ASSENTAMENTO

EXPOSIÇÃO REFLETE EFERVECÊNCIA CULTURAL DE COLETIVOS PAULISTANOS FEMININOS QUE BUSCAM DISCUTIR AS CONDIÇÕES DA MULHER NEGRA NA SOCIEDADE BRASILEIRA E RESGATAR SEUS VÍNCULOS ANCESTRAIS


TEXTO NABOR JR.
NOVEMBRO/ 2013
FOTOS CELSO ANDRADE E ROSANA PAULINO


A mulher negra está definitivamente na pauta das discussões e reflexões de importantes grupos, artistas e intelectuais com forte ação sócio-cultural na cidade de São Paulo. Recentes lançamentos de produtos culturais que utilizam as mais variadas linguagens artísticas nos mostram esse interessante movimento, já perceptível, é verdade, as retinas de quem a algum tempo acompanha a cena e as movimentações de nomes como o do Bloco Afro Ilú Obá De Min, da artista plástica Renata Felinto, das escritoras Cidinha da Silva e Elizandra Souza, entre outras.


Depois dos lançamentos de Pretextos de Mulheres Negras (antologia de textos encabeçada pelo coletivo Mjiba e que reúne 22 escritoras negras contemporâneas que buscam, através da literatura, resgatar a ancestralidade negra feminina), do espetáculo Sangoma, da Cia. Capulanas (que discute temas relacionados à saúde das mulheres negras) e do documentário Tão Longe é Aqui!, da jornalista Eliza Capai, que registrou a realidade de mulheres das mais diferentes culturas e cores em viagem por países como Marrocos, Cabo Verde, Etiópia e Africa do Sul, agora chegou a vez das artes-plásticas discutir e refletir sobre as condições sócio-culturais da mulher negra na sociedade brasileira.


A partir desta quinta-feira (07), a artista plástica paulistana Rosana Paulino exibe a na ETEC Polivalente de Americana, interior de São Paulo, a mostra Assentamento, fruto de uma pesquisa realizada sobre a foto de uma mulher escravizada, registrada no Rio de Janeiro pelas lentes do fotógrafo italiano Theóphile Auguste Stahl (1828 – 1877), ainda no século XIX. “Estou, neste momento, muito interessada no que as africanas trouxeram para cá, o que ‘assentaram’ nesta terra. Além da fixação forçada a um ambiente estranho e, superando isto, nossas ascendentes assentaram por aqui cheiros, sabores, gostos, costumes, religião… e tudo sob o jugo da escravidão! Foram para lá de heroínas!”, afirma Paulino, explicando o objeto da exposição.


A mostra, viabilizada através do PROAC 2012 e fruto de uma parceria com o Museu de Arte Contemporânea de Americana e a ETEC Politécnica da cidade, fica em cartaz até o dia 7 de dezembro.


Ao lado, a fotografia de Auguste Stahl que deu origem a mostra, algumas imagens do processo de fabricação dos braços em cerâmica que fazem parte da exposição e, abaixo, publicamos a justificativa da autora para a realização do projeto.


ASSENTAMENTO
LOCAL ETEC POLIVALENTE DE AMERICANA
ENDEREÇO AV. NOSSA SENHORA DE FÁTIMA, 567, AMERICANA – SP
VISITAÇÃO ATÉ 7 DE DEZEMBRO DE 2013
DIAS E HORÁRIOS SEGUNDA A SEXTA-FEIRA DAS 9H ÀS 21H
SÁBADOS DAS 9H ÁS 12H
+ INFO ROSANA PAULINO



TEXTO: JUSTIFICATIVA PARA O PROJETO “ASSENTAMENTO”


Entre os anos de 1865 e 1866 o zoólogo suíço Louis Agassiz comandou uma expedição de cunho “científico” ao Brasil, a chamada Expedição Thayer. Sua intenção era provar a superioridade da etnia branca sobre as demais. São de Agassiz as seguintes palavras, no livro A Journey to Brazil (1867): “Aqueles que põem em dúvida os efeitos perniciosos da mistura de raça e são levados por falsa filantropia a romper todas as barreiras colocadas entre elas deveriam vir ao Brasil”.


Agassiz estava entre os grandes nomes da ciencia norteamericana do período. Professor da já então prestigiada Universidade de Harvard, era defensor do criacionismo, do poligenismo e também acreditava que a miscigenação entre seres humanos poderia causar a degeneração dos grupos étnicos envolvidos. Era opositor das teorias de Darwin que lançou, em 1859, seu famoso livro “A Origem das espécies”, dando aos jovens cientistas as bases que iriam invalidar as hipóteses defendidas por Agassiz.


A fim de provar suas teorias racistas, Agassiz encomendou ao fotográfo franco suiço Augusto Sthal, que então residia no Rio de Janeiro, uma série de imagens de africanos que aqui viviam. A ideia era retratar “tipos raciais puros” em fotos que variavam do “portrait” as fotografias de caráter científico, a saber, retratando estas pessoas, negros e negras, em três posições diferentes: de frente, de costas e de perfil. Esta suposta cientificidade acabou, paradoxalmente, por gerar registros fotográficos únicos da população escrava do então Rio de Janeiro. Estas imagens, já em domínio público, estão hoje na coleção do Peabody Museum of Ethmology and Arqueology, de Harvard e serão à base do projeto proposto.


Em oposição ao que tentava provar o que Agassiz conseguiu foi, de fato, documentar aqueles que ajudaram a fundamentar a cultura brasileira. Estes escravos e escravas, colocados ali sem a dignidade das roupas que sublinhavam a condição humana, foram, na realidade, peças fundamentais no assentamento de nossas bases culturais.


Ao propor uma instalação a partir da imagem de uma mulher desconhecida o trabalho irá enfocar questões como dignidade, diversidade e reconhecimento do capital cultural, artístico e religioso trazido pelas populações de origem africana.


As primeiras investigações relativas a este tema foram quatro litogravuras realizadas no Tamarind Institute, na Universidade do Novo México, em junho deste ano dentro de um projeto bilateral envolvendo artistas afrodescendentes do Brasil e dos EUA. Entretanto, cedo percebi que o potencial do trabalho não se esgotava na produção dessas obras gráficas, podendo, e devendo, ser expandido para novos meios visuais tais como a instalação, vídeos, textos, etc. Pretendo realizar vários assentamentos relativos às diferentes fases históricas ligadas ao tráfico negreiro. Este, sendo o primeiro da série, lidará com a travessia da Calunga Grande, como era chamado o oceano pelos povos de origem banto, e sua fixação em território brasileiro como elementos da cadeia extrativa/produtiva.


Assentar, como nos mostra o dicionário Aurélio, é também o ato de fixar-se ou de estabelecer residência em algum lugar. Transplantados à força, os africanos e africanas que aqui chegaram trouxeram seus saberes e práticas. Assentaram aqui sua força, seu axé. A última definição para assentamento encontrada no dicionário Aurélio diz respeito a:


“Bras. Rel. Ser, ou objeto onde assenta a energia sagrada de qualquer entidade religiosa afro-brasileira; assento”.


Assentaram, portanto, elementos que permearam nossa fala, nossa cozinha, nosso comportamento e, principalmente, boa parte de nossa religiosidade. O que este projeto pretende mostrar, através da execução da instalação, vai além da viagem de transposição feita por estas pessoas. A instalação, dividida em três partes, mostra o caminho percorrido (imagens em vídeo do mar), os braços que vieram para o trabalho e, principalmente, o assentamento das bases de uma nova e vibrante cultura. Ressignificando a imagem desta mulher em relação à função original exercida na foto de Stahl este corpo, agora simbólico, passa a funcionar como imagem de uma cultura mestiça, que tem uma de suas bases firmemente plantada em solo africano, raízes estas muitas vezes subvalorizadas em nossa cultura. Corpo dignificado, que passa a ser síntese e retrato da cultura brasileira, reconhecendo assim a contribuição que, ao contrário do que postulou Agassiz, não trouxe decadência e sim riqueza e vitalidade gerando uma cultura pulsante graças a heterogeneidade daqueles que a compõe.

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FOTOGRAFIA DE THEÓPHILE AUGUSTE STAHL PERTENCENTE AO PEABODY MUSEUM OF ETHMOLOGY AND ARQUEOLOGY (HARVARD)
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APLICAÇÃO DA PÁTINA FINAL
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MÃOS JÁ SECAS AGUARDANDO A PÁTINA FINAL
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PRIMEIRA PARTE DO MOLDE EM GESSO
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MÃO DE PARAFINA NA CAMA DE ARGILA
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GRUPO DE MÃOS EM PARAFINA UTILIZADO PARA FAZER O MOLDE DEFINITIVO EM GESSO