MAIS UMA DOSE


AGOSTO/ 2012



de: NABOR josenabor@ig.com.br
para: EDSON IKÊ edson.ike@ensaiografico.com.br
data: 20 de abril de 2012 - 18:39
assunto: AFROSAMBAS REVISTA (PAUTA)


Salve Edson,

Dando continuidade a conversa que travamos por telefone, gostaria que através do seu conhecimento a cerca dos famosos afro sambas compostos pelo músico Baden Powell somado ao seu talento como ilustrador, criasse uma ou mais ilustrações que retratassem, pelo seu olhar, os 50 anos do encontro (recheado de mitos e disse me disse) entre Vinícius de Moraes e Baden Powell que quatro anos depois resultou no disco Os Afro-Sambas.


Sei que você conhece bem o álbum e as histórias que cercam o modus-operandi em que as composições do disco foram criadas lá pelos idos de 1962, porém, para facilitar seu trabalho, envio-lhe um texto para que dele você tire as inspirações para sua criação, ou não!rs


Qualquer coisa me dá um alô!


Abraços


NABOR


TEXTO


Entre todos os grandes discos já lançados pela indústria fonográfica nacional, o álbum Os Afro-sambas (1966) ocupa um lugar de destaque. Resultado da inspirada – e inspiradora - parceria entre o violonista Baden Powell (1937 – 2000) e o poeta Vinícius de Moraes (1913 – 1980), o trabalho, que destila referências sonoras pinceladas nos sambas-de-roda da Bahia, nos pontos de candomblé e nos toques de berimbau, marcou de forma inesquecível a música popular brasileira.


Em 1962, Vinicius de Moraes conheceu Baden Powell na boate Arpège, no Leme, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, quando foi prestigiar o amigo Tom Jobim (1927 – 1994). Na ocasião, Powell executava na guitarra canções americanas e alguns iê-iê-iês. Após o show, o “poetinha” se aproximou do violonista e o convidou para ser seu parceiro. Dias depois, Baden foi à procura de Vinicius em seu apartamento e os dois só saíram de lá três meses depois, com 25 canções e muitos litros de uísque na cachola.


A história acima é uma das lendas que o jornalista e biógrafo mineiro Ruy Castro reuniu em seu livro Chega de saudade: A história e as histórias da Bossa Nova (1990). Segundo Castro, que desmente o feito, foi Nilo Queiroz, aluno de violão de Baden, o responsável por colocar os dois frente a frente em seu apartamento na Avenida Atlântica. Vinicius passou a noite ouvindo o violão de Baden, que jorrava um repertório que chegava até Villa-Lobos.


O que se comprova nas duas histórias é a quantidade destruidora, ou talvez inspiradora, de uísque. Vinte caixas de Haig’s, trazidas de forma diplomática que, se divididas pelos 90 dias do retiro criativo, resultam em incríveis duas garrafas e meia por dia. Mas isso não foi trabalho para a dupla Baden e Vinicius.


Entre tanta bebida e tanto retiro, eles parecem ter alcançado o nível ideal para compor. Dali saíram 25 canções (o disco tem 8 faixas). Baden muito ouviu de Vinicius sobre a Bahia, além de ouvir um disco, presente de Carlos Coqueijo, que continha sambas de roda e trechos de berimbau. Powell nunca tinha ido à Bahia. Á época, era apenas um garoto que morava no subúrbio carioca.


“Essas antenas que Baden têm ligadas para a Bahia e, em última instância, para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar, dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal”, afirma Vinicius em nota que acompanha o encarte do LP.


Com arranjos de Guerra Peixe e participação em todas as faixas do Quarteto em Cy, Os afro-sambas entraram para a história da fonografia brasileira como um divisor de águas da MPB, reunindo dois gênios em convulsiva criação, escrevendo naqueles 90 dias o que se conhece por música popular africana brasileira ou, pelo menos, aquilo que habita o imaginário coletivo.


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MAIS UMA DOSE, Técnica Xilogravura (2012)
Edson Ikê