FÁBIO ROGÉRIO

UM PEQUENO CAPÍTULO DA HISTÓRIA DO NEGRO E O RÁDIO EM SP



Por Nabor Jr.
DEZEMBRO/2011



OMENELICK2ATO - O que o rádio representa para você?
FÁBIO ROGÉRIO
- Pra mim representa muito, pois amo o que faço e procuro fazer tudo com muito empenho. Venho de família simples. Meu pai mal assina o nome, mas me ensinou a respeitar o próximo.


No rádio procuro não ser como as carpideiras (mulheres pagas pra chorar), quando entro no ar me sinto num clube onde tenho que ter técnica e técnicos. Minha linha de pensamento é “quem fala planta e quem ouve colhe”. Por isso, hoje minha responsa é enorme, não posso decepcionar ninguém, inclusive vocês da revista por serem pessoas que fazem parte da minha atmosfera.
Atualmente desde o tiozinho do carrinho de sorvete até o mais nobre executivo me tem como uma referência do bem e não do mal. Dou glória a Deus por isso.


Acredito que meu trabalho tem sustentabilidade (não apenas “não mate uma plantinha”), mas sim sustentabilidade social, que ajuda a esclarecer o próximo.


OM2ATO - Desde o início dos anos 90 (ainda no tempo das emissoras Alternativa e Nova Era) você vem se dedicando a implantar nas rádios de São Paulo uma programação musical que dialogue com o público negro e das periferias da cidade. Nesses 20 anos de caminhada, como você avalia a atuação das principais rádios de SP no que diz respeito a inserção dos negros e dos mais pobres na programação?
FR -
Desde minha adolescência coleciono vinis não só de Rap, mas de outros gêneros ligados a música negra . Venho de uma época de repressão as rádios comunitárias, lutei muito pra hoje ver o Congresso regulamentar as mesmas. Fui Preso pela Policia Federal e já tive problemas com o fato de querer me comunicar. Mas problemas servem para crescermos na vida.


Quanto a sua pergunta, vejo que grandes rádios até contemplam os ouvintes com Black Music. Atualmente de 87.5 a 107.9 eu ouço Seu Jorge, Marvin Gaye, Areta Franklin, Exaltasamba, Barry White, etc e etc. O que falta são mais programas específicos no dial, mas pra isso temos que, ou captar patrocinadores ou acreditar mais em nossos planos para assim incluirmos mais musica negra nas rádios que se simpatizam timidamente pela gente.


O que temos que entender é que na vida pra mostrar algo que a gente gosta e acredita não podemos chegar tarde, por isso não deixe de mostrar e provar a alguém que nosso som é espetacular.


OM2ATO - Você sabe me dizer o perfil do público da 105 FM?
FR -
O perfil do público da 105 é dinâmico e popular, o slogan da rádio é “105 é só alegria”. Na minha opinião, a audiência se deve a relacionamentos e vínculos que criam esse sentido de que o Rádio é fundamental na vidas pessoas.
A 105 hoje é interessante de se ouvir porque muitas pessoas entendem que quem escreve a história da rádio são elas. Pra emissora ouvinte é importante, pois eles hoje são a matéria prima do nosso amanhã. Sem eles nosso trabalho não agrega valor.


OM2ATO - Você tem conhecimento de outras rádios (analógicas) que possuem uma programação ou, pelo menos, alguns programas voltados ao público negro? Quais?
FR –
Ah, sei que existem irmãos e irmãs na luta pela causa espalhados pelo Brasil. Fico Feliz e peço que eles continuem perseverando e contem comigo no que for de meu alcance. Barack Obama foi eleito com ajuda da internet e isso hoje é uma realidade. A internet é a maior aventura tecnológica do mundo, por isso vamos nos aproximar e compartilhar pois o que pega agora é isso: compartilhar.


OM2ATO - O rádio surgiu no Brasil como uma proposta educacional. Posteriormente, a realidade de seus altos custos obrigaram que se recorresse à publicidade como fonte de receita. A 105 FM, como uma rádio comercial, também tem esta preocupação, porém, ao mesmo tempo, consegue veicular uma programação que podemos chamar de alternativa (o rap e o reggae são exemplos disso). Como equilibrar conceito e interesses comerciais?
FR -
Ainda é assim senão não existiriam as rádios educativas espalhadas pelo país. Mas referente a publicidade “a lei da economia não tolera e nem aceita o ato de receber sem dar”. Produtos tem verba de mídia e cabe aos publicitários e homens de marketing entenderem que anunciar em rádio é uma grande sacada.


Mas as rádios comerciais também tem uma função educacional, quando ouço frases de rap tipo “Condições de ocupar um cargo bom e tal talvez em uma multinacional“, do Racionais Mcs ou “Nos que Mulher sim, quer um dim também, quer ver tudo os neguinho lá vivendo bem só ae a luta vai alem quem pensa pequenininho tio vai morrer sem “ do Emicida, pra mim é altamente educacional.


Pra mim o rap é uma cultura internacional e se é underground ou não o que vale é a sinceridade. O Reggae também já não é tão underground. Ultimamente o Rohan Marley esta mais na revista Caras com a modelo Brasileira Isabeli do que qualquer filho de bom papai.


Cantor de rap tem que ter historia, se não não é cantor de Rap, é exibicionista. Negros e pessoas de baixa renda consomem rádio sim, agora cabe aos inventores mostrarem a nós que podemos consumir tal produto, mas pra isso precisamos mais de geração de oportunidades de que geração de emprego para enfim falarmos na tão sonhada geração de receita.


OM2ATO - Como explicar o fenômeno do programa espaço rap, líder de audiência na capital e Grande São Paulo?
FR -
Equilíbrio é fundamental para qualquer ideal ser próspero. Sei que em algumas situações podemos até ser incompreendidos, mas desde 1997 existe o programa Espaço Rap. O projeto começou com meia hora e o Nuno Mendes foi o primeiro apresentador.
A pergunta foi sobre como explicar um fenômeno? É difícil explicar o porquê de tanto prestígio.
Talvez o programa tenha essa longevidade devido a equipe não ser imediatista e saber conviver com os barulhos e os silêncios do Hip Hop.


OM2ATO - Porque a 105 FM está entre as rádios mais ouvidas do Estado de São Paulo?
FR -
O que define a 105 é o foco, a boa administração e não como nos intitulam. Na vida temos que saber nos posicionar e em alguns momentos sermos moderados.
Quando pensamos em tradição as vezes não podemos ser muito tradicionais pois com isso não nos abrimos pro novo . Outro dia, como Dj, fui tocar em uma casa e um cara me disse: “ué, você não é dj de black? não vai tocar de boné?”. Eu disse: “nossa quem vai tocar sou eu ou o boné?rs”, e começamos a rir. A música negra é universal, agora basta aos humanos serem generosos com ela pois só assim ela prosperará. Nosso som é som de águia, som de quem viaja e pensa alto. E quem é águia não caça moscas.


OM2ATO - Como você avalia a força do rádio (ou seja, o que ele representa, ou pode representar na vida das pessoas) como meio de comunicação, especialmente nas comunidades negras e mais pobres (público com o qual você fala)?
FR -
Avalio que temos que sempre fazer um bom trabalho, pois, uma vez a audiência perdida não se recupera mais. O rádio é fundamental na vida das pessoas que não querem ficar alienados a programetes de TV vazios e sem ética.


OM2ATO - A partir da década de 20 surge no meio musical brasileiro uma procura das raízes nacionais em contraposição aos valores europeus. Nesse contexto, a música negra obtém aceitação e destaque. A expansão do rádio colaborou para a difusão da música urbana, permitindo maior destaque para música de origem negra divulgada através do rádio. Dito isso, como você avalia a importância do rádio para a disseminação da música negra no Brasil?
FR -
Na real, como diz Jorge Bem: "O negro é lindo". E além disso tem veia artística desde gênesis. Antes dos anos 20 não podemos esquecer do primeiro samba tocado " Pelo telefone "que ate hoje é referência .


Fábio Rogério é Dj, locutor e apresentador dos programas Espaço Rap, Festa da 105, Fala meu dj 105 e repórter do programa balanço Rap com Ice Blue e Dj Kl jay ( Racionais mcs) e Dj Will.





SAIBA MAIS

fabiorogerio.com
radio105fm.com.br


PARA LER

Cor, profissão e mobilidade: O negro e o rádio
João Baptista Borges Pereira
Editora: EDUSP
2001 (segunda edição)



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