ASSENTAMENTO(S): SOBRE A CAPA # EDIÇÃO ZER014


DEZEMBRO/ 2014



As imagens que ilustram a capa e a contracapa da edição zer014 da revista O Menelick 2º Ato fazem parte de um projeto maior (com mais obras), intitulado Assentamento(s), produzido pela artista visual paulistana Rosana Paulino.


Doutora em Artes Visuais pela ECA/USP, artista visual, pesquisadora e educadora, Rosana Paulino - e sua produção ligada a questões sociais, étnicas e de gênero - foi tema da edição zer0 zer0 da revista O Menelick 2º Ato, através do texto A Estética Crítica de Rosana Paulino, texto de Alexandre Bispo publicado em maio de 2010.



SOBRE O PROJETO ASSENTAMENTO(S)


Entre os anos de 1865 e 1866 o zoólogo suíço Louis Agassiz comandou uma expedição de cunho “científico” ao Brasil, a chamada Expedição Thayer. Sua intenção era provar a superioridade da etnia branca sobre as demais.


Agassiz estava entre os grandes nomes da ciência norteamericana do período. Professor da já então prestigiada Universidade de Harvard, era defensor do criacionismo, do poligenismo e também acreditava que a miscigenação entre seres humanos poderia causar a degeneração dos grupos étnicos envolvidos. Era opositor das teorias de Darwin que lançou, em 1859, seu famoso livro A Origem das Espécies, dando aos jovens cientistas as bases que iriam invalidar as hipóteses defendidas por Agassiz.


A fim de provar suas teorias racistas, Agassiz encomendou ao fotógrafo franco suíço Augusto Sthal, que então residia no Rio de Janeiro, uma série de imagens de africanos que aqui viviam. A ideia era retratar “tipos raciais puros” em fotos que variavam do “portait” as fotografias de caráter científico, a saber, retratando estas pessoas, negros e negras, em três posições diferentes: de frente, de costas e de perfil. Esta suposta cientificidade acabou, paradoxalmente, por gerar registros fotográficos únicos da população escrava do então Rio de Janeiro. Estas imagens, já em domínio público, estão hoje na coleção do Peabody Museum of Ethmology and Arqueology, de Harvard e constituem a base do projeto.


Assentamento(s) foi iniciado em meados do ano de 2012, a partir de uma imagem de uma escravizada negra impressa sobre papel e tratada com aquarela. Posteriormente, esta imagem foi desenvolvida em uma série de quatro gravuras, no Tamarind Institute, na Universidade do Novo México, em uma parceria entre o Tamarind e o Museu Afro Brasil, de São Paulo. Em oposição ao que tentava provar o que Agassiz conseguiu foi, de fato, documentar aqueles que ajudaram a fundamentar a cultura brasileira. Estes escravos e escravas, colocados ali sem a dignidade das roupas que sublinhavam a condição humana, foram, na realidade, peças fundamentais no assentamento e nossas bases culturais e é delas que parto para realizar o projeto”.





SAIBA + ROSANA PAULINO

http://omenelick2ato.com/files/gimgs/397_capa-ed-14-site.jpg
Reprodução de um dos trabalhos que compõe a série Assentamento(s)
Visão da imagem frontal. Impressão, costura e linóleo sobre tecido. 2013.
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/397_capa-contra-ed-14-site.jpg
Reprodução de um dos trabalhos que compõe a série Assentamento(s)
Visão da imagem de costas. Impressão, costura, bordado e desenho sobre tecido. 2013.