NEM TODO OURO É DOURADO

SIDNEY AMARAL, DESENHOS, PINTURAS E BRONZES


Por Alexandre Araujo Bispo
Fotos Central Galeria de Arte
MARÇO/2012



Fazer um texto, apesar de alguns acharem que é uma tarefa puramente mental, depende, ao contrário, de esforços bem manuais. É um exercício artesanal, mais transpiração que inspiração, como alguém já disse. A coisa intelectual que resulta do trabalho manual do texto depende da matéria com que se trabalha: barro, pedra, madeira, água, fogo. Cada um desses elementos resulta de uma ação que amassa, corta, umidifica, seca e transforma.


A matéria deste texto é a produção do artista plástico Sidney Amaral, que em 10 anos de pesquisas vem descortinando um mundo de formas e conceitos que o interessam e que ganham por meio de sua expressão visibilidade plástica. Reproduzo partes dos diálogos que tive com o artista por e-mail, para que você leitor possa entender como um texto surge, como é construído e o quanto são desafiadores. Ao final espero cumprir a tarefa que me impus: apresentar o artista unindo a sua biografia à suas obras.


Sidney Amaral nasceu na cidade de São Paulo, em 1973, e licenciou-se em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em 1998. A FAAP, aliás, gerou uma grande quantidade de artistas presentes no atual cenário da arte contemporânea nacional. Seu quadro de docentes também sempre contou com reconhecidos e premiados artistas, entre eles Nelson Leiner e Dora Longo Bahia, com os quais Amaral teve aulas. O fato de formar-se nesta instituição não lhe franqueou o pleno acesso ao sistema de arte contemporânea estabelecido. Esse sistema envolve o circuito de galerias de arte, feiras e instituições culturais, publicação de catálogos, comercialização de obras e rede de amizades. Neste são poucos os que conseguem manter-se apenas como artistas. Não raro, o trabalho com arte educação é uma fonte estruturadora de renda. Há artistas como Rosana Paulino, Renata Felinto, Janaína Barros, Mônica Nador, Beto Guilger, Osvaldo Piva, Danilo Pêra entre muitos outros que dão aulas e desenvolvem paralelamente seu trabalho plástico.


Amaral foi também aluno de Ana Maria Tavares, no Museu Brasileiro da Escultura (MUBE), estudou pintura acadêmica e fotografia, indícios importantes para entender sua obra que não se restringe a uma única técnica, mas nutre real interesse pelo realismo no desenho, pintura ou escultura. Em nossa segunda conversa ele respondeu:


Olá Alê, desculpe de novo a demora... tirei uma semana de folga de emails. Vamos lá!


Começa assim a resposta ao e-mail que lhe mandei dias antes do ano novo. Sidney participou em 2011 das exposições coletivas Nova Escultura Brasileira: Heranças e Diversidade, na Caixa Cultural Rio de Janeiro; Parahaus: Mostra de Arte Contemporânea, no Studio Maurizio Mancioli, em São Paulo; SP-ARTE - Galeria Mezanino, em São Paulo e do 17º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na Universidade da Amazônia, em Belém (PA). Isso mostra que seu trabalho tem ganhado visibilidade.


Descansar dos e-mails, mas também descansar do ano letivo, como professor de educação artística em duas escolas públicas do estado. O fim do ano, assim como o começo, nos faz repensar, rever e planejar novas estratégias para realizar projetos. No caso de um artista como Sidney que tem enfrentado suas dificuldades em difundir e viver do seu trabalho essa tarefa não é nada fácil. Ele tem conseguido, no entanto, produzir e mostrar parte de sua visão de mundo em salões, museus e galerias.


Eu o questiono sobre a diversidade de sua produção assentada em um gosto pela pintura acadêmica, cuja característica principal é o realismo das formas por meio de estratégias cromáticas, linhas, volumes e iluminação.


“Bom essa diversidade de linguagens vem de não querer me enquadrar em um único estilo ou tendência, mas de querer mostrar a metamorfose que podemos ser, gosto de pensar toda minha produção de modo híbrido, de vasos comunicantes, onde um parece outro, onde tudo se mistura com tudo, a proposta é criar um conflito onde as linguagens se bifurcam e se entrelaçam...”


O artista nos dá uma indicação sobre como vem trabalhando duro para ser um artista reconhecido pela qualidade estética e conceitual de suas obras. Ele nos diz que não quer prender-se a um estilo, isto é, não quer fazer apenas um tipo de obra, como, por exemplo, fragmentos de corpos humanos como é o caso da obra Desprezo. Trata-se de um dedo solitário que evoca tanto a relação e a interação amorosa, quanto à separação, o rompimento, à distância e, no limite, a falência dos contatos humanos. Esse dedo é, entre os outros quatro o indicador e, na medida em que não se prolonga em um corpo ele aponta para lugar nenhum e surge de lugar nenhum.


Quanto a seguir tendências, Sidney está interessado menos nos modismos do que na investigação sobre as tensões experimentadas nas relações interpessoais. A impossibilidade do diálogo, fenômeno paradoxal em uma época de avanço da democracia e da expansão dos meios de comunicação. “Somos algo em constante transformação, entre partes que se comunicam como o dedo cortado que se mantém preso a aliança, mas fragilizado, incapaz de agir, de indicar seu lugar na relação”. Em termos matéricos Sidney combina o mármore e o ouro, materiais com que o rococó, estilo ligado ao excesso de ornamentação decorativa, sobretudo na primeira metade do século 18, deixou sua marca na arquitetura ocidental acima de tudo como indício da opulência, da frivolidade da vida cortesã européia.


Será que Amaral consegue seu intento de criar um conflito pelo entrelaçamento de linguagens, isto é, o mármore e o ouro, o objeto cotidiano e sua contrapartida à sacralidade?


Podemos entender um pouco mais de seu trabalho destacando alguns dados biográficos ligados a exposições coletivas e individuais que ele participou. Como o espaço físico da revista nos impede de mostrar o currículo do artista na íntegra, chamo atenção para os anos de 2010, 2005 e 2001.


Em 2010, Sidney faz duas individuais: Sidney Amaral, na Pinacoteca de São Bernardo do Campo; e Work in Progress, Instalação no prédio Odete dos Santos, na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. Em 2008 esteve na Casa do Olhar Luís Sacilotto, em Santo André; e em 2001 foi contemplado na III Mostra do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo.
No decorrer de 2005 participa de várias exposições entre as quais a mostra sob curadoria de Emanoel Araújo: Para Nunca Esquecer, Negras Memórias, Memórias de Negros, no Museu Oscar Niemayer, em Curitiba. A partir de 2004 algumas de suas obras passam a compor o acervo do Museu Afro Brasil, em São Paulo.


“O grupo de esculturas que estão no afro (o artista se refere ao Museu Afro Brasil) faz parte de um período em que buscava uma obra mais limpa e sintética. Quanto ao uso do dourado, foi o modo que achei para falar de um espelhamento do sujeito e do sagrado - que nunca soube bem se era espiritual, sensual ou sexual, e que de certa forma sempre me remetia a uma falta (a boneca com o ventre vazio, os chinelos sem a pessoa, os objetos da montagem sem os montadores, os balões com suas correntes de motosserra que impedem o toque). Havia e há nesses trabalhos uma frustração e uma impossibilidade que me remete a história do rei Midas em que tudo o que ele tocava transformava-se em ouro, mas contraditoriamente também em tormento...”


Vale a pena destacar o sentido destas palavras usadas pelo artista para falar de sua obra, o que revela ser a arte contemporânea num território onde uma diversidade de assuntos podem ser abordados. Durante longo tempo, basta tomarmos o caso do Brasil colonial entre os séculos 16 e 18 como exemplo, a arte esteve obrigada a expressar o sagrado, sob o rígido domínio da Igreja Católica. Com a criação da Academia Imperial de Belas Artes, em 1816, e o consequente processo de distinção entre Estado e Igreja, o primeiro passou a ser cada vez mais representado com o intuito de contar episódios marcantes da história nacional.


A Academia ainda liberou os pintores para outros temas até então improváveis, no contexto português e brasileiro, como naturezas mortas, paisagens e a representação do nu feminino. Os temas religiosos deram lugar a outros temas que com o tempo, e segundo o modelo da academia, foram verdadeiramente sacralizados. Sidney assume não saber onde exatamente o sagrado se manifesta e decorre dessa confusão a sensação de desapontamento, pois ouro, brilho, polidez foram no ocidente cristão um símbolo de fé, espiritualidade e opressão. O artista não trabalha o ouro, mas com bronze - material que faz passar-se por tal - e nessa operação ele extrai todo o conteúdo coletivo do sagrado e diz que cabe ao sujeito individual tomar a decisão sobre o que para ele é o sagrado. A arte parece lhe devolver esse sentido e só por ela é possível encontrar um meio de diálogo ainda que frustrante, justamente porque mediado por novos objetos.


“Essa frustação aparece também em meus autorretratos como na tela Bem me quer, que chamo de relações delicadas no qual me represento na maioria das vezes em cinza (como disse Klimt "não sou particularmente interessante") onde procuro mostrar através da relação do meu personagem com os objetos apresentados, como a comunicação entre as pessoas é difícil mesmo entre aqueles que se amam (o vestido de noiva e as luvas de boxe), a condição de ser pai hoje (eu e a criança em uma cadeira-abismo), enfim são questões que estão mais ligadas ao espaço íntimo do lar. Me pergunto, como o lar pode também ser o espaço da não comunicação entre os que ali habitam?”.


Mas Sidney Amaral também questiona-se sobre o lugar social dos negros e afro-descendentes na sociedade brasileira, sem ser, porém, alguém que reclame de sua condição: artista, homem, negro, pai, marido e professor de duas escolas públicas. “A Calunga Grande faz referência tanto a um passado que foi atravessado pelo oceano quanto à nossa condição social, a vassoura como símbolo de um emprego menos qualificado os tênis afundados na água, enfim, se referem a estes desdobramentos da minha pessoa em outra e às vezes em mim mesmo”.


No fim do e-mail que me enviou, Sidney disse:


“Bom Ale, não sei se era isso que você queria saber. Vejo minha obra sempre como um espelho que ao ser olhado por muito tempo nos lembra dessas metamorfoses do mundo, do meu querer estar no mudo e encontrar este meu lugar... Sou um ser que estou deslocado todo o tempo!


Abs


S.


Seguem as fotos das obras que gosto mais entre 2000 e 2011




EXPO METAMORFOSE (SIDNEY AMARAL)

CENTRAL GALERIA DE ARTE
DE 1º A 24 DE MARÇO
AV. REBOUÇAS, 1545 - SÃO PAULO/ SP
+ INFO: www.centralgaleriadearte.com









Alexandre Bispo

Graduado em ciências sociais e mestrando em antropologia social, ambos pela USP, atua como educador em museus e em curadoria de exposições. Também pesquisa e escreve sobre artes visuais buscando entender as relações entre gênero, sexualidade e raça. Atualmente é pesquisador e educador do projeto Artistas Viajantes da Nossa Goma e membro do conselho editorial da revista O Menelick 2º Ato.

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