MEMÓRIA E RESISTÊNCIA NA ARTE CONTEMPORÂNEA AFROBRASILEIRA



Por Renata Felinto
FEVEREIRO/2011



A arte contemporânea brasileira recebe influências diversas e envereda por vários caminhos, sendo um dos observados a tendência a um grande recorte ou mesmo releitura de tudo o que já foi produzido em artes plásticas até hoje.


A pesquisadora Kátia Canton, explicita e contextualiza esta disposição às apropriações, citações e releituras apontadas por meio de uma pesquisa na qual mapeou 70 artistas brasileiros e identificou temáticas recorrentes como, por exemplo, a memória física e psíquica; identidade e anonimato; estranhamento e auto imagem. Algumas das temáticas citadas estão em consonância com a produção de artistas afrodescendentes contemporâneos como Edson Barrus, Eustáquio Neves e Rosana Paulino, que aproximam-se destes assuntos contemplando aspectos estéticos e tecendo reflexões sobre a trajetória e o lugar ocupado pela população negra.


Barrus, Neves e Paulino coincidem na temática norteada pelo fio antropológico, ancestral, negro, escravo e na opção por técnicas derivadas da linguagem fotográfica, porém, sobretudo, estabelecem relações entre suas heranças africanas e seu presente afrodescendente apresentando obras que não se limitam à menção da religiosidade afrobrasileira, ampliando, assim, a compreensão do que vem a ser a arte afrodescendente.


Edson Barrus é pernambucano, formado em Zootecnia e Mestre em História da Arte. Sob o título Base Central Cão Mulato, sua obra metaforiza e compara a qualidade de mulato à de um cão vira-lata, ambos resultados de cruzamentos.


Em sua instalação, Barrus simula o cruzamento dos DNAs de raças de cães previamente selecionadas, que se completa na Base Central Cão Mulato formada por vários equipamentos. O racismo praticado contra o mulato, que de forma contundente e agressiva é comparado a um vira-lata é o mote da obra. O quadro observado revela a inquietação: “o que são os mulatos dentro da sociedade brasileira?”. Inquietação que permeia o trabalho de Barrus, já que o mulato, de fato, não é branco e nem negro, é exatamente os dois, um tipo novo, que se reinventa, na visão categórica do artista, assim como um cão vira-lata.


O mineiro Eustáquio Neves é autodidata desde 1984, e abandonou a profissão de químico técnico para se dedicar integralmente à fotografia. Seus trabalhos são produtos de imagens fragmentadas que se reconstroem através do processo químico, pela superposição de negativos, dando origem a imagens duplas, até múltiplas, conferindo às mesmas aspecto antigo, espectral, que pode ser relacionada à memória, ao ancestral. Neves desvela, através das imagens da série Arturos, a condição de humanidade que séculos de escravidão tentaram subtrair aos descendentes dos africanos no Brasil. Os Arturos constituem um grupo familiar de negros que vivem em Contagem (MG). A manutenção da cultura negra e afro-religiosa recebida de seus ancestrais e materializada em festas é a sua principal característica. A origem da comunidade é o negro Arthur Camilo Silvério.


Com está série, Neves fez com que a tradição se revestisse de roupagem atual, despertando naqueles que tomam contato com a obra valores ancestrais estranhos à realidade pós-moderna. Quantos não são os afrodescendentes que não sabem a história de suas famílias? De seus ancestrais? Com Arturos, Eustáquio Neves recupera a narrativa de descendentes de africanos que se recriam e se relembram no seu simples modo de ser, viver e pertencer.


Rosana Paulino, paulistana formada em Artes Plásticas retira de suas vivências o seu assunto principal. No universo da sua intimidade, transmite e causa reflexões ao compartilhar o exercício de ser “mulher e negra” em um mundo moldado para o “homem e branco”. Na pequena série Sem título, na qual a artista usa como suporte bastidores de bordado com fotografias de mulheres de sua família transferidas para o tecido, evidencia a condição de mulheres que se sentem impotentes diante de uma sociedade que as menospreza, que ignora suas opiniões, seus anseios e sua estética. Todas essas privações foram exteriorizadas por Paulino através de um ato doméstico: costurar, coser. O inocente ato de costurar ou de bordar é transformado em agressão, coação, deformação. O que de belo resultaria da confecção das linhas coloridas de um bordado, manifesta-se como a impossibilidade de ser, ter e pertencer a todos os valores que estão agregados a este fazer: ter um marido, uma família, constituir um lar.


Suas mulheres são cerzidas, assim como algumas mulheres que sofrem a excisão, e por isso são privadas do prazer sexual, neste caso, privadas do prazer de viver com dignidade, com a consciência do próprio valor. Esse contra-senso, ou até “castração social”, é perceptível no cotidiano de mulheres negras abandonadas à própria sorte pelo companheiro, pelos serviços sociais, pela sociedade.


Barrus, Neves e Paulino tocam em feridas mal cicatrizadas que persistem no cotidiano do povo brasileiro e também resistem ao ambiente misterioso da arte contemporânea nacional.





PARA LER

Novíssima arte brasileira
Kátia Canton
Editora Iluminuras
São Paulo, 2001


PARA CLICAR

rosanapaulino.blogspot.com
museuafrobrasil.org.br


FRASE

As obras destes artistas caminham para além do aspecto formal, pois incomodam, comunicam e socializam certos saberes, demonstrando que eles estão na contramão da tendência da arte que cita a si própria e que, não raramente, gera produções ininteligíveis restringindo e afastando o grande público da apreciação da arte contemporânea”.







Renata Felinto é mestre em artes visuais pela UNESP, pesquisadora, artista plástica e educadora.


http://omenelick2ato.com/files/gimgs/144_eustaquio-site-2.jpg
EUSTÁQUIO NEVES
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/144_eustaquio-site-3.jpg
ROSANA PAULINO
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/144_eustaquio-site.jpg
EUSTÁQUIO NEVES
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/144_eustaquio-site-4.jpg
ROSANA PAULINO
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/144_eustaquio-site-1.jpg
EUSTÁQUIO NEVES