TODOS SÃO CULPADOS



Por Nabor Jr.
OUTUBRO/2010



“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros. A cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo


Quase 13 anos já se passaram desde o lançamento, em 1997, do clássico álbum “Sobrevivendo no Inferno”, do quarteto paulistano de rap Racionais MC´s. O disco – sem dúvida um dos mais significantes da história recente da música brasileira – nos brinda com um contundente manifesto sobre o estado de abandono, violência e exclusão étnico-social que assola as periferias tupiniquins e impede a ascensão econômica do nosso povo e, por consequência, o crescimento democrático do país. Trata-se do início da música “Capítulo 4, Versículo 3”, cujos versos abrem este texto.


Hoje, mais de uma década depois constatamos que os números, as ruas e os noticiários sensacionalistas do fim da tarde estão aí e não mentem. Tapar o sol com a peneira também não resolve. Ainda vivemos tempos ruins.


E o pior, no campo da cultura e da educação, a matemática excludente é a mesma. Dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que somente 13% dos brasileiros vão ao cinema pelo menos uma vez ao ano. A museus, 92% nunca foram, assim como 93,4% nunca estiveram em uma exposição de arte e 78% jamais assistiram a um espetáculo de dança. Mais de 90% dos municípios do país não têm salas de cinema, teatros, museus ou outros espaços culturais.


É essa triste realidade, somada a boas doses de Dostoievski, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, que abastece e estimula a literatura marginal do escritor, cantor e compositor Reginaldo Ferreira da Silva, nacionalmente conhecido como Ferréz. Autor, entre outros, de livros como “Fortaleza da Desilusão” (1997), “Capão Pecado” (2000) e “Manual Prático do Ódio” (2003).


Em “Cronista de um tempo ruim”, seu mais recente livro, ele externa com detalhes as causas e consequências desse abismo social, étnico e sangrento que separa a periferia do centro.


Dividido em contos e crônicas, o livro traz um compilado de 21 textos, alguns deles publicados nas revistas Caros Amigos, Trip e nos jornais Folha de S. Paulo e Lê Monde Diplomatique Brasil. Com narrativa em primeira pessoa, Ferréz apresenta-se como protagonista e interlocutor de uma realidade que muitos não conhecem e, outros, talvez a imensa maioria, finge não conhecer. Para isso conta suas experiências como morador do Capão Redondo, bairro do extremo sul da cidade de São Paulo.


O livro arde, queima, exala realismo e, assim como Ferréz já fizera anteriormente em outras obras, aponta os culpados pela pobreza e violência desenfreada que persegue os moradores das periferias de São Paulo.


Não faltam críticas (tão pouco ameaças - “Paz só a quem merece. E aos que não, Guerra” - diz ele na introdução do livro), à cidade, aos políticos, à polícia, às novelas, à imprensa e a todos que integram o sistema dominante que, segundo Ferréz deixa transparecer, é formado por pessoas e movimentos que não veem com bons olhos a ascensão social e econômica dos mais pobres.


“Cronista de um tempo ruim” destila ódio, raiva e realismo contra a forma como o Brasil é administrado por suas autoridades. Mas também é otimista ao apontar a leitura, a educação, as ações afirmativas e a transformação política do povo como uma saída.


Ferréz peca, porém, ao eximir, ou, no mínimo, acobertar, o povo que defende. Afinal, na democracia, nossos representantes, por piores que sejam, são eleitos. A televisão não liga sozinha. Greves, protestos, reivindicações e a formação de organizações sociais são livres.

Quem vai por a mão na massa?


Livro-manifesto, “Cronista de Um Tempo Ruim” reúne relatos escritos por quem conhece e vive a história que se propõe a contar. O problema talvez seja que seu público alvo – os moradores da periferia - já não tenha tanta paciência para ler o que já estão cansados de vivenciar.


Saídas? São poucas. Afinal, somos todos culpados. Mas as eleições estão aí e o primeiro passo pode ser dado agora.





PARA LER

Cronista de Um Tempo Ruim
Ferréz
Selo Povo
2009


Sentimento do Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Editora Record
1935



PARA SABER

ferrez.blogspot.com
selopovo.blogspot.com


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