APROPRIAÇÃO DE UM ESPAÇO




TEXTO ALEX HORNEST
FOTOS CLARISSA PIVETTA
JULHO/ 2015





*Texto originalmente publicado na edição zer016 da revista O Menelick 2º Ato.



Os locais onde eu pudesse me expressar (pintar) sempre existiram no bairro de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, local onde morei por toda a minha adolescência durante os anos 1990 e 2000, mas por alguma ironia do destino eu não os enxergava. Certamente por falta de imaginação, amadurecimento. Dentro de mim estavam enraizadas dúvidas e questões que me impediam de dar os primeiros passos em direção ao meu destino.


No começo da minha carreira (se posso dizer que tive um), pintar ou desenhar sempre pareceram as coisas mais naturais do mundo. Imaginar um dia pertencer ao mundo dos holofotes ou sonhar com minha arte ganhando o mundo nunca foi algo que passasse pela minha cabeça. Motivado por meus pais e, principalmente, por minha bisavó - Dona Laudelina da Silva - a subverter meus talentos, parte da minha adolescência e inúmeras experiências profissionais (inclusive alguns sub-empregos) foram de grande valia para que pudesse discernir o meu caráter e as coisas que realmente me interessavam, em meio a tantas possibilidades e meios proporcionados pelo inicio dessas décadas douradas.


Saber um pouco de tudo que estivesse ao meu alcance sempre foi algo muito mais atrativo do que tentar bater logo de frente com que almejava. O novo, o diferente e o inusitado se mostravam desafiadores e muito mais interessantes do que tudo o que os meus amigos me apresentavam. Me despertava grande interesse poder navegar na direção contraria das coisas relativamente fáceis.


Tudo que me diziam que era proibido ou além da minha capacidade se revelava extremamente fascinante e, de forma alguma, compactuava com o que o bairro (a quebrada) podia me oferecer naqueles tempos.


O centro da cidade me atraía em meio ao movimento diário. Prédios, praças, ruas, avenidas e vielas... Tudo era fascinante e logo o graffiti surgiu em minha vida como algo novo e diferente do que eu - em um primeiro momento - acreditei que seria capaz de fazer. Nessa época, exercia a profissão de office-boy e ao me deparar com o primeiro graffiti nas ruas do centro de Sao Paulo, algo mágico e forte despertou dentro de mim, atuando como um divisor de águas em minha vida. A partir daquele momento minha mente expandiu, observando no graffiti maneiras de aumentar as possibilidades de projeção daquilo que eu viria a exercer como um hobby e que hoje me traz inúmeros frutos profissionais. Ali deslumbrei a via que um dia poderia ser um dos meus maiores meios de expressão artística. Hoje também sou videomaker, editor independente, diretor e curador de arte.


Naquela época não consegui durar muito na profissão de office-boy. Fui subindo de cargos dentro da empresa por sempre me mostrar apto em exercer outras funções. Mesmo trabalhando de segunda a sexta e estudando à noite, arrumava tempo para as coisas que realmente me interessavam. Nos finais de semana procurava locais de interesse para frequentar e ainda encontrava tempo para realizar outras atividades - não só pintar ou desenhar - como praticar skateboard, fazer fanzines e frequentar salas de cinema que exibiam filmes alternativos - que eu particularmente adorava.


Considerava algo sagrado o aprimoramento de todas as minhas atividades. Esses eram meus locais de estudo. Me embrenhar em metalúrgicas, mecânica de motos, agências de propaganda, produtoras de vídeo, agências de turismo, escritórios, empresas de tecnologia e até mesmo nos Correios trabalhando como carteiro, me serviram como as faculdades que eu nunca fiz. Sempre optei por aprender colocando a mão na massa para depois saber sobre a teoria. Acredito que isso me rendeu alguns grandes frutos que hoje denomino como atalhos. Minha mente criativa e geniosa me impulsionava a se destacar em qualquer área, e logo percebi que com isso poderia encurtar qualquer caminho na direção do que realmente desejasse ser como profissional.


O elemento surpresa, o improviso e a arte incipiente que pode surgir em meio ao caos se tornaram ferramentas para mim, um jovem artista embalado por toda aquela atmosfera vinda dos anos 1990 e 2000, e me fizeram criar e pensar de forma diferente o como eu poderia ser e reagir perante a diversidade e as descobertas que viria ter.


Nunca deixei que minhas limitações se tornassem dificuldades para tudo aquilo que almejava. Estudando muito e mantendo a disciplina, logo percebi que essas atitudes me serviriam como mecanismos de superação. Se algo tinha que ser feito eu logo encontrava meios de executar e fazer da melhor forma possível para que minhas ações não passassem despercebidas.


Aprendi rápido que observar, ouvir e aprender era melhor do que tentar fazer tudo logo de cara, sem conhecimento e um prévio estudo/planejamento. Mesmo assim, manter esse tipo de postura foi bem difícil em um período onde tantas coisas incríveis estavam acontecendo em frente aos meus olhos de adolescente. Desejava fazer tudo!


Mas procurar não tirar conclusões apressadas sobre qualquer fato ou assunto que me chamavam atenção me deram fundamentos para poder pensar e criar meu próprio repertório sobre qualquer assunto. Isso também me ajudou na criação da minha própria identidade como artista. Com isso, percebi que a minha arte não poderia ter os mesmos moldes dos artistas que eu admirava na época.


O grande desafio para que eu pudesse me destacar entre os demais foi perceber onde minhas pinturas deveriam ser aplicadas. Esse seria o meu grande diferencial em meio a tantos talentos que também emergiam naquele mesmo momento.


Esse pensamento serviu como base para o meu aprimoramento e estava logo ali, ao meu lado, ao meu alcance, em todos os lugares que até então eu negava por ser "a periferia" onde eu morava.


No início não tive maturidade para perceber isso. O que foi ótimo já que minha percepção me guiava para caminhos opostos devido a tantas referências e influências que surgiam e que eu fazia questão de procurar.


Era uma época difícil tanto de aprendizado quanto financeiramente, meu bairro se mostrava como um local desinteressante, frio, e cheio de obstáculos impostos por quem ali morava, em contraponto a exuberância que sempre me pareceu ser o centro de São Paulo.


A periferia era meu lar mas não podia admitir que ali seria o meu palco. Imaginava que se eu permanecesse ali, aquele lugar se tornaria o meu túmulo. Nisso eu estava certo. Mas era apenas para aquele momento.


Tanto que, hoje, vejo que são nesses lugares que a minha arte realmente se destaca e se engrandece, me motivando a atuar cada vez mais nesses espaços.


Ao longo deste tempo (de pura atuação com meus graffitis) tomei consciência que meu trabalho não se destacava em meio a paisagem, e sim a complementava, passando a fazer parte do entorno. Isso era, e é, o que mais me agrada e me estimula a pintar: poder trazer algo novo para as precariedades arquitetônicas do improviso, impostas pela necessidade de sobrevivência dos habitantes das grandes cidades e das periferias.


Dessa forma, efetuar trabalhos sistematicamente em bairros afastados usufruindo da arquitetura se tornou o meu grande diferencial. Percebi que não era apenas o que eu deixava ali como arte ou como uma marca que faziam a diferença, e sim o como eu o realizava. Isso é o que "eleva" o meu trabalho e o possibilita a atingir outras formas de exibição/apreciação.


Nas periferias a minha arte se torna um descanso, um refúgio para os olhos fatigados de tanto agito, afazeres e informação por muitas vezes desnecessária que vem dos grandes centros. Hoje compreendo que o que faço é visto como uma porta de acesso rápido a uma arte publica e de qualidade.


Frequentar ambientes inóspitos ou lugares mais sofisticados aos meus olhos se tornam experiências mágicas, sem regras e sem compromissos perante a minha conduta. Acredito ter informação suficiente (mesmo aprendendo algo novo todos os dias) sobre quem realmente sou e do que me proponho a fazer como artista. Essa postura me permite apreciar e degustar qualquer tipo de atmosfera, visando sempre tirar o melhor proveito de tudo e de qualquer situação da qual possa me apropriar.


Confesso que no passado ignorei toda a cultura e os valores vindos das periferias por puro despreparo e insegurança. E isso me fez muito bem! Hoje aprecio e sei dar valor a tudo que surge desses incríveis lugares. Foi com muito treino que pude abrir meus olhos para o que antes me era oferecido e parecia ser de pouca valia. Isso me fortaleceu, me ajudou a ganhar o mundo, ir além dos meus conhecimentos e direto ao encontro de tudo aquilo que almejava mesmo que inconscientemente.


Se hoje tenho condições intelectuais para poder digerir com mais respeito, admiração e facilidade a diversidade que aflora das periferias é porque no passado nada disso me servia. Poder voltar as minhas origens e estar com os meus se torna muito mais gratificante e prazeroso, recebendo o apoio daqueles que enxergam em minha trajetória alguma forma de incentivo e de esperança para os que querem trilhar os mesmos caminhos.


Receber um elogio pelo trabalho que venho desenvolvendo me serve como uma das inúmeras recompensas que ganho diariamente. Poder inspirar outros que ainda vivem esse mesmo sonho me torna o artista que sempre acreditei que poderia ser.


Um dia, minha bisavó me disse que a arte, unida a educação e a disciplina poderiam mudar a minha vida ou a de qualquer pessoa que acreditasse nisso. Nunca duvidei...


E hoje tenho essa constatação, pois bons artistas trabalham para saciar seu próprio ego, sempre em busca do aprimoramento, com muito esforço, dedicação e paixão pelo que fazem. Enquanto que os maus apenas aproveitam os momentos sem se preocuparem se deixarão algum legado.


O ponto fundamental da minha carreira me veio a tona quando percebi que poderia realizar arte pública sem causar nenhum ônus para quem desejasse apreciá-la. Isso fez com que o meu trabalho tivesse coerência e continuidade para que eu pudesse estar sempre em busca de novos desafios.


Levar a minha arte para lugares que acredito ter algum sentido hoje se tornou o meu grande desafio após vencer minhas próprias batalhas. Estas que me obrigavam a acreditar que eu não me tornaria artista em um pais que não acredita na união e na educação de um povo como metas, como ponto-chave para o seu próprio desenvolvimento.


Felizmente muita coisa mudou desde então, e alguns valores que eram cultuados pela grande massa estão caindo aos poucos e isso ajuda (e muito) aos poucos aventureiros e sonhadores, assim como eu.









ALEX HORNEST é pintor, escultor e multimídia que vive e trabalha em São Paulo, cidade que o inspira e o faz refletir sobre temáticas urbanas, lúdicas e introspectivas.


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