – é resultado da conexão entre jornalismo e história. Isso porque apareceu pela primeira vez numa reportagem de cinco páginas publicada no Caderno B do Jornal Brasil, assinada por uma jornalista negra (que tinha problemas com essa identidade, preferia a de mulata) chamada Lena Frias: Black Rio – o orgulho (importado) de ser negro. A matéria, que provocou um misto de medo, excitação e repulsa entre as elites cariocas, as quais desconheciam o fenômeno, inicia-se exatamente com o relato da exibição na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, em comemoração ao primeiro aniversário do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), do filme Wattstax (1993), um festival de black music realizado em 1992, em Los Angeles, que atraiu para o MAM, graças à divulgação do evento nos bailes de soul, cerca de duas mil pessoas, na maioria jovens negros que jamais haviam frequentado suas instalações.


UMA CONSTATAÇÃO DOLOROSA


Voltando ao presente, o que mais me chamou a atenção nos documentos, dos quais obtive cinco páginas relacionadas às comemorações, em 1976, do 20 de Novembro, então ainda chamado Dia de Zumbi, em que meu nome aparece duas vezes, foi a qualidade do relato, tanto na forma quanto no conteúdo. Trata-se de um texto muito bem escrito e absolutamente fiel aos fatos, tanto quanto posso recordar. Após apresentar uma lista de “elementos subversivos infiltrados no movimento negro” – na qual fui incluído por ter sido injustamente desligado da Escola de Aeronáutica, como relatei no início –, o texto passa a descrever, com absoluta precisão, uma série de eventos realizados naquele período. Um exemplo:


No dia 20 Nov, a Professora MARIA BEATRIZ DO NASCIMENTO fez, no IPCN, uma palestra, abordando a falta de liberdade do negro e a sua dependência à sociedade branca. Disse que a luta do negro deve ser desencadeada de maneira discreta, para não chamar atenção. Para tal, os negros precisam enfrentar a luta atual e futura com as mesmas características de ZUMBI que eram: FORÇA, TENACIDADE, INTELIGÊNCIA, LIBERDADE e amor ao seu povo. Finalizou a exposição enaltecendo os países socialistas africanos e europeus.


Nessa reunião, compareceram representantes dos Grupos Negros de São Paulo, entre eles, RAFAEL de tal que é um dos elementos de ligação dos grupos radicais. Atende no telefone 2116955-SP.


A qualidade do texto, tanto na forma quanto no conteúdo, nos leva a uma conclusão inevitável: o autor não apenas dispunha de um nível cultural respeitável, mas também de boa circulação entre a militância. Não era, definitivamente, um outsider, mas um de nós. Uma constatação ao mesmo tempo dolorosa e instigante. Qual será seu paradeiro?







CARLOS ALBERTO MEDEIROS é graduado em Comunicação e Editoração (UFRJ), mestre em Ciências Jurídicas e Sociais (UFF). Autor de Na Lei e na Raça (2004), e co-autor (com Jacques D´Adesky e Edson Borges) de Racismo, Preconceito e Intolerância (2012). Tradutor de dezenas de obras, com foco em Ciências Sociais, incluindo Amor Líquido, de Zygmunt Bauman, e Redes de Indignação e Esperança, de Manuel Castells, além de A Autobiografia de Martin Luther King. Como palestrante e conferencista, tem participado de atividades referentes à questão racial numa diversidade de instituições no Brasil e no exterior.

http://omenelick2ato.com/files/gimgs/512_mnu-site.jpg
Imagem do ensaio produzido pelo fotógrafo Januário Garcia em 1977, com os integrantes da equipe de bailes black Soul Grand Prix.
A imagem - assim como a fotografia ao lado - que seria utilizada para estampar a capa do LP da equipe posteriormente lançado pela gravadora Warner, acabou não sendo aproveitada. "Usamos outro layout", recorda-se Dom Filó.
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/512_mnu-site-1.jpg
De cima para baixo: Moedinha, Alcione, Nirto, Filó, Santos e Tuninho
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/512_mnu-site-2.jpg
Asfilófio de Oliveira, o Dom Filó (esq.), ao lado do escritor Carlos Alberto Medeiros, em uma das edições do baile soul Noite do Shaft, no Renascença Clube, no ano de 1972.
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/512_mnu-site-3.jpg
Carlos Alberto Medeiros (esq.) e Dom Filó no Renascença Clube