UM OLHAR PESSOAL SOBRE UMA TRAJETÓRIA COLETIVA


Por Eugênio Lima
MARÇO/2012



No dia 3 de fevereiro de 2004, o jovem dentista negro Flávio Ferreira Sant'Ana, então com 28 anos de idade, foi morto por seis policiais militares na zona norte da cidade de São Paulo. Confundido com ladrão, Flávio foi assassinado com dois tiros. Os policiais forjaram a cena do crime tentando encobrir o erro.


A partir deste fato, que dá nome ao grupo, a Frente 3 de Fevereiro iniciou seu trabalho acerca do racismo policial na cidade de São Paulo.


Desse ponto inicial até hoje são oito anos de existência. Oito anos de profunda imersão na dialética realidade das relações raciais da sociedade brasileira e suas interações com as diversas abordagens da diáspora negra ao redor do mundo.


Durante esse período, a Frente 3 de Fevereiro foi para mim, sem sombra de dúvida, o mais radical mergulho nas questões raciais, sociais e artísticas da nossa sociedade, que eu tive o prazer de participar. Foi uma trajetória de experienciação, debates, teorias, descobertas, rompimentos, música, intervenções urbanas, desdobramentos filosóficos, medo e euforia. Tudo isso dentro de um fazer radicalmente coletivo.


Costumo dizer que o fazer coletivo da Frente tem a sua raiz num radicalismo democrático, em que qualquer ideia, por mais simples que pareça, tem que ser exaustivamente debatida.


Um método de dissenso como forma de garantir maior pluralidade e, ao mesmo tempo, preservar a força das proposições coletivas (uma espécie de pêndulo, que oscila do micro para o macro e vice-versa). Nós assumimos a proposta do fazer coletivo como eixo central da nossa ação, e a ideia das intervenções urbanas como uma espécie de agente catalisador transdiciplinar, sempre extrapolando as fronteiras dos suportes artísticos (artes plásticas, vídeo, música, teatro), bem como a suposta divisão entre arte e política.


Deixamos de lado desde muito cedo a proposição de que precisaríamos de uma grande quantidade de pessoas para que as ações da frente tivessem visibilidade e relevância. Criávamos as intervenções pensando nos diversos impactos que poderiam ter e quais seriam suas possibilidades de difusão. O registro em áudio e vídeo era uma peça fundamental em nossa estratégia. Optamos pelas ações em conjunto com uma série de parcerias, que foram amplas, indo desde torcidas organizadas, coletivos artísticos, intelectuais, militantes, atores, atrizes, estudantes, sacerdotes de diferentes linhas espirituais, ONGs, movimentos sociais, institutos culturais nacionais e internacionais, editais públicos, artistas plásticos, músicos, Mc’s e poetas. A partir daí elaboramos nossa produção artística: debates, shows, workshops, exposições, vídeos, bandeiras em estádios de futebol e no alto do Edifício Prestes Maia (maior ocupação vertical de toda America Latina), criamos os espetáculos áudiovisuais Zona de Ação, Futebol, Esquinas de Mundo e Zumbi Somos Nós, além da elaboração da nossa primeira trilogia: O livro Cartografia para o Jovem Urbano, o filme Zumbi Somos Nós e o CD Diáspora Afronética.


Como assinatura, optamos pela coletiva, em que a criação e execução tinham para nós o mesmo valor, pois formamos diversos grupos dentro da Frente, que desdobravam as nossas pesquisas, sempre em conjunção com a nossa produção artística.


Os temas, ao longo do tempo, se interpenetraram: o racismo policial, a tipologia do suspeito, o racismo no futebol como metáfora da suposta democracia racial no Brasil, o racismo como aparato da sociedade de controle, o quarto de empregada (tradição escravocrata), a cartografia como forma de ação, arte e ativismo, a música como elo entre o passado e o presente (afro-samples), as esquinas de mundo, a arquitetura da exclusão. E no meio do processo, afirmamos: Zumbi Somos Nós!


Nos apresentamos em festivais e mostras de vídeo, teatro, artes plásticas e música. Fomos à África, à Europa, à América Latina e aos Estados Unidos.


Debatemos a nossa produção e o nosso pensamento com diversos coletivos artísticos e grupos de ação política de várias partes do mundo. Propusemos parcerias e construímos alianças.


Criamos nesses oito anos um sólido material, cuja maior parte está disponível no nosso site: www.frente3defevereiro.com.br.


Enfim, esses foram para mim anos de intenso aprendizado e de profunda admiração pela trajetória deste coletivo.


Desejo que os próximos anos sejam tão intensos quanto estes.


Brasil negro salve!



Dedicado à Frente 3 de Fevereiro.





Eugênio Lima é DJ, diretor, ator e membro fundador da Frente 3 de Fevereiro e do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.




MANIFESTO FRENTE TRÊS DE FEVEREIRO


Nós da frente Três de Fevereiro queremos, por meio deste manifesto, denunciar o profundo risco que toda a sociedade está correndo. No dia três de fevereiro, Flávio Ferreira Sant´Ana foi brutalmente assassinado pela polícia do Estado de São Paulo. Este crime horrendo não só demonstra a violência policial, como explicita a perigosa relação que existe entre a abordagem policial e o viés racista incutido na definição de quem é ou não suspeito. Tal prática evidencia também a falta de controle que a sociedade civil tem sobre aqueles que deveriam ser os agentes da sua segurança.


A chamada "abordagem com motivação racial" não passa de eufemismo para o racismo policial (91% dos jovens negros do Estado de São Paulo já foram abordados pela polícia - Datafolha 2004), pois sua verdadeira e cotidiana ação é o enquadramento do cidadão negro como o suspeito preferencial de qualquer atividade criminosa. Essa ação decorre de um pensamento anterior disseminado na formação sociocultural do povo brasileiro que abrange desde a raiz etimológica da palavra negro e suas significações negativas (indivíduo de raça negra, preto, sujo, encardido, muito triste, lúgubre, perverso, escravo - do Dicionário Aurélio) até os efeitos discriminatórios que este pensamento tem sobre o cotidiano da nossa sociedade.


A morte de Flávio demonstra a profunda cisão que existe entre os direitos individuais (garantidos na Constituição de 1988) e a realidade do dia a dia. Este caso mostra de maneira clara a real condição que vivemos, de fato não existe a chamada "democracia racial", apenas se camuflam as formas de discriminação racial. A sociedade, por sua vez, "terceiriza" a função discriminatória, criando a ilusão de que a população brasileira está isenta da prática do racismo. Essa terceirização está incrustada no seio da corporação policial, que ironicamente tem uma grande parcela de policiais negros em seu efetivo, o que evidencia a urgência da necessidade de mudança nos parâmetros sociais vigentes, onde o jovem negro é "confinado" (na sua grande maioria) ao papel de algoz (policial) ou réu (bandido), daí a não aceitação de qualquer outro papel social que não esteja contido nestes dois parâmetros.


Desta forma, o Brasil cria um dos mais cruéis e eficientes mecanismos de discriminação racial, posto que tal sistema exclui qualquer possibilidade de questionamento da existência do racismo na sociedade brasileira.


Por tudo isto, nós da Frente Três de Fevereiro, queremos romper com este silêncio velado, convocando a sociedade a se posicionar diante da urgência latente desta realidade denunciando o esquecimento que a justiça, o poder público e a grande mídia tentam imprimir à questão do racismo frente à cidadania.


Dos princípios fundamentais


Art. 3º:
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.


Art. 5º:
XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível sujeito à pena de reclusão nos termos da lei.



SAIBA MAIS

frente3defevereiro.com.br

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