EM RETRATOS
OS MOVIMENTOS DE UMA VIDA




TEXTO CHRISTIANE GOMES
FOTOS ERICK DINIZ E RAPHAEL POESIA
SETEMBRO/ 2015




*Texto originalmente publicado na edição zer016 da revista O Menelick 2º Ato.




Elas são jovens. São mais experientes. São militantes históricas das lutas sociais. Mas também guerreiras das batalhas diárias do cotidiano. Elas dançam. Cantam. Declamam poesias.  Vendem cocadas no farol e no metrô para sobreviver. Desenvolvem projetos sociais na quebrada e possuem intensas histórias de superação pessoal. Diversas e heterogêneas vivem todas em um mesmo território: o Capão Redondo, periferia da zona sul da cidade de São Paulo. Falamos aqui de 10 mulheres que tiveram suas trajetórias de vida contadas através de movimentos coreográficos, que inclui também a produção de documentários, no Projeto Retratos, idealizado pela Cia. Sansacroma, que há 12 anos desenvolve, no próprio bairro, um trabalho de pesquisa em dança contemporânea que está atento e comprometido com as questões que o contexto periférico do território, que conta com cerca de 270 mil moradores (segundo dados do Censo do IBGE de 2010) apresenta.


A ideia do projeto surgiu quando a Cia. colocava em curso seu projeto de AproximAÇÃO (escrito deste jeito mesmo) com o público, que consistia em visitas domiciliares aos moradores da comunidade do Capão Redondo. Estes encontros tinham como objetivo, como o próprio nome diz, estar mais perto das pessoas do bairro de maneira que elas se interessassem a assistir as apresentações realizadas na então sede do grupo, o Ninho Sansacroma. Porém, mais do que apenas fazer com que o público prestigiasse os espetáculos, o que por si só já seria um desafio, o projeto de AproximAÇÃO desejava criar vínculos efetivos e afetivos com os moradores do bairro.


Nestas visitas, como não poderia deixar de ser, uma gama de ricas histórias de vida, lutas, alegrias, tristezas e, acima de tudo, coragem de guerreiras e guerreiros cotidianos que ajudaram a construir o Capão Redondo. E nesta luta, em grande parte dos casos, quem tinha o protagonismo eram elas: as mulheres.


Neste mesmo período, final do ano de 2012, a Cia. comemorava uma década de existência e o Capão completava seu centenário. A criadora e diretora da Sansacroma, a atriz, bailarina e arte-educadora Gal Martins, conta que com a coincidência das efemérides veio o estalo: porque não comemorar tudo isso de forma conjunta, homenageando o bairro e a luta das guerreiras que ajudaram e seguem ajudando no dia a dia a construí-lo?  Mas como fazer isso? A reflexão entorno dos porquês da comunidade, tradicionalmente, não se interessar em assistir a espetáculos de dança contemporânea trouxe a sacada: “A gente precisa dançar na casa das pessoas”.


Trazer a dança contemporânea para o cotidiano da vida das pessoas é uma tentativa de preencher uma gigantesca lacuna que, já existente em espaços convencionais do centro, se aprofunda na periferia. Afinal este tipo de dança, muitas vezes não representa nada para seus moradores, que a tem como algo distante.


Mas para trazer este público, se aproximar dele, além da sacada de dançar na casa das pessoas, havia também uma vontade antiga de Gal de criar uma TV Online com conteúdos relacionados à dança contemporânea como mais uma ferramenta para divulgar e despertar o interesse da comunidade em conhecer e apreciar esta linguagem artística.


“Daí eu liguei tudo: mulher, 100 anos de Capão, 10 anos de Sansacroma, TV on line e pensei: vamos fazer um programa para a internet chamado Retratos homenageando as mulheres do Capão, onde um bailarino vai pesquisar a vida desta mulher, criar um vínculo com ela, gravar isso e colocar em um pequeno documentário. Vai ser incrível. Então, estruturei o projeto”, conta Gal.


A dificuldade com os recursos financeiros fez com que a ação se configurasse de outra forma, mas a essência se manteve: a pesquisa dos bailarinos do grupo com a história de vida de mulheres do bairro e o consequente processo de construção coreográfica com base nestas histórias; a apresentação do solo na casa ou ambiente de trabalho delas; e a produção de um documentário.


Começou então a busca de histórias de vida que representassem a força de tantas mulheres do Capão. A opção foi a busca de perfis diversificados. Havia, inclusive a vontade de ter neste elenco uma transexual. Mas Gal conta que uma das frustrações foi não ter tido sucesso nisso, já que a mulher trans, por conta de um conflito familiar, desistiu de participar do projeto.


O Projeto Retratos se construiu então com Neide Abate, de 55 anos, presidente da União Popular de Mulheres, que fez parte do histórico movimento Panela Vazia, formado por mulheres de operários que saíam do Capão para o centro para se manifestar contra as demissões e que até hoje segue na luta social. Veio também Anabela Gonçalves, 33 anos que possui uma intensa militância cultural desenvolvida na quebrada; Camila Brasil, 22 anos, uma jovem cantora; a Dona Edith, 72 anos que teve uma participação direta na formação artística de Gal desde os tempos da Casa de Cultura Popular do M´Boi Mirim (conhecido polo cultural também localizado na periferia da zona sul paulistana), que mesmo após a perda de sua visão se manteve firme e evolui a cada dia como artista; a Dona Sônia, de 59 anos, escolhida pelas visitas domiciliares do projeto de AproximAÇÃO. A Marinalva 52 anos, que vende cocada no metrô; Rosangela Alves, 34 anos, bailarina profissional que tem uma dificuldade de entrar no circuito da dança por conta de não se encaixar no padrão estético das grande companhias de dança clássica. Dona Maria José, que por opção, não teve filhos e que, aos 94 anos vive sozinha porque para ela isso é sinônimo de liberdade;  Dona Eda,  62 anos, que foi aluna de Paulo Freire e que hoje coordena o Cieja/Campo Limpo (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos), um importante polo de democratização do conhecimento e de mobilização e ação social; Neide Santos, 55 anos ex-atleta que teve marido e filho assassinados e transformou sua dor em um projeto de formação de atletas na comunidade.


Sobre o processo, Gal conta: “Geralmente iam as agentes de aproximação, o(a) bailarino(a) e eu. Era um primeiro momento de criar um vínculo. Conversávamos e depois o bailarino me contava o que estava pensando e eu tentava não interferir para deixar a criação fluir, mas dialogávamos e ele fazia algumas opções por momentos da vida da personagem. Depois a gente voltava e aí sim era para realizar a entrevista do vídeo, que às vezes coincidia de ser o dia em que o intérprete dançava o solo para ela. Este registro do momento de compartilhar a coreografia, mais a rotina delas que resultou no documentário. Em ambos os casos, o foco é a vida destas mulheres”.


A também bailarina, pedagoga e uma das coordenadoras do Projeto de AproximAÇÃO com o público, Ciça Coutinho, se emociona ao lembrar dos momentos das entrevistas.


“O fato delas abrirem suas vidas e nos dar o direito de acessar uma parte de suas trajetórias já é muito especial e importante. Foram momentos de troca e aprendizados e também de relembrar as nossas raízes. A maioria delas são mais velhas e isso remete a nossas mães, avós, a nossa ancestralidade. Não por acaso a maioria delas são mulheres negras. Tem esta identificação conosco de lugar de classe, raça e território”, destaca.


O Projeto Retratos não se encerrou com a apresentação dos solos coreográficos para as homenageadas. Os 10 documentários além de estarem disponíveis na internet já foram exibidos em mostras em distintos espaços da capital paulista em 2014. E neste ano de 2015, a perspectiva é promover mais sessões e colocar o material para andar. Para cada mostra são escolhidos de quatro a cinco documentários e após a exibição acontece uma conversa com a homenageada ou uma apresentação artística. “A identificação é algo que acontece muito nas exibições, marcadas sempre por muita emoção. Na última que fizemos na Fábrica de Cultura do Capão Redondo com um grupo de adolescentes, dois deles se emocionaram muito com a dona Edith, dizendo que ela tinha mudado a vida deles”, lembra Gal.


“A Mostra Retratos tem sido de extrema importância para o Capão Redondo, porque resgata uma memória ancestral que foi perdida. A Cia. Sansacroma tem deixado esta memória mais fresca nos corações dos moradores do bairro, uma quebrada amigável e acolhedora, que tem seus altos e baixos, e é belíssima em suas culturas, tribos, grupos e coletivos”, conta Dandara Gomes, nascida e criada no Capão e que também é uma das coordenadoras do projeto de AproximAÇÃO com o Público.


Em primeira mão, Gal Martins nos contou que, neste trabalho permeado pela construção de um vínculo afetivo e de preservação da memória, já existe a ideia de um Projeto Retratos 2. Desta vez com os Griôs (palavra usada na cultura africana para se referir aqueles que são os detentores das histórias e conhecimentos de um determinado povo) da cultura negra e popular, transcendendo as fronteiras territoriais do Capão Redondo para envolver outras regiões da cidade de São Paulo. Dois destes guardiões da cultural popular já foram definidos: Raquel Trindade (a Kambinda) e Sebastião Biano. “Quando a Dona Raquel vem nos visitar e começa a contar suas histórias, nossa vontade é de ouvi-la mais e mais, porque ela ainda tem muito a nos dizer. O Seu Sebastião, criador da Banda de Pífanos de Caruaru mora pertinho, ali no M´Boi Mirim. As pessoas não sabem o que estes dois significam para a cultura popular do Brasil. Elas têm um grande e incrível conhecimento que precisa ser compartilhado. E esta nossa necessidade de ouvir, de descobrir, foi o Projeto Retratos que trouxe”.


O projeto Retratos também trouxe para a Cia. Sansacroma, segundo Gal, a necessidade e a importância do diálogo e do encontro, fatores que fortalecem não apenas a relação com a comunidade, mas também a pesquisa estética e coreográfica da Cia.



DANÇO EU, DANÇA VOCÊ NA DANÇA DA INDIGNAÇÃO


A Cia. Sansacroma foi criada em 2002 com a proposta de descentralizar a difusão da dança contemporânea na cidade, levando-a para a periferia da zona sul de São Paulo. Em 2009, quando ganhou seu primeiro Fomento a Dança (edital da prefeitura de São Paulo que viabiliza recursos para grupos desenvolverem suas pesquisas e espetáculos) foi como se a Cia. tivesse conseguido, nas palavras de Gal Martins, um selo de qualidade. “Já falei isso muitas vezes, mas repito: esse carimbo parece que validou nosso trabalho. Mas não falo isso como sendo algo positivo porque a gente já estava há sete anos produzindo dança contemporânea na periferia, mas com o fomento foi como se, a partir disso a gente pudesse ocupar um espaço no Centro”. Ao dialogar mais com o circuito da dança contemporânea na cidade, Gal não encontrava pares, o que causava uma certa angústia. “Percebi que tinha mais referências no teatro do que na dança. E se não havia nada com que eu me identificasse, o caminho seria então criar uma linguagem”.


E foi estudando muita sociologia, filosofia e arte que a Dança da Indignação começou a ser construída há dois anos. Uma pesquisa corporal, estética e coreográfica que pretende comunicar a revolta diante às injustiças sociais, fazendo com que os movimentos também sejam atos políticos, integrando vida e arte. Nestes estudos do corpo surgiu a Tríade da Tensão: “peito e estômago (onde a gente sente a indignação), a cabeça (que a racionaliza), e a garganta (onde a gente expurga). Estudamos os movimentos destas regiões do corpo”.


Atualmente a Cia. Sansacroma é formada por um elenco de oito pessoas, entre intérpretes e interprétes experimentais, dançarinos jovens que, segundo Gal, com muito potencial, não encontram espaço para trabalhar com uma arte mais engajada politicamente. Além de Gal Martins, que acumula as funções de diretora geral e artística, a Cia. é formada por Ciça Coutinho, Djalma Moura, Verônica Santos, Mônica Teodosio, Monique Mendes, Lucas Lopes, Érico Santos, Lucas Bernardo (operador de som) e Dandara Gomes (assistente de produção).


Pela primeira vez desde a sua criação, a Sansacroma, se viu, a partir de 2014, com um elenco majoritariamente formado por mulheres negras. Ainda que, de acordo com Gal, as questões raciais relacionadas a cultura negra sempre estivessem presentes nos trabalhos da Cia. “Como isso nunca tinha acontecido (ter um elenco formado em sua maioria por mulheres negras) eu também não tinha ainda percebido mais claramente a necessidade de ter um elenco negro. Eu me sinto mais amparada, porque posso compartilhar as minhas angústias no trabalho. O machismo, as relações afetivas, a padronização da beleza, os processos de embranquecimento. Tudo isso vem forte nas nossas pesquisas da Dança da Indignação”.


O próximo passo na pesquisa estética e de linguagem da Sansacroma é pensar em formas de interferência do público em suas nas obras. As investigações do grupo alimentam alguns espetáculos que já estão em circulação, como o Outras Portas, Outras Pontes (2013), recentemente apresentado em terminais de ônibus de grande circulação em São Paulo e que já traz algumas movimentações da Tríade da Tensão.


Mas será com Sociedade dos Improdutivos, com previsão de estreia para o final deste ano, que a Sansacroma irá abordar a produtividade das pessoas portadoras de psicopatologias no sistema capitalista, que a Dança da Indignação virá com uma “linguagem mais escancarada na sua concepção estética”, segundo a diretora da Companhia.


“Estamos no processo de afirmar a nossa resistência. E nosso maior receio é de não conseguir mantê-la por causa do mercado da dança e seus estereótipos. Temos conseguido manter nossas ações por conta das políticas públicas, mas não sabemos até onde este mercado vai aceitar nossa opção artística e política. Às vezes temos medo de desistir desta resistência. Mas quando ouvimos as mulheres do Projeto Retratos, por exemplo, compartilhando suas trajetórias aguerridas de luta, a gente respira e pensa: ainda temos muito o que fazer”, profetiza Gal.


E nós, estaremos aqui para aplaudir!







REPERTORIO DA CIA.
Outras Portas, Outras Pontes (2013)
Fragmentos de um Choque (2011)
Angu de Pagu (2010)
Solano em Rascunhos (2008)
Imagens de Um Só-mano (2006)
Orfeu Dilacerado (2006)
Identifique-se (2005)
Solanidade (2005)
Negro Por Brasil (2002)


PARA ASSISTIR PROJETOS RETRATOS


SAIBA + CIA. SANSACROMA



VOZES DO CORPO
Desde de 2010 a Cia. Sansacroma organiza o Circuito Vozes do Corpo, que reúne diversas ações de fomento e democratização do acesso à dança contemporânea no extremo sul da cidade de São Paulo. O circuito envolve mostras de espetáculos, rodas de conversa e oficinas de formação com grupos e bailarinos de São Paulo e outros lugares do país. Em 2015, a atividade ganhou sua sexta edição com atividades espalhadas por diversos equipamentos culturais da cidade como as unidades do CEU e a rede SESC.







CHRISTIANE GOMES é jornalista, mestra em Comunicação e Cultura pela USP e coordenadora do corpo de dança do Bloco Afro lú Obá de Min.


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Dona Sônia (59), uma das protagonistas do Projeto Retratos, teve sua trajetória de vida contada em coreografias.
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Dona Maria José (94), também foi homenageada pelo Projeto Retratos.
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).
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Cena do espetáculo Outras Portas, Outras Pontes (2012).