O QUE É LITERATURA AFRO-AMERICANA?

O surgimento de uma nova pulp fiction negra pode indicar a maturidade, e não o declínio, da literatura afro-americana.


Por Gerald Early


O escritor afro-americano Nick Chiles ficou famoso por sua crítica severa ao mercado editorial, às jovens leitoras negras e ao estado atual da literatura afro-americana em seu artigo controverso de 2006 no New York Times, intitulado “Their Eyes Were Reading Smut” [Seus olhos liam lixo]. (O título do artigo é, claramente, uma paródia do clássico romance de Zora Neale Hurston de 1937, Seus Olhos Viam Deus, obra feminista fundamental do cânone da literatura afro-americana, considerado por muitos literatos um dos grandes romances americanos de sua época). Embora Chiles se mostrasse satisfeito com o fato de que grandes livrarias como a Borders reservassem um espaço considerável em suas estantes para a “literatura afro-americana”, ficou mais do que pasmo com o que era considerado “literatura afro-americana” pela livrarias e pelo mercado editorial. “[Tudo] que se viam eram sobrecapas de livros sensacionalistas exibindo todos os tipos de pele morena, geralmente seminus e em alguma pose erótica, com frequência acompanhados de armas e outros símbolos da vida do crime”, escreveu Chiles. Esses romances têm títulos como Gutter, Crack Head, Forever a Hustler’s Wife, A Hustler’s Son, Amongst Thieves, Cut Throat, Hell Razor Honeys, Payback with Ya Life e similares. Seus famosos autores são K’wan, Ronald Quincy, Quentin Carter, Deja King (também conhecido como Joy King), Teri Woods, Vickie Stringer e Carl Weber. Dedicam-se a um gênero chamado ficção urbana ou hip-hop, trabalhos ditos realistas sobre a vida no centro da cidade, com muito sexo gráfico, drogas e crime, playas, gigolôs, dough boys (ricos traficantes de drogas) e violência gráfica; consumo desenfreado justaposto à vida em conjuntos habitacionais. Em alguns casos, as obras não passam de romances sobre o mundo do crime entre os negros do ponto de vista do criminoso; em outros, são romances românticos negros em um cenário urbano exacerbado. Em todos os casos, são um tipo de pulp fiction; a despeito de sua reivindicação de realismo, na verdade tratam de fantasia, pois seus leitores tentam compreender sua realidade ao mesmo tempo que procuram escapar dela.


A maioria dos afro-americanos jovens, especialmente as mulheres, gênero do qual é formada a maior parte do público americano leitor de ficção, lê esses livros, cuja publicidade é direcionada exclusivamente a essa clientela. Alguns desses romances vendem o suficiente para que alguns autores não tenham necessidade de um "bico” para viver, o que é bastante raro na profissão de escritor.


A existência desses livros revela três aspectos da mudança na literatura afro-americana em relação ao que era, digamos, há 30 ou 40 anos. Em primeiro lugar, a despeito dos problemas de alfabetização e do desolador índice de evasão escolar no ensino médio entre os afro-americanos, existe um público leitor de massa composto por jovens negros de uma proporção tal que um autor negro tem a possibilidade de escrever exclusivamente para esses leitores, sem ter de se preocupar com soar intelectualizado ou literário ou com atingir os brancos. Em segundo lugar, o gosto das massas é distinto do gosto da elite – e a incomoda – em grande medida porque esta já não controla a direção e o propósito da literatura afro-americana; ela é hoje, mais do que nunca, uma literatura orientada para o mercado, e não uma forma de arte apadrinhada e promovida por brancos e negros cultos como no passado. O fato de que duas das editoras desses livros, Urban Books e Triple Crown, terem sido abertas por negros ressalta a natureza empresarial e populista desse tipo de literatura racial: feita por negros e para negros. Em terceiro lugar, a literatura afro-americana já não precisa mais ficar obcecada com o peso ou a expectativa de protesto político, ou com uma reivindicação especial pela humanidade da raça ou com o valor de sua história e cultura como era o caso no passado. (Com isso, não se quer sugerir que a literatura afro-americana tenha abandonado essas preocupações. Elas são mais evidentes na literatura afro-americana para crianças e adolescentes, que é, frequentemente, como esperado, bastante didática). Com isso, não se pretende argumentar que os livros que Chiles deplora tenham algum valor neoliterário ou extraliterário que compense o fato de serem romances sem valor e mal escritos. Mas esses livros de fato revelam algumas das complicadas raízes da literatura afro-americana e da formação do público afro-americano.
Os filmes blaxploitation do início dos anos 1970 — como o clássico independente de Melvin Van Peebles, Sweet Sweetback’s Badass Song; Coffy, Foxy Brown e Sheba, Baby, com Pam Grier; Hell Up in Harlem, Black Caesar, That Man Bolt e The Legend of Nigger Charley, com Fred Williamson; Superfly; os filmes Shaft, com Richard Roundtree — formaram o primeiro público negro jovem para a pesada arte negra urbana de aparência realista, voltada para vigaristas, drogas, prostituição e política antibranca (nos filmes, os brancos – principalmente gângsteres e policiais – destroem a comunidade negra). As raízes literárias desses filmes tiveram origem em duas correntes dos anos 60. As figuras mais intelectualizadas da esquerda e da corrente literária dominante endossaram esse tipo de literatura não ficcional sobre prisões negras, como The Autobiography of Malcolm X; a coleção de ensaios de Eldridge Cleaver Soul on Ice; Poems from Prison, compilados pelo detento e poeta Etheridge Knight, que inclui “Ideas of Ancestry”, de Knight, um dos poemas afro-americanos mais famosos e estimados dos anos 1960; e Soledad Brother: The Prison Letters of George Jackson. Todos esses livros passaram a fazer parte do cânone da literatura negra e são frequentemente lidos em vários cursos de literatura universitária, redação criativa e sociologia.


No contexto da ficção populista e sensacionalista do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 encontravam-se os romances do ex-cafetão Iceberg Slim e do usuário de drogas e preso Donald Goines — inclusive Trick Baby, Dopefiend, Street Players e Black Gangster. Esses romances são antecessores diretos dos livros que Chiles considerou tão desalentadores em 2006. Representavam uma porção pequena, mas obrigatória, da produção de literatura negra nos anos 1970. Muitos os consideravam sob uma perspectiva muito mais política na época; hoje, esses livros dominam a literatura afro-americana, ou parecem fazê-lo. Na época, assim como hoje, havia uma forte crença entre muitos negros — pobres, da classe trabalhadora e intelectuais burgueses — e também entre muitos brancos de que a vida urbana violenta representa a “autêntica” experiência negra e uma cultura de “resistência” verdadeiramente dinâmica do ponto de vista político.


Chiles provavelmente teria preferido que a Borders e outras livrarias não rotulassem os romances urbanos ou de hip-hop como “literatura afro-americana”. “Seria melhor para o público leitor se livros desse tipo fossem chamados de “literatura afro-pop”, “ficção negra urbana” ou “ficção negra de massa”. Nesse caso, a categoria de “literatura afro-americana” poderia ser reservada para os livros e autores que fazem parte do cânone: autores que vão do final do século 19 ao começo do 20, como o romancista Charles Chesnutt, o poeta e romancista Paul Laurence Dunbar e o poeta e romancista James Weldon Johnson, figuras dos anos 1920 ao Renascimento do Harlem, no início dos anos 1930, como o poeta e autor de ficção Langston Hughes, o romancista e poeta Claude McKay, as romancistas Jessie Fauset e Nella Larsen e o poeta e romancista Countee Cullen, incluindo as grandes figuras que fizeram a ponte entre o universo negro e branco dos anos 1940 aos anos 1960, como o romancista e ensaísta James Baldwin, o romancista e autor de contos Richard Wright, o romancista e ensaísta Ralph Ellison, a romancista Ann Petry, a poetisa e romancista Gwendolyn Brooks e o romancista John A. Williams, e autores da época das Black Arts, como o poeta e escritor de livros infantis Nikki Giovanni; o poeta, dramaturgo e escritor de ficção Amiri Baraka e o poeta Haki Madhubuti (Don L. Lee), até escritores pós-anos 1960, como os romancistas Toni Morrison, Alice Walker, Gloria Naylor, Walter Mosley, Colson Whitehead, Ernest Gaines e Charles Johnson; o poeta e romancista Ishmael Reed e os poetas Yusef Komunyakaa e Rita Dove. Algumas outras figuras, como os dramaturgos Lorraine Hansberry, Ed Bullins, Charles Fuller e August Wilson, e alguns escritores da diáspora, como o romancista e dramaturgo Wole Soyinka, o poeta Derek Walcott, os romancistas Chinua Achebe, George Lamming, Jamaica Kincaid, Zadie Smith, Junot Díaz e Edwidge Danticat, também poderiam ser acrescentados.


A preocupação de Chiles com o suposto declínio da literatura afro-americana reflete o medo da elite de que a ascensão do hip-hop e do ethos “urbano” geralmente represente um declínio da vida cultural negra urbana. Os “fatos urbanos”, por assim dizer, parecem um vírus destruidor dos padrões artísticos negros e de uma meritocracia negra. Atualmente existe apenas uma baboseira puramente orientada pelo mercado e direcionada aos gostos mais baixos e destituídos de cultura. Esta é claramente a posição de alguém como o romancista e crítico de cultura Stanley Crouch. A sensibilidade a esse respeito não é, de forma alguma, totalmente, ou mesmo em parte, uma questão de esnobismo. A literatura afro-americana levou muito tempo para atingir um nível de respeitabilidade geral, até que fosse reconhecida como digna de ser lida pelo público em geral e como digna de reconhecimento pelo establishment literário. Hoje, para muitos negros, os próprios negros parecem estar denegrindo-a ao inundarem o mercado com romances ordinários em nada melhores do que Mickey Spillane. Não é de forma alguma surpreendente que os negros, um grupo perseguido e historicamente degradado, sintam que seus produtos culturais são sempre suspeitos, precários e facilmente voltados contra eles na condição de caricaturas no mercado.


Uma outra forma de olhar para a situação seria considerar que a literatura urbana democratizou e ampliou o alcance e o conteúdo da literatura afro-americana. De algumas formas, a literatura urbana pode revelar a maturidade, não o declínio, da literatura afro-americana. Afinal, a literatura afro-americana é a mais antiga de todas as literaturas produzidas por minorias éticas identificadas de maneira autoconsciente nos Estados Unidos, remontando a uma época tão distante quanto 1774, data de publicação do primeiro livro de poemas de Phyllis Wheatley, e às narrativas sobre a escravidão do período pré-Guerra Civil, que produziu clássicos como The Narrative of the Life of Frederick Douglass (1845) e Incidentes da Vida de uma Escrava, de Harriet Jacobs (1861). Os afro-americanos têm pensado há muito mais tempo e com muito mais força do que outras minorias étnicas americanas na importância da literatura como ferramenta política e cultural. O Renascimento do Harlem foi um movimento de negros, com a ajuda de patronos brancos, para obter acesso e respeitabilidade cultural produzindo literatura de primeira qualidade. A ascensão da literatura urbana não representa um repúdio ao passado literário negro, mas sugere outras formas e meios de produzir literatura negra, bem como outros fins para ela. Ademais, alguns autores da literatura urbana estão longe de serem picaretas: Sister Souljah, ativista política viajada e romancista, é uma escritora e pensadora mais do que capaz, por mais provocante que possa ser. O mesmo pode ser dito do romance solitário do compositor musical Nelson George, Urban Romance (1993), que claramente não é um romance sem valor. Alguns dos livros de Eric Jerome Dickey e K’wan também valem a pena ser lidos. Uma figura de peso dividida entre o romance negro e a literatura urbana é E. Lynn Harris, escritora popular cujos livros tratam de relacionamentos e outros assuntos importantes para os negros, especialmente para as mulheres negras, na atualidade.


Quando comecei a trabalhar na Bantam Books há dois anos para me tornar editor-chefe de duas séries anuais — Best African American Essays [Os Melhores Ensaios Afro-Americanos] e Best African American Fiction [As Melhores Obras de Ficção Afro-Americana] —, queria me certificar de que os livros teriam um apelo a vários segmentos do público leitor negro; assim, convidei Harris para ser o editor convidado de Best African American Fiction de 2009, primeiro volume da série. Considero esses volumes uma oportunidade não só para apresentar o melhor das letras afro-americanas para o público leitor em geral — de escritores mais jovens como Z. Z. Packer e Amina Gautier a vozes estabelecidas como as de Samuel Delaney e Edward P. Jones —, mas também para forjar uma espécie de casamento entre vários tipos de literatura afro-americana. Eu quis utilizar a abrangência de E. Lynn Harris para trazer literatura negra séria a um público que talvez não tenha ciência de sua existência ou nem mesmo a deseje. É cedo demais para afirmar se a tentativa será bem-sucedida, mas o mero fato de tentar já demonstra um reconhecimento do nível de complexidade da literatura afro-americana e da profunda extensão da segmentação de seu público, o que mostra que a experiência afro-americana, a despeito da forma como é transformada em arte, tem uma profundidade e um alcance, um tipo de universalidade, eu ousaria dizer, que na verdade indica um belo futuro para esta literatura, e talvez para todas as literaturas de minorias étnicas americanas.



Gerald Early é professor da Cátedra Merle Kling de Letras Modernas na Universidade de Washington em St. Louis, Missouri, onde é diretor do Centro de Humanidades. É especialista em literatura americana, cultura afro-americana de 1940 a 1960, autobiografia afro-americana, prosa não-ficcional e cultura popular. Autor de diversos livros, entre eles o premiado The Culture of Bruising: Essays on Prizefighting, Literature, and Modern American Culture [A Cultura da Contusão: Ensaios sobre as Disputas por Prêmios, Literatura e a Moderna Cultura Americana] (1994), Early foi organizador de diversas antologias e consultor dos documentários de Ken Burns sobre basquete e jazz.


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