“VEJO” QUE “NUNCA FUI PICASSO”




TEXTO ALEXANDRE ARAÚJO BISPO
DEZEMBRO/2015




Criador do coletivo A Presença Negra, Peter de Brito, artista paulistano, vê no corpo humano um objeto de investigação plástica que percorre toda sua poética de jovem artista com formação em Educação Física, Biologia e Artes Visuais. A própria A Presença Negra enquanto ação coletiva que acontece no momento de aberturas de exposições de arte é um aspecto deste interesse, assumindo, contudo, uma forma híbrida entre arte e política. Esse ato de estar nos espaços expositivos públicos e privados revela como A Presença Negra objetiva chamar a atenção para as ausências de público e/ou artistas negros nesses lugares comuns de circulação da produção artística. A atuação do coletivo já extravasa o território exclusivo das artes visuais, servindo assim para engrossar o descontentamento com as ausências negras no ambiente cultural mais amplo.


O ambiente artístico nacional com todas as suas limitações de longa data parece estar também menos refratário a emergência de novos artistas plásticos, sejam eles mulheres ou negros. Sua presença indica que o sistema de referências culturais promove amplamente o homem branco como tipo ideal privilegiado, e isso não acontece apenas no campo artístico. Na última década surgiram novas galerias, entre as quais, Leme, Central Galeria de Arte, Mendes Wood, Emma Thomas, Mônica Filgueiras, Gabinete D Imagem, Galeria Rabieh – espaços que tem obras de autores negros, contudo não sejam especializados nesse segmento - agregando mais gente com formação escolar e potência poético-expressiva para abordar assuntos caros a vários artistas que elas representam. Tais espaços parecem apostar, ainda que de forma discreta, em artistas e trabalhos que interpelam problemas diretamente ligados às desigualdades estruturais, à crítica da história nacional, da vida política, das dificuldades do acesso aos bens de consumo e do mito da “democracia racial”. Crítica desta consistente lenda brasileira é a obra do artista Jaime Lauriano, que propõe um revisionismo histórico ao retomar repertórios visuais e mentais do passado para entender a condição atual das relações raciais no país e os efeitos na sua experiência social. Tanto uma obra sua, quanto do artista Sidney Amaral compõem hoje o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Tais aquisições atualizam o acervo desta instituição que na gestão de Emanuel Araújo (1992-2002) adquiriu, entre outras, obras de artistas afro-brasileiros, entre os quais Estevão Silva (1844-1891) e Rubem Valentim (1922-1991).


Outro fator positivo, nos quais artistas negros podem gozar de maior mobilidade, é a ampliação do acesso aos dispositivos móveis que permitem a um número cada vez maior de pessoas produzirem seus sons, fotografias e vídeos. Produzidos com relativa facilidade esses novos conteúdos entram cotidianamente na rede gerando audiências antes impensáveis. Para ficar apenas no campo específico da arte contemporânea vale a pena lembrar da série Aceita, fotoperformance do artista paulistano Moisés Patrício, também engajado nas ações de A Presença Negra. O artista tem seguidores nas plataformas Instagram e Facebook em diferentes lugares do mundo. A série que começou em meados de 2013 cresce de forma surpreendente gerando um acervo poético-visual que traz para o primeiro plano as sutilezas do racismo institucional brasileiro. Trata-se aí de olhar para os resíduos, os indícios e restos das relações sociais que podem deixar traços, fios soltos de tensões passadas que retornam para assombrarem o presente no plano do cotidiano.


OUTRAS AMPLIAÇÕES


No âmbito da música popular massificada o batidão (nome popular pelo qual é conhecido o estilo funk), fartamente conduzido por jovens cuja experiência social é negra, ainda que alguns sejam claros de pele, não apenas introduziu elementos musicais novos, como algumas letras captam e dão forma a novidade áudio-visual. A letra do funk de MC Bola Ela é Top (2013), revela a democratização dos meios tecnológicos em curso e ilustra bem o que quero chamar a atenção:


"Ela não anda/Ela desfila/ Ela é top/ Capa de Revista/ É a mais mais/Ela arrasa no look/ Tira foto no espelho pra postar no Facebook".


MC Bola usa uma terminologia até então específica do universo da moda para qualificar uma mulher comum: top model, categoria restrita aquelas modelos que atingem o topo e ganham muito. A palavra look também ligada a esse universo ganha difusão nos salões de cabeleireiros, aparece em programas de televisão que promovem a transformação do homem e mulher comuns, circula nos cursos de visagismo voltados aos profissionais da beleza. Adicionalmente a mulher à qual MC Bola faz referência não depende de uma mídia oficial para existir e promover sua imagem, como antes da revolução digital seria obrigatório, ela simplesmente pode tirar fotos e postar no Facebook. Nesta rede social cada pessoa tem sua autoimagem de capa que pode ser ou não uma imagem do seu rosto, e nos dispositivos móveis o autorretrato é algo recorrente ilustrando as telas de proteção. Outro termo que tem ampla circulação no funk é “recalque” constituído no campo da psicanálise e democratizado pelas cantoras de funk. Não poderia deixar de lembrar da palavra de origem banto “moleque” cujo uso se espraiou e aparece em letras de música e no tratamento entre colegas.


Para terminar essa breve digressão sobre novas imagens corporais e a geração de um poder midiático paralelo – vide MC Guime e Emicida especialmente porque se autogerenciam – queria indicar para a ampla aceitação de aparelhos ortodônticos, piercings e tatuagens que redefinem os corpos e as referências de beleza. Esses elementos materiais e simbólicos constituem um repertório erótico que joga com a sensualidade, caso de MC Nego do Borel. Elemento interditado no ambiente da moda oficial e de suas publicações, jamais veremos top models de aparelhos ortodônticos, contudo essa tecnologia seja central no clipe Menina Má (2014), na qual a top é a cantora e atriz Roberta Rodrigues, vocalista negra do grupo Melanina Carioca.


A beleza oficial de um certo circuito, caso ela falte para alguém, é ironizada na música Os Meninos é Feio Mas Tá na Moda (2013), de MC BranKim, que evoca inevitavelmente a música de Tati Quebra Barraco Sou Feia Mas To na Moda (2012), nome, aliás, do documentário de Denise Garcia sobre a mulherada da cena carioca do funk (2005).


É QUASE VERDADE


Em 2005, quando a internet e os celulares com câmeras ainda não tinham se popularizado tanto quanto agora, Peter de Brito criou a série Autorretratos composta de 25 revistas tamanho entre 25x30 cm. Delas só vemos as capas, e nestas diferentes pessoas, todas elas identificadas como Darcy Dias. Dias é tanto um corpo masculino quanto um corpo feminino que encarna valores comportamentais passíveis de serem comercializados na forma revista. Em certa capa na condição de “ela” promove-se a tranquilidade, noutra a elegância; pode ser ousadia, ou apontar contradições. Na capa de Boa Fôrma, é a mulher disciplinada sempre pronta a dar mais de si em prol de um corpo melhor, enquanto em Rassa é o artista nordestino, corpo bom tornado símbolo nacional; em Vejo é o astro que renova as esperanças na nação que confia no futebol, mas aposta pouco no próprio cinema; a sensualidade de Descarada destaca a travesti Darcy Dias como uma garotinha boba, tão a cara do Brasil que exporta travestis para a Europa. Para Peter de Brito, estamos num tempo em que podemos ser o que queremos. Isto tanto pode implicar intervenções cirúrgicas e próteses, ou cosméticos que clareiam a pele, alisamentos de cabelos progressivos, branqueamento dos dentes, etc.


Também a fotografia, dada sua difusão, nos fornece os retratos que queremos ver diariamente, muitos dos quais são autorretratos ou selfies. Imaginem fosse verdade existisse a revista de comportamento feminino Craúdia todos os meses trazendo conselhos sobre sexo antes ou depois dos 60 anos; sugerindo as tintas ideais para ocultar a perda de cor dos cabelos da juventude para uma mulher sem atrativos, “feia, mas na moda”; no especial destaca-se o triplo problema da passagem do tempo ligada ao envelhecimento: tristeza, decadência e sofrimento. O rosto jovem de Darcy Dias, seu sorriso levemente despretensioso e mulato encarando a câmera resultam a imagem de uma mulher de bem com a vida que sabe vestir a roupa certa/brega e fazer o gesto leve impossível para a maioria das velhas, mesmo as que foram lindas na juventude. Lembremos que Darcy Dias nesta publicação não é a leitora que mandou fotos para a redação da revista, mas a modelo reinando sozinha na capa, seduzindo sua audiência. Quem compraria Craúdia? Ela aparece, como outras personagens femininas criadas pelo artista, sem os longos cabelos, elemento dos mais importantes na construção da beleza feminina, normalmente explorado nas revistas de moda, como uma obrigação para quem de verdade quer ser uma mulher, mesmo para as negras.


Em franca oposição à Craúdia do ponto de vista da extratificação social, está Vogui Brasil, ambas trazendo para a escrita os vícios e hábitos da fala fartamente condenados a depender de quem fala, por jornalistas retrógrados preocupados com o controle normatizador do uso (o)culto da língua. O linguista Marcos Bagno mostrou em seu livro A Norma Oculta: Língua e Poder na Sociedade Brasileira (2003), como as críticas de jornalistas ao suposto analfabetismo de Luis Inácio Lula da Silva na realidade não passam de preconceitos linguísticos baseados em preconceitos sociais. Em Vogui Brasil Peter maqueia Darcy Dias com discrição e o chique aqui é seu retrato em PB contra um fundo cinza e letras vermelhas e brancas. Essas três cores foram amplamente usadas pela vanguarda russa do inicio do século 20 como indicações de uma paleta mínima, mas com alta potência comunicativa, isto é, política. Retrato frontal olhar firme, mãos enluvadas conformam a modelo como uma socialite, uma atriz de cinema, uma mulher mundana pronta para uma elegante festa noturna. Em Vogui aparecem três personagens, um dos quais já está na revista anterior. São eles a escritora paraibana Vitória Littlestone, Peter de Brito e Paulo Grande, figuras sobre as quais falaremos mais adiante, buscando na articulação entre texto (poesia visual) e imagem (fotografia) mostrar a inventividade do artista quando da criação de duplos de si. Peter reconhece nessa produção o interesse que lhe despertou os trabalhos de Cindy Sherman produzidos na década de 1970, e mais recentemente a obra do australiano Kent Monkman e sua drag queen pós-colonial Miss Chief.

 

Agora Darcy Dias aparece na capa da revista Doida Figurinos. A intenção é promover os enlouquecedores 900 vestidos de noiva, bouquets, brincos, colares e cabelos apostando no vestido branco, colo descoberto e luvas que dão a ela o tom chiquérrimo da Darcy de Vogui Brasil. Relativamente oculto neste retrato está o clareamento de pele conseguido com a maquiagem branqueadora. Juntamente com o tratamento digital tem-se a aparência aveludada e macia para garantir na mente visual da consumidora o desejo de ser agradável e equilibrada, especialmente no dia feliz do casamento. Instituição falida para alguns, mas cujo mercado só cresce, o casamento é uma demanda agora também dos casais gays.


Da primeira vez que expôs a série, um homem intrigado com Darcy Dias - a mulata da capa de Playbof - insistia com Peter que queria saber onde comprar a revista. Fazendo a mulata sensual e provocadora, mas sem o cabelão cobiçado por muitas mulheres do funk, do pagode, do sertanejo, das escolas de samba, do axé music que investem em apliques enormes, e homens que querem suas parceiras de cabelo longo a todo custo, a pose de Dias é um convite para ver o que tem dentro da revista, coisa que o leitor jamais fará já que ela não é senão uma capa sem consistência exibida sob displays de plástico transparente como numa banca de jornal. O corpo em evidência da mulata ressalta a dicotomia entre o ser e o parecer, ou o que parece e o que é. Esse par dicotômico atrai vários dos jovens artistas, entre os quais Renata Felinto, seja na série de pinturas AfroRetratos (2012) ou em performances como White face and Blond hair (2013); também Michele Mattiuzzi e sua Merci Beacoup Blanco (2013), na qual se pinta de branco e posteriormente se lava. O artista Paulo Nazareth quando monta o panfleto de um salão de beleza que pergunta de modo motivador: Qué ficar Bunito? (2010), caso a resposta seja sim, o panfleto oferece: “Alisa-se cabelo, clareia-se pele, afina-se nariz, encurta-se orelhas”... estratégias com as quais a/o Darcy Dias joga para constituir em maior ou menor grau o corpo-imagem positivo de si, que venda bem o sonho de parecer.


FOTOGRAFIA E MANIPULAÇÃO VISUAL: FALSO OU VERDADEIRO?


Por ocasião das eleições presidenciais de 2014, na qual duelaram partidos políticos na arena pública nacional, a grande mídia produziu verdades falsas com requintes de perversidade unindo imagens e textos para modelar a opinião do eleitorado, constituindo versões de “fatos” que apesar de terem se tornado verdades, não interromperam o processo democrático em curso. É próprio de uma democracia consistente o fomento da diversidade de opiniões, a proteção de minorias frágeis em relação ao valor das decisões tomadas pela maioria. A mídia apelou de tal modo que misturando ingredientes amplamente aceitos como expressões de verdade - fotografias e frases de efeito - referindo-se ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva e sua sucessora Dilma Roussef, criou por um lado alguma comoção nacional, por outro instigou a mídia independente democratizada pela internet a criticar a total falta de responsabilidade por parte de alguns veículos midiáticos oficiais e a criação de dados ficcionais vendidos, porém como a mais evidente realidade. Diziam: “Tudo o que você queria saber sobre o escândalo da Petrobrás: Dilma e Lula sabiam”. Afirmava a capa de uma revista que acreditou garantir com isso o resultado das eleições. A capa estrategicamente exibiu um híbrido monstruoso metade Dilma e metade Lula separados por uma faixa vertical de texto com destaque para a frase escrita em vermelho “Eles sabiam de tudo”. Segundo a presidente eleita a revista fez “terrorismo eleitoral” produzindo uma “falsa denúncia”.


A distância entre o falso e o verdadeiro tem uma longa história no campo da fotografia. Utilizada em circunstâncias variadas de construção da verdade, foi pela fotografia que os praticantes do espiritismo durante o século 19 tentariam provar a existência de espíritos do além que, segundo eles, só podiam ser captados pela câmera. Os amadores fotógrafos do movimento pictorialista criariam fotografias com aparência de pintura interferindo nos processos de revelação química, enquanto que os agentes coloniais dos grandes impérios ocidentais procuravam provar a inferioridade dos ditos povos primitivos fotografando-os em suas próprias terras, pondo em circulação os pitorescos retratos da inferioridade dos “outros” a serem consumidos nestes mesmos países. O Brasil teve importante participação nesse processo, na medida em que deu origem a uma mestiçagem sem igual, que sem controle condenaria o país ao fracasso, segundo teóricos racistas como Louis Agassiz (1803-1873) e Antoine de Gobineau (1816-1882), impossibilitando sua existência futura. Para que essa mestiçagem fosse positiva era preciso embranquecer a população, e a introdução do imigrante europeu foi fundamental nesse processo constituindo referência e modelo desejado.


É esse o modelo civilizatório que Peter ironiza em suas capas, fazendo-se figurar como Darcy Dias. Essa figura humana está na trilha para a o embranquecimento, é um híbrido, uma figura mulata rindo de Agassiz e Gobineau. O artista brinca com a dimensão da fama, com a fantasia em torno de um estilo de vida capaz de ser elevado a capa de revista, autorizada e exibida para consumo no espaço público. A/o unissex Darcy Dias torna-se uma casca vazia que incorpora oposições de gênero, mas também os corpos populares que estão fora das novelas, que não vendem sonhos.


“O maior cantor popular do Brasil”, informa uma frase sob o retrato do astro da capa de Rassa Brasil. O cantor exibe alguns dos símbolos que foram se tornando cada vez mais comuns entre grande quantidade de homens: brincos, ou entre estes e as mulheres as tatuagens. O ídolo que aproxima a nação por sua música alegre traja camisa branca com ares de festa de ano novo em Salvador ou Porto Seguro, esconde e revela partes do peito e da barriga malhada. Ele é referência de alegria, quase um símbolo da democracia racial.


Em Culta novamente o artista investe no retrato PB revigorando o estereótipo em torno da figura do artista genial, amplamente desconhecido, cuja obra passou despercebida, mas que um crítico de arte, Vitor Brito, reanima chamando a atenção para uma frase do artista: “Nunca fui Picasso”. O retrato remete ao passado e à estética dos filmes noir das décadas 1940-50, como se Darcy Dias já estivesse morto e sua obra agora começasse a ser valorizada. Ao contrário das outras capas essa tem uma densidade temporal, na medida em que se parece com uma imagem de arquivo. Distancia temporal que nos leva a olhar cuidadosamente para o tema da morte tratado na revista Morte Simples, para quem não quer viver, nela Peter retoma uma prática bastante comum em especial depois do século 18 de fazer a máscara mortuária de pessoas célebres, como presidentes e artistas. A capa traz orientações de: “Como se preparar para o pior”, ou de se conscientizar, já que a depressão vai chegar mais cedo ou mais tarde, e de como encontrar todo aquele stress que desejamos para nossas vidas já atribuladas. Se é verdade que a vida termina para todos, nem todos porém, atingem a importância de funcionarem como astros capazes de aumentar a moral de toda uma nação.


Na capa de Vejo lê-se: “O astro que vale por uma constelação”. Na chamada nota-se que o glorioso brasileiro Darcy Dias “seduziu o cinema americano e inaugurou uma nova era de otimismo e auto-estima entre nós” mesmo sendo um mulato de nariz largo. Se não nos dissesse que se trata de Darcy Dias poderíamos achar que fosse Pelé, um dos maiores astros negros do mundo, mas pouquíssimo solidário com as desigualdades que impactam diretamente a vida das populações negras no Brasil, como de resto ocorre também com Neymar e Ronaldinho, atletas que com seu brilho ofuscante e milionário tendem a ocultar sua condição de negros. Isolado no céu a face do astro é a figura de uma constelação e passa a dividir espaço com outras constelações: Ursa maior e Menor, Cão Maior e Cão Menor, Cassiopéia. Sua mulatisse, inicialmente negativa, porque geraria um tipo fraco, é ao contrário exaltada tornando-se algo cosmicamente reluzente e essa sua luz própria ilumina a nação, que tanto admira o que vem de fora, mesmo que tendo saído de dentro e voltado já empacotado para o consumo. Em contraste com o reconhecimento norte-americano do trabalho de Darcy, de seu esforço pessoal de self-made man na sessão “Política” ele informa: “Paulo Grande e a doce vida de vereador” indicativa da realidade política brasileira, onde os representantes do povo usam da posição para acumularem privilégios capturando recursos via Estado para benefícios próprios.


SOCIEDADE PLURAL


Em outubro de 1967 a revista Realidade, uma das publicações mais interessantes do período, levou para a capa a discussão sobre racismo em uma perspectiva comparativa mobilizando recursos visuais, que vistos com distanciamento histórico pretendem sugerir que nos EUA houve luta e dor, enquanto no Brasil aconteceu uma assimilação, dada fundamentalmente pela mistura racial. Para os EUA foto PB, fundo escuro que intensifica o aspecto dramático do retrato da mulher de olhos fechados, lágrimas e lábios grossos. Para o Brasil o retrato de uma mulher séria, claramente definida em relação ao fundo branco; ela tem cabelo alisado e encara o leitor. Na economia cromática da capa o marrom de sua pele é semelhante ao marrom usado no nome da revista. Tal estratégia sugere que a realidade do negro brasileiro é historicamente melhor que a dos EUA, de modo a repor a lenda da democracia racial. Ao contrário deles nós teríamos misturado, porque não teríamos preconceitos?


Com a ampliação do acesso a alguns benefícios da democracia a partir de 2003, e quase cinquenta anos depois desta capa vir a público, o tema do racismo é ainda polêmico, mas os debates que diferentes seguimentos da sociedade vem fazendo já não admite retrocessos. O debate Reflexões Em Torno da Arte (Afro) Brasileira Contemporânea, promovido pela revista O Menelick 2° Ato e realizado na galeria Emma Thomas no último mês de setembro, mediado pela artista, educadora e empresária negra Renata Felinto, com a presença de Peter de Brito, Jaime Lauriano e Rodrigo Bueno, aponta para este novo cenário. Lauriano, diz ser impossível para alguém cuja experiência social é negra abstrair seu próprio corpo na produção artística. Enquanto que Rodrigo Bueno assinala as ações de coletivos artísticos como os saraus na pressão para outras derivas democráticas.


A série Autorretratos de Peter de Brito é boa para pensar acerca da pluralidade étnico-racial do Brasil, na medida em que mostra ironicamente uma realidade – capas de revista - que só é de certa maneira possível pela ampliação democrática de acesso ao consumo de meios digitais de comunicação. É isso que permite que pessoas antes desconhecidas comecem a ter suas imagens circulando em diferentes grupos e segmentos sociais. É fato ainda que programas como Ídolos (TV Globo), Esquadrão da Moda (SBT) e A patroa é um avião (Rede TV), mas também Manos e Minas (TV Cultura) ampliam as possibilidades de entender as novas formas culturais pelas quais os corpos são apreendidos e a variedade de novas celebridades que surgem, substituem as anteriores e/ou somem de cena. Não se pode deixar de notar, que como Darcy Dias tem sua pele clareada por maquiagem ou tratamento digital, como se comprasse os serviços oferecidos no panfleto Quer ficar bunito?, de Paulo Nazareth, também no universo dos conteúdos de massa, entre as mulheres busca-se o clareamento de pele, os cabelos volumosos e longos, e preferencialmente lisos, quando não loiros. Nos clipes de funk, mesmo que muitas vezes o astro – MC Nego do Borel, MC Nego Blue entre outros, sejam pretos, não raro, eles estão rodeados por mulheres brancas. Brancas, lembre-mos, segundo o esquema cromático brasileiro.


Nas capas propostas por Peter de Brito outras pessoas aparecem, mas ocultas no miolo da revista. Qual sua fisionomia, a cor de sua pele, o estilo de cabelo para além do nome próprio? Vitoria e Vitor Littlestone (Pedra Pequena), Peter de Brito, Vitor Brito, Paulo Grande, Paula Vitória, Dr. Brito, Paulo de Brito, todos eles poderiam se tornar capas multiplicando os corpos, os comportamentos e atitudes, evadindo as zonas de conforto heteronormativo, ironizando estereótipos sexuais, de classe social ou de raça. Lembro aqui do ativismo físico-digital do educador/performer/ativista Ézio Rosa criador da comunidade Bicha Nagô, da artista Olyvia Bynum, do artista Marcos Felinto que introduzem descontinuidades em diálogo com um cenário mais democrático construído nos últimos 10 anos, capaz de suportar mais diferenças. Como diz Bicha Nagô: “A estética pela estética, é só mais um reflexo no espelho ou selfie no Instagram, mas a estética como política liberta e empodera”. Essa frase poderia estar na capa de Brabo, Culta e Vejo, ou figurar na boca de qualquer das personas criadas pelo inventivo Peter de Brito.





PARA SABER MAIS


Presenças: A performance negra como corpo político
Alexandre Araújo Bispo e Fabiana Lopes
Revista Harper’s Bazaar Art/ Abril de 2015
Disponível em: coletivoasa.dreamhosters.com


A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira
Marcos Bagno
Parábola Editorial, 2003.


Moisés Patrício e as potencialidades políticas do gesto criador
Alexandre Araújo Bispo
Revista O Menelick 2º Ato
Edição Zer015


Arte contemporânea no Brasil e as coisas que (não) existem
Fabiana Lopes
Revista O Menelick 2º Ato
Edição Zer015


Manifesto A Presença Negra
Revista O Menelick 2º Ato
Edição Zer015



PARA ASSISTIR


Racismo: Uma historia
Disponível em: ensinarhistoriajoelza.com.br



PARA CONHECER


Bicha Nagô







ALEXANDRE ARAÚJO BISPO é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutorando em Antropologia Social pela Universidade de Sao Paulo; Diretor da Divisão de Ação Cultural e Educativa do Centro Cultural São Paulo (CCSP); também atua como curador e crítico de arte.






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