OS TROUPE´S


TEXTO NABOR JR.
FOTOS MANDELACREW E CHUCK MARTIN
MARÇO/ 2013


Eram pontualmente três horas da tarde de mais um sábado frio da primavera nova-iorquina quando adentramos os portões do histórico edifício residencial Graham Court, no Harlem. Suntuoso e de estilo renascentista, o secular prédio foi erguido entre os anos de 1899 e 1901, em um período que ficou conhecido como o grande boom imobiliário do Harlem. Entre as personalidades que já estabeleceram moradia no local está a escritora norte-americana Zora Neale Hurston (1891 – 1960), autora do livro Their Eyes Were Watching God (1937) e influente personagem do famoso movimento cultural chamado de Harlem Renaissance. Atualmente, o ator Danny Glover (o policial Roger Murtaugh, da quadrilogia Máquina Mortífera) é um dos ilustres residentes do Graham Court.


Envoltos sob essa atmosfera, o fotógrafo e professor de Literatura Comparada no Queens College-City (ligado a University of New York) Chuck Martin e eu, caminhamos vagarosamente pelo jardim oval do pátio que dá acesso as portarias do prédio e de onde é possível obsevar toda a parte interna do edifício. Pelo interfone anunciamos nossa presença e fomos convidados a subir.


Ao tocarmos a campainha de um dos apartamentos do sétimo andar fomos recebidos pela simpática escritora e consultora de artes Margaret Troupe Porter, que prontamente recolheu nossos casacos e nos acomodou na ampla sala de estar de sua residência. No caminho entre o hall do elevador e a sala, porém, não pude deixar de observar a enorme quantidade de livros e artigos de arte dispostos pelos ambientes. Era como se estivéssemos entrando numa galeria de arte contemporânea inspirada em grande parte pela diáspora africana, tamanho o volume de quadros, pequenas esculturas e publicações ornamentadas nas paredes e móveis do apartamento. Pela janela da sala, a bela vista do Harlem espreitava meu entusiasmo.


Mais tarde soube que os anfitriões da casa promovem regularmente no próprio apartamento um concorrido salão de poesia e música apenas para convidados, e conhecido como Troupe´s Harlem Arts Salon. O próximo ocorrerá no dia 7 de abril. Por sorte fui um dos agraciados com o convite e posteriormente prometo apresentar imagens do encontro por aqui (leia o artigo que o jornalista Anderson Tepper escreveu para a revista literária The Paris Review, sobre o dia que o famoso escritor e jornalista de Trinidad e Tobago, Earl Lovelace, foi homenageado no Troupe´s Harlem Arts Salon).


Passaram-se poucos minutos do início da nossa conversa com Margeret para que Quincy Troupe, do alto dos seus quase 1,90m e longos dreadlocks, entrasse pela sala. Vestindo um confortável conjunto esportivo e segurando uma sacola de pães em uma das mãos, que mais tarde nos ofereceria em um agradável café da tarde, simpaticamente nos cumprimentou, entregou à sacola a esposa e se sentou em uma poltrona a nossa frente.


Amigo de longa data dos Troupe´s, Chuck, que tem no currículo um doutorado em literatura brasileira e espanhola, e por isso compreende muito bem o nosso português, além de viabilizar o encontro, nos auxiliou no idioma e começamos a conversar. Neste instante, já sem a sacola de pães, a sorridente Margaret, que também ostenta com orgulho suas tranças, voltou e se sentou para interagir conosco. Nitidamente, os Troupe´s estavam tão ansiosos quanto eu, afinal, queriam saber quem era aquele sul-americano que disse editar uma revista sobre artes e cultura afrobrasileira e dispórica no Brasil e que gostaria de conhecê-los pessoalmente. Até então tínhamos poucas informações uns dos outros. Eles menos ainda.


Não demorou muito e me apresentei. Falei sobre o processo de concepção e linha editorial da revista, o modo como observo o atual mercado de comunicação voltado aos negros do Brasil, as movimentações culturais que ocorrem em São Paulo e, como bom visitante, os presenteie com a coleção de exemplares de O Menelick 2° Ato.


Em 2008, Quincy e Margaret estiveram em Porto de Galinhas a convite da organização da 4ª Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto). Na ocasião, aproveitaram para passear por Recife e Salvador. Minha presença os fez recordar das maravilhas que o nordeste brasileiro oferece especialmente aos seus turistas estrangeiros. Com sorriso no rosto, o casal falou de suas impressões a cerca hospitalidade tupiniquim, das belezas naturais, culinária e, logicamente, caipirinha!


Mas a conversa ficou mais séria quando comentei sobre o lado “B” do Brasil, dos poucos, porém significativos avanços dos negros brasileiros nas últimas décadas e também sobre as inúmeras dificuldades que ainda nos assombram e impedem que nossa prosperidade aconteça na velocidade que deveria. Sinteticamente, entre uma frase e outra, Quincy sentenciou: “O que manda é o dinheiro”, ao falar a respeito da importância do apoderamento econômico dos negros brasileiros para uma virada de mesa. E em partes ele tem razão. Uma vez que o enriquecimento dos afro-americanos na sociedade estadunidense (que pode, sim, nos servir como exemplo apesar das diferentes conjunturas), foi um passo importante para a conquista de inúmeras reivindicações dos negros norte-americanos. É fato também, que lá esse poderio econômico se somou a uma consciência social que estimulava sobretudo a união desta população, fomentando o comércio entre eles, impactando fortemente a estrutura capitalista do país e transformando-se em uma das principais ferramentas para obtenção não apenas dos direitos civis, mas também de espaços em outros setores da sociedade, entre eles o da comunicação. “Não podemos aceitar certa coisas e ponto. Aqui, de certa maneira, foi assim. Não tem que ter conversa”, concluiu.


Aos 73 anos de idade, Quincy Troupe Thomas Jr. é o editor responsável da revista Black Renaissance/ Renaissance Noire, publicação ligada ao Institute of African-American Affairs, da New York University. Ensaios, poesia, ficção, fotografia, arte e comentários que segundo ele “abordam toda a gama de preocupações do negro contemporâneo. E diferentemente da maioria das demais publicações voltadas aos negros do país, preocupando-se em primeiro lugar com a força texto e da mensagem”, são os pontos fortes da revista.


Black Renaissance é publicada três vezes ao ano, o próximo número será lançado no final do mês de maio. Infelizmente a revista não possui um site (Quincy disse que no segundo semestre eles terão) e dificilmente é encontrada nas ruas, uma vez que ela é enviada para um mailling de leitores. Porém, não custa tentar um contato com eles, soube que muitos exemplares são enviados para outras partes do mundo. Quem sabe alguns não podem vir parar no Brasil (o e-mail da revista é blackrenaissance@nyu.edu).


Muito bem organizada, com harmônicas distribuições de textos, fotos e imagens, pautas que dialogam com movimentos da contemporaneidade, excelente corpo editorial (rotativo, é verdade, mas quase sempre de grande capacidade intelectual e reflexiva) e belas capas, Black Renaissance/ Renaissance Noire, apesar da pouca repercussão, é uma das melhores revistas do gênero dos Estados Unidos. E foi para saber sobre curiosidades do periódico e a forma como Quincy o dirige os principais motivos da minha visita aos Troupe´s.


Contudo, para além do papel de editor, Quincy é um renomado poeta, escritor e conhecedor do mercado editorial afro-americano. Foi fundador, no final dos anos 90, da extinta e também muito boa Code – The Magazine for Men of Color (essa ele não dá nem empresta), editor convidado da African Voices, teve o nome incluído no Hall da Fama dos escritores negros na Chicago State University, possui mais de 20 livros publicados, entre poesias (a sua grande paixão), infanto-juvenis (Little Stevie Wonder, 2005) e biografias, boa parte das publicações voltadas a questão do negro, mas não de maneira previsível e chata. Seus mais famosos e bem sucedidos livros são dedicados ao músico e amigo Miles Davis: Miles: The Autobiography (1989) e Miles and Me; A Memoir (2000). O primeiro, narrado em primeira pessoa, é um dos mais importantes registros escritos que se tem do mundialmente influente trompetista.


Com o cair da tarde, Quincy nos convidou para um café regado a pães, queijos, presuntos e azeitonas. Assim que nos acomodamos na confortável e igualmente bem decorada sala de jantar do casal, Margaret pôs a mesa espalhando deliciosos quitutes a nossa frente. Quincy aproveitou a minha presença (ou seria a desculpa da minha presença?) para fazer um inusitado pedido a companheira, que preparasse uma rodada de caipirinhas para nós. “Sim! Para lembrar o sol, as praias, belas mulheres e todas as boas lembranças do Brasil”, disse. Margaret caprichou. Sem açúcar branco na dispensa, ela improvisou, e pela primeira vez degustei uma caipirinha marrom, adocicada com açúcar mascavo. O desconforto visual da bebida amarronzada não se sobressaiu ao gosto. Pelo contrário, estava deliciosa. Uma autêntica caipirinha Black! Brindamos nosso encontro, jogamos mais um pouco de conversa fora e nos despedimos.


Antes, porém, entre um gole e outro na caipirinha nativa, e aproveitando o momento de descontração, gravei uma curta entrevista com Quincy. Na conversa ele fala a respeito do processo de criação da Black Renassancie, da amizade com o músico Miles Davis e do seu interesse pelas artes brasileiras. Como estou sem um bom computador por aqui, farei a edição do material quando chegar ao Brasil.


Até lá saboreiem a rica biografia deste simpático e talentoso casal. Ao menos para mim, um precioso “achado” na terra do Tio Sam.



+ QUINCY TROUPE
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