MENINA MULHER DA PELE PRETA, MARROM, BEGE...




TEXTO RENATA FELINTO
FOTOS MARINA ARRUDA E MANDELACREW
AGOSTO/ 2015





*Texto originalmente publicado na edição zer016 da revista O Menelick 2º Ato.




A célebre música do mestre Jorge Benjor nos fala de uma mulher da pele preta, de uma mulher preta. Em tempos de conscientização, de políticas públicas voltadas às ações afirmativas, da luta e da busca pela representatividade nos mais diversos segmentos da sociedade brasileira, a pele preta dessa mulher não deve ser imaginada como um único tom. As peles pretas são muitas.


Ser e se autodeclarar da cor preta é se assumir pessoa negra, mulher negra, e essa negritude, negrícia, se apresenta numa gama muito mais ampla do que o clássico marrom. Essa mulher preta tem o tom de pele que vai do bege rosado ao marrom azeviche. Ser mulher preta é uma questão de aparência, ou melhor, fenótipo; de textura capilar; de identificação; de conscientização e de pele. Numa sociedade na qual é negada à enorme porcentagem de negras e negros que constituem esse segmento populacional, exaltar com orgulho os vários tons de peles que compõem esse contingente afrodescendente é uma atitude de auto-afirmação.


Para parte das mulheres das peles pretas, marrons e beges, parte dessa exaltação inclui como se aprontam, e por que não dizer, se embelezam para se apresentarem ao mundo. Entre as vestimentas, penteados, acessórios, estão também os cosméticos enquanto elementos que não só apresentam essas mulheres aos olhos de outrem, mas que demarcam personalidades materializadas em estilo. A palavra cosmético deriva do grego cosmos, que significa colocar em ordem, organizar. Cosméticos, portanto, colocam a mulher em ordem segundo um padrão do que seria o visual de uma mulher “arrumada” para o mundo, o ocidental evidentemente.


O mercado de cosméticos voltados às peles das mulheres pretas no Brasil sempre foi muito restrito. Para esse segmento industrial, contemplar as mulheres pretas, até os dias de hoje, significa disponibilizar no mercado, entre as diversas linhas de maquiagem, um tipo de pó, pancake, ou base que considere uma única cor de pele preta. Por isso, citamos o clássico marrom, como se todas as mulheres pretas fossem de cor marrom.


Ainda assim, num curto período ou esses produtos não são mais produzidos, ou somem muito rápido das gôndolas o que demonstra que há um público interessado nele. Isso não quer dizer que essa indústria tenha grande interesse por embrenhar-se e lançar mais produtos voltados a esse público, atendendo essas consumidoras. Muitas vezes mulheres pretas deparam-se com o silêncio, nem vendedoras nem as próprias empresas conseguem responder aos questionamentos sobre o fato desses produtos não estarem mais disponíveis nas lojas, simplesmente desaparecem.


Atualmente, algumas marcas vêm atentando para essa diversidade de peles e de mulheres. Duas das mais interessantes são Quem Disse, Berenice? e Contém 1g. A primeira, pertence ao grupo O Boticário é foi lançada em 2012, ao que parece, pretendendo ser seu braço mais arrojado, jovem e acessível, enquanto que O Boticário permanece com produtos mais sofisticados e clássicos, inclusive com poucas opções de maquiagens para afrodescendentes. Quem Disse, Berenice? investe numa extensa gama de cores que vai do convencional ao mais ousado. Investe na diversidade de peles das brasileiras, oferecendo bases líquidas, corretivos e pós compactos com até 18 variedades de cores, da mulher com pele muito clara e rosada a de pele marrom escuro.


Já a Contém 1g, iniciou suas atividades em 1984, voltada ao mercado de vestuário e, em 1993, passou a dedicar-se também aos cosméticos. Há dois anos tem se rendido a esse filão das consumidoras afrodescendentes, e desenvolveu uma variedade de produtos voltados a essas consumidoras. Inclusive, uma modelo negra de pele escura é uma de suas garotas propagandas na atual campanha publicitária. São corretivos, bases, pós compactos dentre outros produtos para maquiar a pele elaborados para garantir às suas compradoras afrodescendentes um amplo leque de escolha.


O cenário de cosméticos para as mulheres pretas nem sempre foi assim com tantas opções de escolha. Observando que as duas marcas mencionadas passaram a contemplar esse segmento há poucos anos, destacamos aqui uma personagem, uma marca. Maria do Carmo Valério Nicolau, a Doutora Maria do Carmo, nascida em 16 de julho de 1932, em Brodósqui, interior de São Paulo, onde nasceu o pintor ítalo-brasileiro Candido Portinari (1903-1962), já havia percebido essa dificuldade e propôs-se a desenvolver as tintas, não para telas como o citado pintor, mas para colorir as faces das mulheres negras.


Professora, advogada, jornalista, escritora e empresária, interessada nessa não representatividade, lançou há 25 anos a marca Muene. Vaidosa, é comum esbarrar com Maria do Carmo na região central de São Paulo, próximo das Grandes Galerias. Marca de sua personalidade é a aparência sempre impecável composta por chapéus, vestidos e maquiagem impecável. Sempre que me encontra diz: “Ah, quer passar um batom? Deixe eu pegar aqui na bolsa”. Muene quer dizer excelência na língua quimbundo, do tronco banto, região central da África. Também é uma forma de tratamento a terceiros, chamando outrem de senhor ou senhora. Entretanto, para a marca, a palavra representa a excelência que deve ser dispensada no tratamento às mulheres pretas. Com esse foco a marca idealizou e desenvolveu uma extensa linha de produtos que abarcam batons, blushs, rímel, delineadores, pós compactos, sombras e pancakes. Maria do Carmo desfez-se de bens pessoais e investiu no diálogo com químicos que pudessem entender e atender às suas exigências para que os produtos Muene acolhessem as especificidades das diversas peles das afrodescendentes.


Apesar de ter atingido a maioridade, a expansão da marca se dá por meio da divulgação boca a boca: “Foi preciso trabalhar individualmente com os clientes para sanar o temor de alergias e problemas que produtos para raça branca causam na pele negra devido à quantidade de melanina. A recepção do meu público ainda é uma novidade das melhores, é excelente. Quando experimentam os produtos tornam-se clientes permanentes”.


Um dos produtos mais vendidos é o pancake que possui função tripla, a de corretivo, base e pó, produtos que geralmente são vendidos em embalagens separadas. Maria do Carmo identificou a oleosidade como uma característica comum nas peles pretas e, por isso, desenvolveu produtos que, em vez de cobrir totalmente a pele tapando os poros, são translúcidos e agem em camadas. A revista O Menelick 2º Ato propôs um desafio para a maquiadora Simone Souza. Com vasto currículo em maquiagens para editoriais de moda de revista, peças de teatro, filmagens, dentre outros trabalhos, uma de suas especializações são as peles pretas. Habituada a produtos internacionais para encontrar variados tons dessas peles, a convidamos juntamente com mais duas mulheres de expressão junto ao universo negro da cultura, para experimentar e dar seu parecer sobre esses produtos: a consulesa da França, jornalista e apresentadora Alexandra Baldeh Loras e a compositora e cantora de ritmos negros Tássia Reis.


Segundo Simone: “percebi muita praticidade no produto, tem uma ótima cobertura, e é fácil de aplicar, o mais legal é que o produto absorve o calor assim não é preciso retoque, além de ser a prova d’água, então mantém a pele com aspecto mais natural, sem precisar de retoque ao longo do dia, ou seja custo benefício super vantajoso pra quem busca praticidade e qualidade pra sua vida”.


Confira a maquiagem produzida por Simone Souza em Alexandra Baldeh e Tássia Reis. Produtos aprovadíssimos por uma expert no assunto! Vida longa à Muene e que surjam outras mulheres e homens que criem maquiagens-tintas para nossas faces-telas.





SAIBA + MUENE




RENATA FELINTO é doutoranda em Artes Visuais pelo Instituto de Artes/UNESP, mestre e bacharel pela mesma instituição. Atua como pesquisadora, artista plástica e educadora.

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Maria do Carmo Valério Nicolau
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Alexandra Baldeh
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Tássia Reis
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