NEM TUDO SÃO FLORES.
NEM TUDO SÃO HORRORES


TEXTO NABOR JR.
MARÇO/ 2013


Há décadas o mercado editorial norte-americano é morada de uma volumosa, diversificada e bem estruturada gama de publicações especialmente dedicadas ao universo da população negra estadunidense. Oficialmente, segundo dados recentes da ONG MPA (The Association of Magazine Media), os Estados Unidos possui hoje nada menos do que cerca de 100 revistas exclusivamente voltadas aos negros do país (lembrando que a pesquisa não soma neste montante outras centenas de sites e jornais especializados).


As variáveis deste nicho pra lá de explorado compreendem periódicos que vão desde a African American Golfer´s Digest (voltada aos afro-americanos fãs de golf) e The Black College Today Magazine (destinada a estudantes universitários negros), até chegar em publicações como a Target Market News Magazine (que trata de marketing, negócios e propaganda para o consumidor negro) e a Cuisine Noir Magazine (sobre vinhos e gastronomia também para o mesmo público).


Porém, apesar da imensa variedade e quantidade de revistas (reflexo de uma série de conjunturas sociais, econômicas e culturais que podem ser melhor compreendidas através da leitura de textos sobre a luta pelos direitos civis na terra do Tio Sam), este mesmo mercado, por incrível que pareça, ainda carece de boas opções de leitura para o público negro.


Quando faço esta afirmação, me refiro especialmente à revistas destinadas ao afro-americano médio, com boa formação cultural e que procura (ou se não procura, mas que pode no mínimo encontrar) textos menos superficiais, realmente capazes de destrinchar os acontecimentos do ocidente negro para além das fronteiras territoriais e, principalmente, que siga na direção contrária a velocidade que o mundo moderno e a internet impuseram a contemporaneidade. Enfim, uma publicação de textos bem trabalhados, com projeto editorial que valorize a força da palavra, da imagem e que busque o equilíbrio entre a escrita acadêmica e jornalística.


Hoje, o que se vê nas bancas de jornal é a força do tema se sobressair a “magia” do texto, ferramenta primordial para tornar um assunto interessante, ou não, de ser lido. A rápida e nem sempre aprofundada abordagem utilizada na Internet, cada vez mais presentes nos meios físicos, não deve servir como parâmetro para uma revista que preze pelo seu conteúdo. Cada veículo deve, a sua maneira, potencializar suas vantagens estéticas e editoriais, e dialogar entre si como bons aliados um do outro. E não pasteurizar a linguagem. E este, a meu ver, é o atual grande desafio desta imprensa especializada.


Se por um lado o enfadonho discurso político de raça há décadas deixou de pautar as revistas norte-americanas dedicadas aos negros, por outro, o nem sempre interessante cotidiano das pseudo celebridades do universo do hip hop, o estímulo a um consumismo voraz e a falta de visão (ou interesse) em unificar temas comuns ao ocidente negro (tal qual as artes e a internet já o fizeram quebrando barreiras geográficas e de idioma) continuam a permear boa parte desses periódicos, pouco, ou nada, contribuindo para o fortalecimento de um pensamento mais reflexivo dos seus leitores.


Pessoas como o fotógrafo norte-americano Charles Martin, professor de Literatura Comparada no Queens College, instituição ligada a City University of New York, tem a mesma percepção. “Dificilmente você encontrará uma publicação que realmente trata-se a perspectiva do negro com profundidade, sem a simples preocupação em formar mais do que meros vorazes consumidores”, disse.


O verdadeiro trator que o mercado negro passou sobre a estrutura branca e capitalista norte-americana, fazendo com que boa parte das maiores empresas do mundo se adequassem, em diversos segmentos (é claro, nas suas devidas proporções e com seus interesses coorporativos e comerciais bem definidos) aos modos, costumes e herança histórica do negro norte-americano, só terá valia para as publicações se as mesmas souberem acompanhar e, se possível, pautar a constante evolução da sociedade, interpretando, de fato, o mundo moderno ao seu público. Sem subestimá-lo.


Fortemente estabelecido e respeitado, o mercado editorial negro norte-americano já não precisa mais provar a força que tem para ninguém, pelo contrário, segue há décadas com a faca (público) e o queijo (empresas) nas mãos, mas está claramente com dificuldades em oferecer ao faminto e exigente consumidor local uma refeição digna do seu apetite intelectual. Essence e Ebony juntas somam quase 2 milhões de assinantes, e além delas, outras revistas esbanjam em suas páginas propagandas com boa parte das maiores empresas privadas dos EUA. O problema é saber até quando o mercado sustentará um nicho que está longe de ser essencial na vida das pessoas e que titubeia em encontrar seu verdadeiro espaço frente à avalanche de facilidades oferecidas pelo meio digital.


Em tempo, não tem tudo são flores, mas nem tudo são horrores: The Grio, Black Voices, Black Renaissance/ Renaissance Noire, The Root, Clucth Magazine e a própria Ebony, apesar de não serem em sua maioria revistas físicas, continuam a oxigenar, cada qual a seu modo, o pensamento do negro contemporâneo nos states.

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