GUGU MATUSQUELA




TEXTO ALLAN DA ROSA
DEZEMBRO/ 2015




Gugu mofava num sanatório santo e sua mãe preparava a primeira visita, cheinha de guloseimas. Deixaram Gugu enjaulado na crocodilagem e levavam sacolas cheirosas pra descarregar a consciência que amargava. A família garantiu que era só veraneio o passeio que largou o seu mais velho amarrado numa aldeia que limparia o mundo do vício, da blasfêmia e da lepra.


Foi chá de lírio ou de trombeta? Foi fumacê ou a tevê? O que zuretou Gugu? Matusquela ele tava antes sim, mas nada comparado com a morgação de agora, atolado nos remédios rezados. Internado já juntou hematomas. Tava jurado no bairro, sim, mas problema vem no cuspe, dá grãozinho de problema em cima de qualquer muro. Entre os dedos do pé já cabe nascer problema.


Gugu começou a berrar em porta de bar, discutir com parede e socar poste. Até aí passava, mas quando decidiu pela peladice... Pra não doar suas pulgas e traças incendiou varal, gaveta e fez do tanque uma pira, mas nenhum campão na Vila Gengibre, zona leste, permite nudez peluda no claro do dia. Qual feira não arrebenta um tarado saliente se relando na mandioca, no pepino ou no rabanete? Andar pelado solta muitas razões turvas, sabe? Liberdade desvestida estorva... Sangrou no lixão e costurado na grade da quadra prometeram lhe castrar. Lamentável ausência de uma cadeira elétrica... Restou escarro na sua irmã e ameaça de pau com prego na nuca do seu caçula. No ponto do ônibus, avós da comunidade jogavam lixo na sua mãe. Em cada ruga um escarninho.


Mas somos um povo que luta junto e ninguém decidiria sozinho os caminhos pedregosos da existência. Toda gente deu pitada de juízo: Isso é falta de Jêzuis! É não, cumadre, precisa é fazer o santo! Ôchi, falta é tomar uma pisa pra criar vergonha no focinho! Ah, vá carpir o quintal! ... Então família internou pra não enterrar. E Gugu chegou no campo dos templários farejando trairagem, mas sem a certeza de que ia se entrevar na tranca.


Há quem plante outra versão: Gugu não ficou em camisa-de-força por tramoia de família amuada. Providência divina teria atendido rezas maternas e os obreiros da salvação buscaram o gênio em casa. Gentileza pra enfurná-lo no carinho do campo de concentração. O mistério da chegada dos olheiros justo em hora de desamparo foi a profecia que faltava, o selo.


A Comunidade de Terapia Benta encarava seu fardo civilizador e lia os vestígios de revelação: de qual nuvem ia chover detento pra regenerar? De qual árvore ia brotar paciente pra endireitar? As escrituras disseram: obrem. A recompensa vem aos dedicados e justos. Na provação deve-se inventar o rio pra se ter peixe no aquário.


Vossa Excelência administrador da casa venera os domingos. Devoto na missão, sacrifica o sétimo dia pro viço crescer em seu jardim. O que seria de nós sem o espírito empreendedor que ergue muros aos penitentes? Nessa intenção de ceifa e de paz é que voga disfarçado o Medo salpicado dia a dia em nosso nariz. O Medo, tão caluniado.


Amestrada a segurança pro sereno dominical. É dia de visita e que nenhum rastro de conflito reste em gotas vermelhas ou em farrapos pelo chão. Preparados os agentes pra conter a empolgação que o colo da primeira família proporciona aos seus novos filhos, Vossa Excelência administrador lambe os beiços esperando os quitutes de louvor daquele povo humilde (tomara que tomem um banhozinho...), os mimos pros cativos em cura. Vêm grelhados tostadinhos como uma bruxa na fogueira, sobremesas crocantes como a sola dos mártires peregrinos, doces como o mel no meio das pernas das pecadoras precisadas de condução, as que ele assessora pingando o dom divino de seu membro. Sabe que o afeto é remédio mais forte que qualquer injeção... ajoelhar no milho do Amor amansa os tendões da insânia e os ligamentos da rebeldia, abençoa a rótula da fé.


Dia de vender frascos do perfume de Jêzuis pro suvaco dos eleitos. Desodorantes feitos pelas mãos abiloladas ali mesmo nos porões da terapia.


Chegado o pedido de visita familiar, prepararam o muso. Lambuzaram Gugu com óleo de amêndoas, enfiaram dentes de plástico na banguela que veio de uma carícia do pé do vigia. Parrudo, encaixaram-lhe uma rolha no furico pra frear a caganeira que enlameou as calças pela semana. Gugu ficou uma lamparina e convocaram uma reunião de diretoria sobre vender seu passe pra alguma fazenda ou passarela de desfile, daqueles que apalpam e conferem arcadas dentárias antes de comprar. Gugu tava luxo de delícia.


A família descascava, temperava e confeitava os dias. Ninguém provaria antes de Gugu a fartura. Cadê pano de prato pra cobrir tanta vasilha? Como levar tanto suco? Jarras não tinham e nem bom dia ninguém lhes dava mais na Vila Gengibre. Ajuda, necas. Mas em segredo, temendo expulsão do bairro, vizinhos emprestaram garrafas e nem exigiram volta. Medo de infecção pinicava por baixo da capa generosa. Vírus da doidice não entre aqui, era uma reza sussurrada de mãe. Vírus de quem? Daquele filho de uma ratazana, tal de Gugu.


Gugu madrugueiro que embaralhou letreiros na garagem dos ônibus da zona leste. Trocou destinos e rumos na testa de cada busão. Cedinho, no cocho de cada dia, quem foi trampar na norte chegou na sul e quem seguiu pro centro cambou pra serra. E Gugu, peito de orgulho, foi encomendado à casa de tratamento. Herói saboteiro incompreendido. Por isso, a mãe encarrilhou bolos na forma como os ônibus da avenida. Poesia é saber colocar a comida na mesa. Sovar a massa era massagear as costas de seu filho, tinha carinho até pra quebrar casca do ovo. A cobertura de amora era a aurora, vista pela janela do cobrador. Dona Kimberly do Amparo ainda confeitou o nome inteiro de seu mais velho nos braços de um boneco do bolo. Sabia que no beco de cima Gugu batizou pupilos e profetizou riscarem seu nome nos pulsos, mas oito anos de escola pública não foi tempo pra aprenderem a escrever e ficou tudo só num G mesmo.


Ah, a sabedoria dos sofredores que proferia as sentenças: Esse muleque é jararaca no cajueiro! É nada, é jaca mole! Ôchi, tô lhe dizendo, eu conheço, é pimenta madura! Negativo, cumadre: esse aí é sombra de fumaça! É só questão de um corretivo pesado que sara.


Mas Gugu curiava pelas ruas em obras de troca de paralelepípedos por asfalto. Bolava geleia de piche pro seu sanduíche de mato baldio. Chupava pedra de sarjeta. Dizem que aí estricnou de vez e nessa chupança contraiu a leseira grande. As pedras mais suculentas ele cuspia de rajada no olho dos passantes. A irmã Stephany Francisca embalava balinhas de coco pra ele com a novela ligada e na tela era Gugu que provava suas balas e catarrava na vista do galã. Stephany se perguntava: fosse ela que desse faniquito, teria que mendingar carinho pra mãe?


E com a sapiência que só a vida nas quebradas dá, tantos apitaram a gala de Gugu: - Esse aí é umbigo sem barriga! Não, amiga: ele é daqueles que arrodeia, corcoveia, rodopeia e sangra, vai por mim! Fia, esse é um João-sem-braço. Dá-lhe um chá de cinta bem aplicado pra tu ver onde termina esse assanhamento! Mulher, angu não é polenta! Tu já viu ele rasgar dinheiro? (Pois e não foi? Gugu negou convite pra estrelar comercial de espelho que não racha).


Fazia pipa remendada com notas de dez, esbanjava todo o carretel e partia a linha. Jogava moeda no trilho do trem, mas não era oferenda e nem pedia mais de volta, era só alívio e por compaixão começou um derrame de dinheiro, alheio. Gugu, o incompreendido, ainda aboliu toda chana e toda cama de sua vida, pregando que desejo de pele era a burrice-mór que mais marretava aflição. Na sua Vila Gengibre, gota do mundo onde cabe o mar da humanidade, todos no travesseiro desenham a glória. Sonham medalhas de melhor bolador de cigarrinhos, fama de melhor goleiro ou de maior roncador de moto. Ali Gugu desprezou todo ibope e assim endossou de vez seu atestado de doidice: não se estripando por dinheiro, sexo ou prestígio ele era o pira. Só restou internar.


Pra domingo, a mãe preparava a salada colorida de beterraba, cenoura e tomate. Houve tempo que Gugu despejou galões de tinta num terreno baldio. Vermelho, lilás, rosa... Aí negou janta de casa, só ia comer mato colorido. Verdura só sabor arco-íris pra sugar até descolorir o talo. Começou a furar cerca e lambrecar tinta na horta do povo. Carpia plantas de estima, rapelava o chão e ali espetava giz de cera que regava pra folhar. Tomou pisa de enxada e pazada no peito.


Mas Gugu tinia mesmo quando o fusca da pamonha e do curau chamava no megafone. Por isso, o seu irmão caçula Smithson Raimundo decorou receita e trabalhou nas pamonhas pro domingão de visita. Nem sabia que faltava papel higiênico na terapia benta, bundas limpas com cuspe e caco de tijolo, mulheres lidando a regra mensal com miolo de pão. E que lá sobrariam outras penugens e orifícios às palhas de milho da sua pamonha.


No pinel santo, Gugu boca-dura chiou por dormir de valete sobre estrados. Foi mazela o pernoite de dois homão com nariz na frieira um do outro, enquanto os vigias se afofavam com três colchões pra cada um. Na Casa da Cura, sensível ao dom de cada bode do rebanho, o pensador da Vila Gengibre foi exilado pro banheirinho, mas tal privilégio só vinha nas horas de janta. Uma semana de ceia na privada sem descarga, sem barulho que tiriricasse sua reflexão ali onde boiava um peixe marrom no vaso e depois um cardume e depois um lameiro. Bandeja pro de comer era o tampo solto da privada.


Na casa de repouso rezado, um viciado em balinhas de hortelã se treme na fissura de cachimbar. Família não guentava mais os murros na porta em alta noite implorando moeda. O pai moía o choro, seus comprimidos contados pro câncer sumiram. Moleque tomou, trocou ou vendeu? Já internado, dividiu cama com o xodó da clínica, o que nas tretas era intocado, o xamã, imaculado dos muitos escorpiões da casa que se espreguiçavam na sua barriga mas que nunca lhe espetavam. Esse era o antena das peçonhas e por isso era preservado das taponas, o espantalho da geral. Depois traduzia aos seus apóstolos, na seita clandestina do banho de sol, o que os escorpiões cantavam sobre cada tatuagem de seu peito.


Mas o dependente de hortelã toma peba e mordida sem lambuja. De tarde se trata com o funcionário que lhe arranja balinhas verdes em troca de cócegas no joelho. Num isqueiro serrado trama seu cachimbo. Gagueja o primeiro pega e vem a pedrada no cerebelo. Depois volta do seu passeio atômico e as cócegas viram lambidas e beliscões. Dá mais uma, só mais uma?


No desterro há outro herege, um invertido! Na praça aberta ameaçava a dignidade numa luxúria antinatural dos bigodes se tocando. Seu comparsa fugiu, mas pra ele virá o vero arrependimento que definha toda libertinagem, depois dos sermões, auxiliados pelo pé d´ouvido que expulsa o mal. Purificado na labuta de botar peça em maçaneta pras empresas amigas da fé. Ensinemos a comunhão e venham a nós as doações das famílias de bem.


Quem usa colete de vigia alterna leituras e desfia erudição, passa fácil do Gênesis ao Levíticos, do Apocalipse ao manual do carcereiro. Um cassetete fica pendurado no teto, gente rela a cabeça nele quando passa pro banheiro. No porrete está gravurada a palavra “Esperança’, mãe de toda recuperação. No pátio, às quintas tem pregação e mingau azul. Um aleijado arrasta peito nas poças para receber sua merenda, mas antes tem que pronunciar a gratidão a Jezuis. Cinco anos atrás, sua filha garantiu que a temporada ali seria só uma invernia. Não mentiu.


Gugu inflado de salitre injuriou o almoço, lavagem rejeitada pelos porcos, ração negada por cachorro... Como em nosso tempo a coragem é premiada e a covardia envergonha, Gugu ganhou férias, semana inteira de gozo numa antiga baia pra cavalo, estadia pra meditar sobre a audácia. Só ele, as baratas e uma lacraia. Retirado das férias arrastado, seu linguão de nobre lambida lixava o chão e com ternura lhe espetaram vacinas de mula. De volta ao viveiro, nada mais retocou da comida e engolia bolinhos de carne de pomba recheados com Valium e Diazepan.


Chega o domingo e a família pisa a masmorra. Pórticos e pilares importados de Jerusalém. Uma raiva muda paralisa o vento. Deitado debaixo do banco, um pinga colírio de café no olho roxo: chutou a bandeja dos comprimidos e tomou um couro de outros internos, observado pelos vigias que estavam em hora de almoço. Seu bambu quebrou no meio e o catatau entrou no cerol. Com sua bochecha no muro, outro condenado arranca pelinha do seu dedão torcido pra trás, vestígios da trapaça no jogo de gravetos. Aventais têm as cores da estação: amarelo mijo e marrom bosta. Um companheiro, com moscas na orelha de pus, larga os calcanhares de Gugu e arranha o queixo de qualquer visita que se achegue (Não preocupa, esse arranhão não existe, eu não existo, sou só o pesadelo de um deus anão que sempre deixa o arroz queimar). Recolhido volta ao porão, vai costurar bola. No caminho um choque é cortesia e toma na costela a pedagogia.


A mansarda tem sua refeição e depois os cigarros podem até circular, caso a caso. Mas a comida devota veio de longe pra Gugu e pro povo se esbaldar. Família dividiu uma semana só de bolachinhas de água e sal, guardou todo apetite pra celebração e tinindo destampava suas panelas. Rapavam a concha pro amado Gusvilson Cléber, o Gugu (ele tá tão corado, né, filha?) que teve um lampejo de denúncia: ia alastrar pra irmã as condições da matilha naquela carrocinha, mas quem acreditaria num xaropeta como ele? Com a dopação cavalar não conseguiu soltar palavrinha nenhuma, gogó faiou, Gugu gagá. Só um restolho de baba e de grunhido... seus dentes se batendo caiu um novinho de plástico. E ele abriu um sorriso pro banquete, mais na íris que na tremedeira da boca. Queria chupar e cuspir delícias.


Fumegando veio o prato cheio. Com a irmã acarinhando uma crosta em sua nuca, Gugu manda servir toda a camaradagem do quarto dos lençóis numerados. Os remédios da semana, as bombas de paciência, vão tão lerdas pelas artérias de Gugu que suas mãos de tanto tremer não equilibram o prato. Bocado por bocado, tudo transborda da vasilha e mela o colo da irmã, se desjuntando no chão todos os manjares da Vila Gengibre. Congestionamento cremoso e derrame no piso rachado de Deus, inda agorinha varrido e passado a rodo pelos carecas internos em troca de nicotina.


Toda comida pula da cumbuca, quica como bola de basquete. A irmã de Gugu lhe agarra, beija seu pescoço e tenta parar a convulsão dos seus pulsos. Ela surta e três guardas vêm com dopaminas e salmos. Chovem duas gotas gordas de seus olhos e tamborinam no prato de metal. Ávido e arregalado, esquecidas as dores no lombo das pancadas da semana, Gugu estira o linguão pra lamber no prato as lágrimas da irmã. São sua única refeição no domingo de visita.







ALLAN DA ROSA é historiador e mestre em Educação pela USP. Autor, entre outros, de A Calimba e a Flauta - Versos Úmidos e Tesos (livro-CD de poesia erótica, com Priscila Preta, 2002), Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem (Ensaio sobre Cultura Negra e Educação Popular, 2013) e Mukondo Lírico (livro-CD, com Giovanni Di Ganzá, 2014). Atualmente mantém o blog Á Beira da Palavra, hospedado no portal da revista Fórum.

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