GRADA KILOMBA: O RACISMO E O DEPÓSITO DE ALGO QUE A SOCIEDADE BRANCA NÃO QUER SER



TEXTO KAUÊ VIEIRA
FOTO DIVULGAÇÃO
JANEIRO 2017



Escritora, teórica e artista, Grada Kilomba tem uma destacada trajetória profissional debruçada no saber descolonial e nas relações entre gênero e raça. Professora da Universidade de Humboldt, na Alemanha, é uma mulher cosmopolita e em constante trânsito, fato que reflete diretamente em sua criação artística, tecida a partir de um olhar afrocentrado e de mulher negra, fundamentais para a luta contra as fronteiras e limitações de pensamentos. Nascida na capital portuguesa Lisboa e atualmente vivendo na vibrante Berlim, na Alemanha, Grada possui ainda origens familiares no continente africano, precisamente em Angola, São Tomé e Príncipe e Moçambique.


Em recente visita ao Brasil, a artista e escritora esteve, além de São Paulo, na atlântica Salvador, onde no Instituto Goethe local promoveu conversas públicas divididas cronologicamente em três momentos: Passado, Presente e Futuro, que apresentaram recortes de seus trabalhos e ainda algumas das obras que desenvolveu para a 32ª Bienal de São Paulo, onde exibiu os trabalhos The Disire Project (O Projeto do Desejo) e a performance Illusions (Ilusões).


“Eu acho que preciso desse espaço híbrido e cosmopolita em que temos muitas identidades diferentes, vivências. Isso é que me permite fazer meu trabalho. Eu tenho tantas nacionalidades dentro da minha biografia. São Tomé e Príncipe, Angola, de onde vem minha mãe e sua família; meu pai é português e minha irmã e meu irmão nasceram em Moçambique. Já eu nasci em Portugal e vivo na Alemanha, meu marido é da África do Sul, de Soweto, em Joanesburgo, o pai dele é Sutu, a família é Zulu,” conta Grada.


Pois é municiada desta multiplicidade de vozes e vivências que Grada Kilomba constrói sua obra e pensamento acerca das diferentes realidades vividas pelos negros diaspóricos e de África, subsídios suficientes para concluir que o racismo é uma problemática branca. Entretanto, a partir desta constatação é preciso refletir sobre o papel ocupado pelo negro. Trocando em miúdos, se o racismo é uma problemática branca, onde fica o negro nessa história toda?


“É uma pergunta interessante. O racismo é muito complexo e lida com uma série de alienações. E uma dessas alienações é exatamente a de que eu, enquanto pessoa e mulher negra posso ter meu dia a dia interrompido e ser forçada a lidar com uma questão que não me pertence a princípio. Sou forçada a lidar com uma série de fantasias e de fantasmas que não são os meus. O racismo nos usa como depósito de algo que a sociedade branca não quer ser. Algo que é projetado em mim e eu sou forçada neste mise en scene, nesta encenação, a ser a protagonista de um papel que não é meu e com o qual eu não me identifico”, explica.


Para Grada Kilomba, autora entre outros do livro Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism (Plantação de Memórias: Lidando com o Racismo Diário), a pessoa negra e seu corpo são usados como uma espécie de tela que projeta aquilo que o corpo branco e patriarcal masculino não é, especialmente se pensarmos em cidades litorâneas e predominante negras. Como é o caso de Salvador, por exemplo, que reservou o trabalho braçal e atinge com inúmeras agressões os corpos de homens e mulheres negras.


“A sexualidade, que é extremamente negada nessa sociedade é projetada nos outros corpos, pois se tornam sujos, obscenos, marginais, sexuais, perigosos, criminosos, agressivos e abusivos. Todas estas metáforas e fantasmas são projetados nestes corpos. Nós estamos como um depósito de tudo aquilo que a sociedade branca patriarcal não quer ser. Mas não somos. É um papel forçado que não nos cabe. É um papel de profunda alienação e que nós reconhecemos isso em muitos ismos diferentes, como no racismo e na homofobia,” pontua.


Como performer, Grada utiliza seu corpo negro como espaço de expressão artística do que significa ser uma mulher negra diaspórica em um mundo onde a existência do sujeito negro, em inúmeras vezes, é negada ou coibida violentamente. Neste sentido é necessário recorrer ao artigo escrito pelo Professor de Estudos Afrodiaspósricos da Universidade do Texas, João H. Vargas, que no livro Antinegritude: o Impossível Sujeito Negro na Formação Social Brasileira, analisa a situação e os eventos políticos do Brasil para afirmar a impossibilidade da existência do negro socialmente. “Pessoas negras estão fora de lugar em lugares de privilégio como os shoppings centers, mas elas também estão fora de lugar independente do lugar”.


Enquanto pensadora e ativista, Grada Kilomba acredita que não é permitido que homens e mulheres negras existam socialmente na grande parte dos espaços, entretanto a escritora afirma ser necessário criar uma agenda própria que rompa com o racismo estruturante.


“Eu acho que é uma questão muito profunda e quase abstrata. Nós existimos muito bem, mas não podemos existir plenamente em uma série de espaços. Contudo, acho que nós muitas vezes nos esquecemos de que nós existimos com grandeza nestes espaços, que não podem existir sem estas perguntas que vem com o feminismo, o queer, de todo o movimento negro, do pós-colonialismo e que nós, vindos das margens e com uma história de discriminação e de privação, questionamos as regras e as perspectivas. O centro não pode existir e sobreviver sem diálogo com a margem. Portanto é uma existência muitas vezes privada fisicamente, mas que intelectualmente e artisticamente é uma existência muito forte e muito empoderada, e às vezes não temos noção disso. Eu acho que temos que aprender a nos focarmos, pois muitas vezes estamos focados na agenda do outro e na agenda do outro não existimos de fato,” salienta.


No caminho de cura das inúmeras das feridas e violências sofridas ao longo do percurso, os negros diaspóricos se encontram muitas vezes em busca de uma África imaginada, romantizada. O continente negro é visto como uma espécie de mãe, que de braços abertos espera pelo retorno de seus filhos. De acordo com Grada Kilomba, isso se dá justamente pelo trauma causado pelo racismo que veio junto com a predatória colonização europeia. Mesmo compreendendo e acreditando ser um processo normal, a autora explica que é necessário se apegar no modernismo e no aspecto urbano e cosmopolita das diásporas africanas.


“Eu acho que é uma busca inconsciente, é uma resposta a um trauma colonial. O grande saudosismo a Mãe África tem a ver com uma história muito traumática que nós temos, por ser uma diáspora que vivenciou a escravatura e que foi comprada e vendida. Uma diáspora de segmentação, de separação, de isolamento”, conclui.


Cosmopolita, plural e diaspórica, Grada Kilomba chama a atenção para a necessidade de se pensar uma agenda que abarque todas as expressões artísticas e reivindicações de homens e mulheres negras, até mesmo como forma de combate ao racismo e principalmente de empoderamento, fundamental nesta empreitada. Aliás, para Grada empoderamento não é nada menos do que “a liberdade de ser eu, como os outros também podem ser eles”.

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