A MESMA VERDADE, 125 ANOS DEPOIS


TEXTO NABOR JR.
JUNHO / 2013


Já se passaram 125 anos desde a abolição dos escravos no Brasil e ainda assim, um filme que se propõe a discutir a igualdade racial e o protagonismo negro no país, como o recém-lançado Raça (2013), dos premiados Joel Zito de Araújo e Megan Mylan (cineasta norte-americana vencedora do Oscar em 2009 pelo curta Smile Pink), é atual e se faz extremamente necessário. Isso porque, como os negros brasileiros bem sabem, a promulgação da lei que instituiu a pseudo-liberdade dos negros em terras tupiniquins, assinada em 1888 (assim como a grande maioria das políticas públicas que a precederam) ainda não foi capaz de, na prática, igualar a condição de negros e brancos na sociedade tupiniquim.


Este abismo racial, facilmente observado no cotidiano de quaisquer cidade brasileira (e refletido em aspectos como salários mais baixos, invisibilidade midiática, condições precárias de moradia, educação, e por aí vai) fica ainda mais nítido no histórico proposto por Raça: acompanhar por cinco anos a luta pela ampliação dos direitos raciais no Brasil em histórias protagonizadas por Paulo Paim (senador pelo PT – RS), Netinho de Paula (músico, apresentador e empresário) e Miúda dos Santos (quilombola), e seus respectivos esforços para aprovação do Estatuto da Igualdade Racial; consolidação do canal TV da Gente e a defesa pela posse de terras e pelo respeito às tradições da comunidade de Linharinho, no Espírito Santo.


Esteticamente, Raça pouco acrescenta a produção cinematográfica brasileira destinada ao gênero, tais como os ótimos A Negação do Brasil (2000) e Filhas do Vento (2004), do próprio Joel Zito, além de outros como Alma no Olho (1981) e Abolição (1987), de Zózimo Bulbul; Narciso Rap (2004) e Jonas, só mais um (2008), de Jeferson De, e Jennifer (2011), do jovem paulistano Renato Cândido.


Em seus poucos mais de 140 minutos de duração, Raça não faz questão de se desprender dos engessados conceitos estéticos que regem os preceitos de um documentário “padrão”, como tomadas diretas e enquadramentos pouco criativos, intercalação de cenas com ruídos de continuidade entre um personagem e outro, takes tecnicamente mal captados (excessivamente granulados especialmente nas gravações noturnas), cortes secos, trilhas sonoras pouco atrativas e personagens de pouco apelo popular estão presentes do começo ao final do filme.


A dupla Zito e Mylan, porém, compensa a pouca inspiração estética do filme explorando novos aspectos da luta contemporânea pela democracia racial no Brasil e, principalmente, por cumprirem com extrema eficiência a que talvez seja a mais importante característica de um documentário: o seu compromisso com a verdade, por mais dolorosa que ela seja.


Ela (a verdade) aparece no filme de diversas formas: no cada vez maior protagonismo e interesse negro em modificar os rumos da sua própria história; na pouco valorizada luta de brasileiros que trabalham em prol da coletividade negra no país; no desinteresse de boa parte da classe política nacional em construir uma democracia racial de fato e na força política das grandes empresas estrangeiras, só para citar alguns exemplos.


Mas talvez a grande verdade de Raça, leia-se aqui a principal reflexão que o filme propõe, é que o desfecho das batalhas pela inclusão do negro na sociedade brasileira, em sua grande maioria feitas pacificamente, ainda encontram barreiras culturais quase que intransponíveis.


O Estatuto da Igualdade Racial, depois de 10 anos de discussões, foi aprovado pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 2010, cheio de emendas e interesses escusos, a TV da Gente não decolou e nossas comunidades quilombolas (abandonadas pelo nosso Estado “democrático”) seguem travando uma luta desleal contra gigantes como a Aracruz Celulose pela posse de terra que lhes pertence por direito.


Nos três casos apresentados no documentário a conversa, a negociação, os papéis assinados, em fim, a passividade, não foram suficientes para o estabelecimento de melhorias no cotidiano do negro brasileiro.


Será essa “passividade” e o excesso de diálogo o grande empecilho para a prosperidade do negro no Brasil? Será que uma mudança real, conforme ocorreu nos EUA, por exemplo, com o sangrento processo do movimento pelos direitos civis dos negros, só se dará de maneira mais truculenta? Será que o rapper Mano Brow está certo ao sentenciar na letra da música Marighela que “não se faz revolução sem um fura na mão”?


São questões que o filme, indiretamente, levanta, e nos fazem refletir sobre como serão os próximos 125 anos para os negros brasileiros se as lutas em prol da igualdade racial continuarem dependendo de promessas, boa vontade política e de movimentos dispersos e com dificuldades de coesão.


Que o próximo documentário a cerca da igualdade racial no Brasil venha mostrar a verdade que a tempos os negros brasileiros esperam desfrutar: um final feliz, por mais doloroso que o processo para este “fim” possa ser.



RAÇA
Gênero: Documentário
Duração: 1h 44min
Direção: Joel Zito Araújo e Megan Mylan
Com: Paulo Paim, Netinho de Paula e Miúda dos Santos
Brasil, 2013


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