UM NOVO REINO DE IRMÃS E IRMÃOS




TEXTO LUCIANE RAMOS-SILVA e JE OLIVEIRA
OUTUBRO 2016




Texto originalmente publicado na edição especial da revista produzida em parceria entre a revista O Menelick 2° Ato e a plataforma internacional de artes com perspectivas africanas Contemporary And (C&) com vista a 32ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo.






Na última década brotaram na cidade de São Paulo produções de pensamento que, a partir da dança e do teatro, confrontam a experiência de ser negra/negro e como isso mobiliza fazeres artísticos nos labirintos da diáspora.


São dramaturgias que captam e recriam memórias, interpretando a história a partir de perspectivas que desafiam os modelos legitimados. São artistas que criam na tentativa de redimensionar os valores que foram esfacelados no caminho por tantos deslocamentos, silêncios e desigualdades. Não são clamores, mas estratégias gestadas na arte que fita a mudança.


CORPOS PRÓPRIOS – ESCRITAS E REIMAGINAÇÕES


No campo específico da produção de dança, entre as diversas ações envolvidas na busca de enunciados e escutas para o corpo, a abordagem da política através da estética e da poética tem recebido atenção e profundidade. Em um cenário de mudanças nas políticas culturais para a cidade, onde questionamos a ausência das produções de artistas negras e negros na paisagem das criações contemporâneas, criadores movem-se a partir de perspectivas africanizadas, rejeitando os clichês e estigmas criados pelos discursos dominantes e tensionando as falas apaziguadoras, que ignoram a hierarquia racial na história da dança do país.


Esses pensamentos de pés enraizados, torsos que desenham espirais, braços e pernas em percursos curvos que viajam distâncias e retomam à unidade, tem transpassado espaços legitimados de poder, ocupando também os ambientes das universidades com teorias, procedimentos e referências que apontam para aquilo que a crítica cultural feminista bell hooks (1952) apresenta como transgressão: empurrar contra fronteiras.


Na obra Dikanga Kalunga (2014), da Nave Gris Cia. Cênica, coreografada e interpretada pela bailarina Kanzelumuka, o universo das manifestações tradicionais bantas é mote para uma criação que insere no corpo elementos das relações ancestrais e arquetípicas dessas culturas profundamente presentes na composição sociocultural brasileira. E não se trata de colagem leviana travestida de “releitura”, mas uma apropriação fundamentada de concepções de espaço, tempo e humanidades negras. Elucidando as transversalidades das relações de gênero, raça e classe, o bailarino e ator Kleber Lourenço, na peça Negro de Estimação (2007), imprime no corpo de seus personagens a condição de sujeitos cujos discursos irônicos elucidam os lugares de submissão a eles reservados por serem nordestinos, negros, gays e pobres.


Ao retomar e devolver dignidade a corpos e expressões culturais “fora de ordem”, esses artistas colocam a dança em um lugar justo: como área de produção de conhecimento. Nessa encruzilhada, a pesquisa de linguagem é um elemento fundamental. A jovem Cia. Fragmento Urbano, interessada nas possibilidades criativas, técnicas e simbólicas das danças urbanas e brasileiras faz aproximações e cruzamentos em torno de gêneros da dança que acompanham suas paisagens vividas. Oriundo dos espaços periféricos e educado nos cruzamentos da cultura urbana hip hop e das culturas populares nordestinas, o grupo se alimenta da tradição como índice de continuidade e invenção.


Ao mobilizarem força criativa a partir dos territórios negros, esses artistas trazem à baila pensamentos do corpo menosprezados pelos espaços hegemônicos e por práticas discursivas que ampliam as possibilidades para entendermos quem somos enquanto brasileiras e brasileiros, diante das tensões e contradições que nos cercam. Negritude não é apenas acessório e, tal qual a dança, não está contida na matéria, mas sim cultivada – em corpo e ancestralidade. Entender o que nos compõe implica em destilar os caminhos e maneiras de perceber nossas unidades e diversidades. Nada mais do que nos movermos criticamente.


NO PALCO, A HUMANIDADE


Voltando a atenção para o teatro feito a partir da experiência social negra, atentamos para algumas características presentes na produção teatral contemporânea dos seguintes grupos: Os Crespos, Capulanas Cia. de Arte Negra e Coletivo Negro, destacando o “empenho civilizador do teatro com preocupações raciais”¹ como elemento norteador para esta reflexão. Entre as poéticas que esses grupos empunham e anunciam, vemos o enfrentamento e construção de possibilidades frente ao racismo e seus efeitos (afetivos, psicológicos e sociais) buscando reverter as invisibilidades e existir para além das vivências subalternizadas. Cada qual, com seu modo de interpelar temas caros à população negra, e não menos entre os artistas, atua em duas grandes esferas: no nível da expressão simbólica, quando criam e elaboram outras formas de representação, e no nível da experiência social, quando performatizam seus temas e problemas, influenciando a realidade e propondo a presença em espaços historicamente afastados do povo negro, como é o teatro no Brasil.


Além dos fundamentos éticos e estéticos que alicerçam suas obras, os grupos contam também com a presença volumosa e fiel de um público negro. Parece que o termo “público” não nomeia a amplitude do que ocorre nesse encontro. Essas características e o modo como se dá o acontecimento se assemelha ao que a psicanalista Maria Rita Kehl (1951) identifica na relação estabelecida entre o grupo de rap paulistanos Racionais Mc´s e os manos que o acompanham: irmãos e irmãs talvez seja o termo que melhor cabe para considerar os que compartilham e testemunham as criações. A ideia de irmandade expressa os sentimentos presentes nesses encontros mediados pela arte no estabelecimento de uma outra realidade – a da frátria, reino de irmãs e irmãos – colocando em relação de igualdade aqueles que representam e aqueles que presenciam.


A noção de irmandade torna-se ainda mais apropriada quando pensamos na orfandade paterna de muitos negros e negras. Busca-se criar uma relação de cuidado, celebração e educação entre todos que vivenciam o acontecimento teatral proposto pelos grupos.


A Cia. Capulanas, formada por mulheres negras periféricas, no espetáculo Sangoma (2013), dedica-se às questões de saúde da mulher negra, aprofundando pensamentos e desmistificando imaginários como os que fazem crer que mulheres negras suportam mais a dor, gerando tratamentos diferenciados e negligentes em hospitais públicos. Revirando essas percepções estereotipadas sobre o corpo, as artistas recobram o cuidado, o amor e a cura. Em Cartas a Madame Satã (2014), a Cia. Os Crespos discute a homoafetividade entre homens negros, os preconceitos e a sociabilidade cerceada que acompanha essa experiência permeada de afeto. A restituição necessária de dignidade também atravessa o trabalho do Coletivo Negro, que na peça Movimento Número 1: O Silêncio de Depois... (2011), aborda a desterritorialização das populações negras desde a primeira saída da África e o jogo mesquinho da lógica mercadológica, que a seu bel-prazer vende a tudo e a todos travestida de progresso.


Fomentar artisticamente a ampliação e o aprofundamento dessas questões, inclusive as subjetivas e afetivas, assim como o enfrentamento pedagógico do racismo e suas implicações, é um dos maiores empenhos dessa geração de artistas. Por outro lado, a população não negra está ausente ou distante dessas construções e esforços concretos. Longe de desenharem um circuito fechado, esses artistas propõem a humanização do conjunto da sociedade por meio do transbordamento de noções muito alargadas de humanidade, mobilizando valores que foram oficialmente silenciados pelos legados complexos da escravidão e do racismo brasileiro.








LUCIANE RAMOS-SILVA é antropóloga, bailarina e mobilizadora cultural. Doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia pela UNICAMP. Bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua nas áreas de artes da cena, estudos africanos e educação.


JE OLIVEIRA é ator, dramaturgo e diretor, membro fundador do Coletivo Negro – grupo que desenvolve pesquisas cênico-poetico-racial desde 2008 na cidade de São Paulo. Esta graduando-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP)

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Grupo Fragmento Urbano
Foto: Divulgação
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Capulanas Cia de Arte Negra 
Foto: Chaia Dechen
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Kleber Lourenço no espetáculo "Negro de Estimação"
Foto: Murilo de Paula
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Nave Gris Cia Cênica / Espetáculo "Dikanga Kalunga"
Foto: Maisa Sá
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Coletivo Negro /Espetáculo "Movimento Número 1: O Silêncio de Depois..."
Foto: Zaca Caldeira