DAS MATRIZES GERADORAS À RECRIAÇÃO DO VIVIDO




TEXTO LUCIANE RAMOS SILVA
JULHO/ 2015




Motivada pelos legados civilizatórios africano-brasileiros, a obra Corpo e Ancestralidade - Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação (3ª Edição) propõe percepções múltiplas sobre os conhecimentos tradicionais e suas atualizações, anunciando uma proposta de dança-arte-educação profundamente articulada com as questões que inquietam o Brasil contemporâneo e que são desafios para a experiência de uma nação que se quer plural e democrática, mas que hierarquiza e folcloriza saberes.


Entrelaçando pesquisa e criação, o trabalho abre caminhos férteis para a construção de propostas educativas que valorizem as trajetórias pessoais e coletivas das gentes brasileiras. Apontando para o enfrentamento positivo de nossas histórias, diversas anatomias culturais e para memórias recriadas cotidianamente, Corpo e Ancestralidade mobiliza-nos a habitar nossos próprios corpos e acompanhar o movimento do mundo.


As discussões propostas elucidam os saberes estéticos presentes nas culturas de matrizes africanas – mananciais ricos em símbolos e intelectualidade - que tocam e ressoam na ciência da dança – área do conhecimento que move os indivíduos à consciência de si e das tramas sociais. Há que se catalisar gestos criadores!


Abordando o complexo universo dos tambores Batá a partir de uma trajetória de vida atenta para a importância dos eixos estruturantes, a cantora lírica, professora doutora, pesquisadora das tradições africano-brasileiras, na educação e nas artes performáticas no Departamento de Artes Corporais da Unicamp Inaicyra Falcão dos Santos sistematiza princípios relacionados ao movimento do corpo, reelabora universos simbólicos e míticos africanos e reinventa pontes entre o Brasil e as Áfricas. Em sua incursão nesse mundo Atlântico, alicerçada por passagens em instituições de referência como a Universidade de Ibadan na Nigéria e o Laban Centre for Movement and Dance, em Londres, a artista navega pelo pensamento de intelectuais de grande relevância para a construção do pensamento social e artístico, revelando que as culturas afro-brasileiras agregam em suas manifestações artísticas discursos filosóficos que nos permitem reinterpretar o tempo presente , impulsionando educadores e educandos para um processo ativo de construção de conhecimento, de valorização de seus percursos para o desenho de novas paisagens coreográficas. O universo da educação e principalmente do ensino superior em dança no Brasil, se de fato almeja desenvolver uma formação que olhe para o país tal qual ele é, precisa se aproximar de trabalhos como este, que concebem as matrizes africanas enquanto geradoras de conhecimentos universais.


A obra acende a discussão para as relações entre corpo e pluralidade cultural a partir de perspectivas arejadas, referenciando a tradição em sua natureza dinâmica e enfrentando o desafio histórico de emancipar o corpo social brasileiro, tornando-o ciente de suas heranças ancestrais vivas e capaz de, enquanto produtor de pensamento, desafiar a homogeneização cultural.


Com a legítima preocupação em associar dança e contextos sociais, o trabalho aprofunda reflexões sobre o poder do corpo criativo consciente para uma educação humanizada e transformadora, fertilizando a educação escolar e seus currículuns – ainda cativos em perspectivas eurocêntricas e utilitaristas.


Como artista e educadora percebo que o corpo plural que a autora anuncia é também político e, portanto, parte inseparável do processo de composição do sujeito – que abre espaços, equilibra forças, tenciona, resiste, projeta-se ao futuro enraizado nos aprendizados do passado, transforma ausência em presença, socializa aprendizados, ginga em constante negociação, recria os elos para pertencer a si e ao mundo.


Corpo e Ancestralidade segue atual e necessário. Esta terceira edição renova inspirações para uma Arte/Educação liberta de amarras colonizadoras, ciente de suas histórias e capaz de interpretar as contingências contemporâneas inscrevendo no espaço aberto e fluído a beleza.





PARA LER
Corpo e Ancestralidade - Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação
Inaicyra Falcão
Editora Terceira Margem
3ª Edição





LUCIANE RAMOS SILVA é Antropóloga, bailarina e mobilizadora cultural. Doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia pela UNICAMP. Bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua nas áreas de artes da cena, estudos africanos e educação.

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