O JONGO, O TAMANDARÉ E A CACHUERA


JULHO/ 2013
POR NABOR JR.


Apesar da riqueza histórica da sua prosa simples e direta, do ritmo constante dos seus tambores e da resistência ancestral incutida no seu cantar-falado, a força poética e a musicalidade rural presentes no Jongo (forma de expressão afro-brasileira que reúne tambores, dança e poesia) ainda figuram como elementos pouco conhecidos entre as manifestações culturais populares de matriz africana encontradas no Brasil. Fenômeno semelhante acomete outras manifestações culturais criadas e preservadas por comunidades afrodescendentes traficadas para o Brasil como a congada, a marujada, o bumba-meu-boi e o samba de roda, por exemplo.


Este mesmo lugar “desconhecido” da memória coletiva dos brasileiros, fruto de uma proposital e cruel repressão que já atravessa no mínimo dois séculos, também ocupa os registros sobra a história da chegada dos negros a pequena Guaratinguetá, no interior do estado de São Paulo, e o surgimento do Tamandaré, famoso bairro da cidade, como uma tradicional comunidade de jongueiros.


O simples fato de um estudo debruçar-se sobre esses temas já o faria relevante por si só, visto o “peso” da sua efetiva contribuição para a documentação e registro dessas culturas imateriais no país.


Mas não é apenas por iluminar esses assuntos e unir na teoria o que a prática já se encarregou de fazer com as culturas popular e afro-brasileira, que o livro O Jongo do Tamandaré (2013), da Edições Acervo Cachuera!, lançado no último mês de maio, se destaca.


A grande contribuição do trabalho, para além do ineditismo do seu recorte histórico, está na maneira como os temas são abordados, no didatismo da linguagem empregada e no capricho estético dispensado ao produto final.


No melhor estilo Mário Andrade e suas pesquisas de campo que redefiniram as matrizes culturais tupiniquins - O Jongo do Tamandaré é, antes de tudo, fruto de um trabalho de intensa pesquisa comandado pelos mentores da publicação: Alexandre Kishimoto, Maria Cristina Troncarelli, Paulo Dias e Vanusa Assis.


Seguindo o mesmo padrão de qualidade estética e de conteúdo já observados em outro trabalhos “assinados” pelo Cachuera, como Bumba-Boi Maranhense em São Paulo (2001), São Paulo Corpo e Alma (2003), No Repique do Tambú - O Batuque de Umbigada Paulista (2003), O Jongo do Tamandaré foi concebido prioritariamente para as salas de aula (visando especialmente o cumprimento das leis10.639/03 e 11.645/08, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas escolas de todo o Brasil). Por isso a editoração leve e didática que privilegia não apenas a leitura dos textos como a observação de fotografias e ilustrações. A composição das cores, os espaçamentos entre frases e colunas também mostram que é possível unir um projeto gráfico inteligente a um conteúdo denso.


Outra característica do livro que chama a atenção em O Jongo do Tamandaré é a forma com que foi concebido: efetivamente de maneira coletiva – uma vez que seu conteúdo, incluindo o kit CD e DVD que o acompanham, conta com 26 autores entre crianças, jovens e adultos. “A comunidade jongueira produziu textos, desenhos, pontos de Jongo, deu depoimentos e opinou no conteúdo editorial do livro. O trabalho foi conduzido através de oficinas mediadas por membros da Associação Cultural Cachuera!”, afirma Paulo Dias, presidente da associação.


Além de enfocar o jongo e suas transformações ao longo do tempo, o livro aborda práticas culturais que são significativas até hoje para os negros de Guaratinguetá, como a festa de São Benedito, as congadas e os moçambiques, a umbanda e o candomblé, a escola de samba e as festas juninas.


Patrocinado pela Petrobras através de Lei de Incentivo à Cultura (Ministério da Cultura/Governo Federal), O Jongo do Tamandaré é uma leitura obrigatória para todo brasileiro orgulhoso da sua história, e vem comprovar o lugar de vanguarda ocupado pela Cachuera! quando o assunto é documentação, divulgação e estímulo a reflexão das culturas popular e de matriz africana praticadas no Brasil.


A referida edição dedicada ao Jongo é a primeira de uma série que abordará mais duas manifestações culturais afro-brasileiras: são elas o Batuque de Umbigada das cidades de Tietê, Piracicaba e Capivari (SP) e o Congado da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá, em Belo Horizonte (MG).



CD E DVD


O livro ainda acompanha um CD (que reúne uma seleção dos pontos de jongo mais apreciados nas rodas do Tamandaré, gravados ao vivo durante os festejos juninos) e um DVD (apresenta dois documentários em vídeo sobre a prática do jongo no bairro, realizados por jovens da própria comunidade). Ambos reconstituem, a sua maneira - a história dos negros no Vale do Paraíba e na cidade paulista de Guaratinguetá desde a época da escravidão, passando pela Abolição, até o surgimento do Tamandaré como bairro dos jongueiros.




+ INFO ASSOCIAÇÃO CULTURAL CACHUERA!

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