JAIME LAURIANO: UMA CONVERSA COM UM REPRESENTANTE DO TÍMIDO REVISIONISMO DA HISTÓRIA DA ARTE DO BRASIL




TEXTO RENATA FELINTO
DEZEMBRO/ 2015




A História da Arte mundial precisa de um revisionismo. O historiador da Arte alemão Hans Belting e o filósofo estadunidense Arthur Danto (1924-2013), já apontavam para essa emergência nos anos de 1980 anunciando o fim da História da Arte como a conhecemos, ou seja, estudada a partir de movimentos ou escolas artísticas europeias; analisada por meio de metodologias que privilegiam os aspectos formais das obras; apontando biografias de produtores e os seus produtos sem aprofundamento contextual e nem inclusão da produção material e estética de muitos outros povos que constituem a humanidade. Produtos porque as obras de arte, ainda que exista uma resistência de alguns em aceitar a premissa, são resultados de um produzir e elas servem a um mercado de arte inserido num sistema de arte. Belting e Danto foram os primeiros a ver que o imperador estava nu, citando o conto infantil do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875). A História da Arte estava nua. Agora está se vestindo.


Dentre as peças que faltavam nesse vestuário do imperador, ou melhor, imperatriz História da Arte, estava a que contemplava a humanidade como um todo. A História da Arte mundial, geral, oficial ou hegemônica, desconsiderou parte do mundo ao ser escrita. O que estudamos e como estudamos, refere-se especialmente à uma História de artistas e de suas obras a partir de uma perspectiva européia e, mais recentemente estadunidense. O artista como produtor e o seu produto, diz respeito a homens brancos e de orientação heternormativa, determinando o que seria a Arte; quais as obras que devemos considerar relevantes; como estudá-las; quanto devem custar; como devemos vender; porque devemos cultuá-las. Grosso modo, esse é um resumo do sistema de arte e de seus mecanismos.


Muitos são os não contemplados nessa História da Arte. Para tocar num ponto fundamental que é o das antigas civilizações, mencionamos os antigos egípcios como povo de extrema importância, contudo, não raramente eles são clareados, branqueados ao serem retratados pelo cinema e mesmo telenovelas. O historiador e antropólogo senegalês Cheikh Anta Diop (1923-1986), dedicou parte de sua vida a pesquisar documentos que comprovam que o Antigo Egito era uma civilização composta por pessoas negras, tanto que o hieróglifo para a cor negra, preta, era o mesmo que simbolizava ser egípcio. Essa cultura é a base para tudo o que foi produzido nos séculos posteriores, visto que ela é a fundamento da cultura grega. Para trazer à baila mais um ponto o coletivo de mulheres estadunidenses Gorilla Girls, já assinalava nos anos de 1980, vejam bem, o mesmo período dos questionamentos de Belting e Danto, a exclusão das mulheres do sistema de arte. Entrávamos enquanto tema, principalmente enquanto nus artísticos, entretanto, raramente enquanto produtoras. Atrás de máscaras de gorilas e usando pseudônimos que homenageiam mulheres de relevância histórica, há quase 30 anos elas vem denunciando a discriminação das mulheres nesse sistema. Há outros pontos tão consideráveis quanto, sobretudo porque ainda não tratamos do problema da diáspora negra. E onde estão os negros e as negras enquanto produtores de Arte?


A Arte produzida por povos africanos, por exemplo, é mencionada na História da Arte ao se apresentar as vanguardas artísticas do início do século 20 com destaque para o movimento de nome Cubismo, liderado por de Pablo Picasso (1981-1973) e de Georges Braque (1882-1963). Eles não só se encantaram e se influenciaram por essas produções de povos autóctones do continente-mãe, como também, literalmente, plagiaram determinadas soluções formais. Cada vez mais pesquisadores negros, na contemporaneidade, têm se debruçado sobre as pesquisas da Arte produzida na África, tanto a chamada tradicional quanto a contemporânea, é o caso do filósofo Renato Araújo, pesquisador do Museu Afro Brasil, com uma pesquisa sobre jóias africanas que é de longa data.


Pensando numa produção de artistas negras e negros na diáspora que incorpora os valores estéticos e conceituais hegemônicos, temos uma série de iniciativas que podemos mencionar enquanto estratégias de um revisionismo histórico que visa incorporar essas produções em publicações, museus, centros culturais e outros espaços de memória e de difusão, fora e dentro do Brasil. Fora, destacamos nos Estados Unidos toda uma bibliografia voltada a contemplar esses produtores, bem como inúmeros museus e centros de cultura bem como especialistas cujas críticas e discursos estão alinhados ao hegemônico e, por vezes, são dissonantes no sentindo de um ativismo via estética. No Brasil, textos, poucos livros, catálogos, revistas, exposições, museus e institutos se prestam a esse papel timidamente a partir de 1980, e com maior ênfase já no século 21.


A artista e o artista afrodescendente do Brasil não mais vêm cheios de dedos ao tocar em assuntos que tratam de suas histórias enquanto segmento populacional a ser visto e revisto. Duas edições atrás, a curadora Fabiana Lopes e o antropólogo e curador Alexandre Araújo Bispo, escreveram na O Menelick 2º Ato sobre esse cenário atual no qual o discurso é direto: estamos falando de sociedade e sexismo, de relações e racismo e estamos falando com você que desvia o olhar!


Neste ano passei por importantes galerias da megalópole xenofóbica São Paulo para saber dos galeristas e seus curadores e diretores sobre o que pensam dessa produção recente de artistas afrodescendentes. Ao final de cada conversa, algumas marcadas e realizadas a partir de muita receptividade e empolgação diante do tema perscrutado, outras envoltas em um ambiente que combinava receio e curiosidade, perguntava se conheciam algum artista afrodescendente produzindo hoje cuja a produção apreciassem. Um nome é quase uma unanimidade: Jaime Lauriano.


Também nascido na década de 1980, o convidamos para desenvolver ou emprestar uma de suas obras à capa dessa edição. Interessado e interessante que é pelo tema, pela nossa guerreira revista, ele desenvolveu uma obra. Um de seus objetos é aquisição recente do acervo de um importante museu paulistano. Por isso, temos a certeza de que seu êxito não é uma aposta, entrou para a História da Arte, imperatriz que se veste de outras cores, roupas conceitos, adereços significados. Não fizemos um perfil, mas um “de cara”, “olhos nos olhos” junto a Lauriano, composto por questões diretas, dessas que muitos artistas se melindram a responder e estamos muito felizes com o resultado. Esperamos que vocês aproveitem!!!



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O MENELICK 2º ATO: QUAL É A SUA IDADE E LOCAL DE NASCIMENTO?
JAIME LAURIANO:
Eu tenho 30 anos e nasci na cidade de São Paulo.


OM2ATO: COMO VOCÊ COMEÇOU A SE INTERESSAR POR ARTE E QUAL É A SUA FORMAÇÃO CONSIDERANDO O MUNDO COMO PROFESSOR?
JM:
Eu comecei a me interessar por Arte, ao menos nessa concepção contemporânea de Arte, tardiamente. Quando eu era mais jovem, me interessava pensar o mundo através dos números. Talvez por influência de meu avô, que era mecânico e operador de bonde, ou então, por entender que a carreira de Exatas me proporcionaria uma entrada mais rápida no mercado de trabalho, e com isso eu começaria ajudar na complementação do orçamento familiar o mais rápido possível (meus pais se separaram quando eu era bem novo e a situação nunca foi fácil pra gente). Só sei que desde pequeno eu me dividia entre prestar Economia e Engenharia Elétrica no vestibular. Tanto que meus primeiros empregos formais, dos 16 aos 20 anos de idade, foram como auxiliar e técnico eletrônico em empresas de comunicação e informática.


Fui parar no campo das artes meio que por acaso. Meio decepcionado com o rumo que minha vida estava tomando, e depois de uma demissão bem conturbada resolvi procurar outros lugares de atuação e acabei parando em uma ONG que ministrava cursos extracurriculares para crianças e adolescentes na periferia de Barueri. Como, naquela época, eu morava do lado desta ONG e tinha uma vaga para professores que misturassem Artes Plásticas e tecnologia, comecei a dar aulas lá. Fiquei lá durante 1 ano, e foi muito conturbado todo o processo, pois não tinha nenhum domínio e nem fruição com Artes Plásticas, e muito menos com Pedagogia. Porém, me coloquei com desafio estudar mais afundo alguma dessas áreas. Como o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo estava com uma mega promoção para vagas remanescentes no seu vestibular, eu resolvi me inscrever no curso de Artes Visuais e ver se aquela área me interessava.


Entrei achando que não ia ficar muito tempo, e que no semestre seguinte prestaria Economia da USP, porém fiquei lá por mais de 5 anos (entre idas e vindas) e tive uma formação muito doida, que misturava aulas muito boas – e outras péssimas que nem valiam o dinheiro despendido –, com discussões insanas com colegas de variadas turmas. Ambos, professores e colegas de turma, são até hoje interlocutores muito presentes nas minhas produções, seja criticando o processo e apontando as inconsistências, seja participando diretamente na construção dos trabalhos.


OM2ATO: Quem são seus pais e o que há deles em seu trabalho de Arte?
JM:
Eu sou filho de mãe retirante do sertão de Minas Gerais, que viajou e trabalhou junto com sua mãe e seus oito irmãos por diversas cidades do Brasil, até se sediar em Osasco, cidade da Grande São Paulo. Meu pai é negro, descendente de africanos deportados e escravizados no Brasil. Tanto meu pai, quanto a minha mãe tiveram a sua formação, de caráter e social, dentro do contexto de lutas trabalhistas e por moradia. Minha mãe teve que largar os seus estudos quando cursava a quinta série do ensino fundamental.


Como eu mencionei na resposta anterior meus pais se separaram quando eu era bem novo. Para ser mais preciso quando eu tinha 5 anos de idade, por isso pouco me lembro da vida em família. As lembranças que tenho desse período são das várias idas ao hospital para cuidar dos sérios problemas respiratórios que me acompanharam durante a infância e adolescência inteira.


Mas voltando à sua pergunta, todos os meus trabalhos de Arte são influenciados pela personalidade e referências dos meus pais. Em maior ou menor escala, o que faço desde que comecei a trabalhar com Arte está intrinsecamente ligado à formação de caráter que tive na minha infância. Para contextualizar melhor, devo contar que quando meus pais se separaram, eu, minha mãe e minha irmã fomos morar em Osasco. A gente morava de favor na casa de uma tia minha e dividíamos dois pequenos cômodos. A gente ficou por lá uns 10 ou 12 anos. Nesta época a minha mãe se dividia entre diversos trabalhos informais para poder sustentar a nova configuração da família. Ela trabalhava pra caramba, mas as atividades que mais ficaram marcadas na minha memória foram a de vender Yakult de porta em porta e a de bordar vestidos de noiva de madame durante as noites e aos domingos. Eu lembro de ficar meio zangado de não poder brincar com ela (ela sempre estava cansada e com outras mil tarefas pra fazer), mas ao mesmo tempo “orgulhosão” dela me deixar organizar os paetês e as lantejoulas para os próximos bordados. Aquele trabalho manual e repetitivo, de toda a noite, nunca saiu da minha cabeça. Já com o meu pai as lembranças são dos passeios dados a cada 15 dias, pois eram os únicos dois dias que eu via ele. Na minha infância ele foi muito ausente, porém super importante porque me apresentou o Hip Hop, em especial as rimas dos MC’S e as batidas e samplers dos DJ’S. Ele era DJ na juventude e por isso guardava vários bons discos que a gente escutava de vez em quando. O momento mais emblemático dessa nossa relação foi quando escutei Racionais MC’S pela primeira vez. Foi o álbum Raio-X do Brasil, de 1993. Eu lembro que tinha uns nove anos e não entendi muito bem as letras, mas as batidas me deixaram maluco. Mais tarde entendi e senti todas aquelas letras na minha pele. Em cada enquadro que a gente tomava por estarmos sozinhos de carro indo de Osasco para o Alto de Pinheiros, visitar os meus avós no BNH*; em cada olhar de rabo de olho com passeava com a minha mãe (ela é branca); a cada comentário preconceituoso que a família da minha mãe fazia sobre meu pai e meus avós paternos; ao escutar as histórias de trabalho escravo que minha avó passou durante grande parte da vida dela.


Enfim, a cada momento de exclusão seja por preconceito racial (no caso do meu pai), seja por preconceito de classe (no caso da minha mãe) fui moldando a minha forma de enxergar o mundo. E hoje tudo isso está misturado no meu jeito de ler as Histórias do Brasil, e de apresentá-las de diferentes maneiras nos meus trabalhos.


OM2ATO: O QUE TE INFLUENCIA NO SEU PROCESSO CRIATIVO EM RELAÇÃO A ESSE MUNDO QUE NOS CIRCUNDA?
JM:
Eu diria que todas as proposições e projetos de trabalhos aos quais me submeto têm relação direta com o contexto que estou inserido. Seja as manifestações das culturas populares, seja aspectos das disputas politicas, ou até mesmo o comportamento dos sujeitos nos diversos arranjos sociais. Todos esses aspectos são chaves essenciais para as perguntas e indagações que faço sobre as Histórias do Brasil.


Além disso, toda a experiência corporal que passo diariamente, neste caso, e não somente, o racismo institucionalizado da sociedade brasileira, não consegue ficar descolado das minhas proposições. Por exemplo, ao investigar o racismo institucional da Policia Militar do Estado de São Paulo, estou buscando respostas, também, para as abordagens truculentas as quais sou submetido sistematicamente. Por isso, estes aspectos voltam em diversos trabalhos, seja indagando a sua relação direta com a escravidão, seja problematizando as suas relações com a disputa e configuração da terra brasileira. Ou seja, tudo que construo está diretamente ligado com a minha experiência corporal nas cidades que frequento ou vivo.


OM2ATO: HÁ CULTURA AFRO-DIASPÓRICA NO SEU TRABALHO? COMO? ONDE? QUANDO? POR QUÊ?
JM:
Sim, a cultura afro-diaspórica está presente nos meus trabalhos. E para ser mais preciso, ela pode ser encontrada com mais ênfase nas minha últimas exposições.


Mesmo que no começo da minha carreira a cultura afro-diásporica já esteja presente de alguma maneira, foi a partir da minha última exposição individual que resolvi assumir abertamente que os trabalhos que fiz e faço discutem questões sobre a Diáspora Africana. Seja fazendo análises dos genocídios e etnocídios de várias nações africanas – através da deportação de pessoas para trabalharem como escravos no Brasil, e da catequização católica –, seja analisando o racismo institucional enraizado (e muitas vezes escancarado) na sociedade brasileira; ou até mesmo reclamando para as nações africanas todo o protagonismo na criação das bases culturais do Brasil. Para dar um exemplo, estou preparando um documentário sobre as manifestações das religiões afro-brasileiras, em especial a Umbanda e o Candomblé, tendo como ênfase como o preconceito vivenciado pelos terreiros roças são frutos das perseguições sofridas pelos seus primeiros cultuadores, e como isso molda as maneiras de sociabilização desses espaços hoje em dia. Porém, mesmo fazendo essa análise mais geral, o que pretendo mostrar é que mesmo dentro deste preconceito existe gradações. Para ser mais especifico estou investigando tudo isso tendo como uma das perguntas centrais a música Vai Cuidar da Sua Vida do sambista paulistano Geraldo Filme, que canta em seus versos questionamentos sobre a apropriação cultural, o etnocídio, dentre outras coisas, como podemos perceber neste trecho da música “Negro falava de umbanda / Branco ficava cabreiro / Fica longe desse negro / Esse negro é feiticeiro. /Hoje o preto vai à missa / E chega sempre primeiro. / O branco vai pra macumba / Já é Babá de terreiro”. Enfim, me detenho a investigar como toda essa herança de violência é negada e negligenciada pela sociedade brasileira, e como tudo isso moldou e molda as possibilidades de sociabilização da comunidade negra hoje em dia.


OM2ATO: EM QUE MEDIDA É IMPORTANTE PARA VOCÊ QUE O JAIME LAURIANO, HOMEM NEGRO BRASILEIRO, APAREÇA EM SEU TRABALHO?
JM:
Com te disse na resposta anterior, foi a partir das minhas últimas exposições que as questões diaspóricas ficaram mais evidente. Por isso, foi a partir daí que senti uma maior necessidade de me colocar presente nos trabalhos e discussões por eles levantadas. Digo isso, porque acho importante, e não só para mim ou para as questões da herança da diáspora, que os autores se coloquem mais nos trabalhos que agenciam temas políticos e sociais. Para ser mais preciso, acho totalmente relevante que o público saiba que o autor está intrinsicamente e corporalmente ligado com as questões por ele levantadas. Por exemplo, seria muito estranho se eu começasse a falar de como o meu corpo sente o machismo sistêmico e diário, de como é cruel sair todos os dias para trabalhar ou se divertir e sofrer assédios dos mais variados. Eu não poderia fazer isso, porque eu não sou mulher e não tenho essa experiência corporal. A mesma coisa acontece com as questões dos negros na sociedade brasileira. Quem não sente as dificuldades e problemas de ser segregado diariamente, não pode falar dessa experiência corporal. No máximo pode comentar a partir do seu lugar de privilégio, ou organizar um lugar de fala para que essas experiências emerjam. Aliás, talvez seja esse o grande problema das reflexões sobre o racismo, poucos são os que reconhecem o seu lugar de privilégio e querem a partir disso compartilhar o seu lugar de fala. E aqui devo me incluir, pois o racismo que eu sofro diariamente se modificou com o passar dos anos. Deixou de ser a iminente ameaça de não saber se voltaria para casa vivo, para se transformar na segregação e dificuldade de penetrar em determinados espaços sociais.


Por isso tudo, que resolvi falar mais abertamente disso e com isso construir um outro lugar de fala. Um lugar que muita vezes é dissonante ou contraditório, mas que busca trazer sempre ao seu lado a responsabilidade de falar da herança africana. Pois, se eu cheguei até onde estou hoje foi por conta de muita luta e morte de diversos irmãos, que sacrificaram as suas vidas para que conseguíssemos ter esse mínimo de liberdade de continuar existindo nesse país tão desigual. Essa responsabilidade me acompanha em cada gesto e trabalho que apresento. As vezes não consigo, mas sempre tento trazer comigo todas as pessoas e histórias que estão inscritas na minha ou na sua pele.


OM2ATO: COMO TÊM SIDO PARA VOCÊ ESTES ÚLTIMOS ANOS NOS QUAIS SEU TRABALHO VEM GANHANDO VISIBILIDADE PARA DIRETORES DE MUSEUS E DE GALERIAS?
JM:
Tudo isso ainda é muito novo pra mim, e por isso não consegui avaliar muito bem o real impacto disso na minha produção. O que consegui sentir foi um aumento dos meus lugares de fala, e com isso um aumento das possibilidades de discursar sobre temas importantes.


Esse interesse é repentino e fez aumentar o meu ritmo de trabalho, o que em certa maneira diminui um pouco os momentos que tinha para refletir sobre os efeitos reais das minhas proposições. Pretendo tirar alguns poucos meses recluso no ano que vem, para reestruturar algumas coisas e também para retornar para trabalhos com mais ação direta na sociedade. Enfim, não consigo ainda te responder essa pergunta com muita precisão. Me desculpe.


OM2ATO: O QUANTO É IMPORTANTE PARA VOCÊ QUE SEU TRABALHO CHEGUE AO FRUIDOR NÃO ESPECIALIZADO, O QUE NÃO POSSUI O HÁBITO DE FREQÜENTAR ESPAÇOS RELEGADOS À MANUTENÇÃO DO SISTEMA DA ARTE?
JM:
Esse ponto é fundamental para a minha produção, pois tive os meus primeiros passos, dentro do sistema da Arte, trabalhando junto com um coletivo de Arte. Este coletivo era o EIA (Experiência Imersiva Ambiental), e nós organizávamos um festival de Arte urbana com trabalhos em performance, em intervenção, ações, etc. espalhados por diversos cantos de São Paulo. Era um processo muito intenso de construções de plataformas para esses trabalhos acontecerem. Eu era mais novo nessa época, tinha 21 anos e estava começando a entender a ampliação da noção de Arte contemporânea. Tudo era muito novo para mim, e por isso não conseguia assimilar muito bem as coisas. Cometi muitos erros e vacilei em diversos momentos, mas toda essa experiência me trouxe a real importância da ampliação de público para os trabalhos de Arte.


Com o passar dos anos e com o meu afastamento do coletivo, foi ficando um pouco mais difícil a minha atuação no espaço urbano, mas a inquietação de ampliar o acesso sempre permaneceu presente. Muita vezes eu não consigo realmente (ou fisicamente) ampliar este acesso, seja por compromissos com exposições já agendadas, seja pela correria da vida cotidiana. Porém, acredito que não é somente com o trabalho físico de Arte, ou melhor com o objeto palpável, que transmito as minhas proposições. Por exemplo, acho que as entrevistas que concedi esse ano, inclusive está que estamos fazendo agora, são espaços em que meu trabalho acontece. Mas também tento outras estratégias, como participar de exposições que não ocorrem em espaços destinados a Arte contemporânea, também faço alguns trabalhos para a web. Enfim, várias tentativas de manter vivo o trabalho para além do momento de fazer e mostrar.


OM2ATO: FALE UM POUCO SOBRE O CORRIQUEIRO, O COTIDIANO, O POPULAR QUE SE FAZ PRESENTE EM ALGUNS DE SEUS TRABALHOS?
JM:
Não gosto muito do termo popular, mas entendo a utilização dele como contraponto a um hermetismo intelectual que assola muitos dos trabalhos de Arte contemporânea.


Eu escolhi me aproximar, ou melhor reaproximar de uma produção mais popular porque entendo que assim consigo deixar o meu trabalho um pouco mais didático. Cada vez mais fui sentindo a necessidade de narrar as Histórias do Brasil, e com o aprofundamento da pesquisa fui entendo que o melhor jeito seria suavizar o hermetismo, muitas vezes prolixo, da Arte contemporânea. Junto a isso tem todo o contato de infância com as cantigas de roda do sertão de Minas Gerais, as festas juninas nas casas dos meus tios, o gosto pela pratica do futebol. Todos esses fatores contribuíram para a escolha de aproximar a contação das Histórias do Brasil com as estratégias da Arte popular brasileira. Seria como uma espécie de pragmatismo didático.


OM2ATO: O QUE VOCÊ QUER COM ELA, COM A ARTE?
JM:
Como comecei tardiamente a me interessar por Arte, eu não sabia direito como eu poderia me articular dentro desse campo. Porém, com o passar do tempo e com as experiências acumuladas pude perceber em que locais queria trabalhar e como agenciar as minhas vontades e vivências. Hoje em dia tenho a plena consciência que a Arte se transformou em um dos lugares que pretendo expressar os meus anseios, angústias e provocações a respeito da escrita torta das Histórias do Brasil.


Por isso, o que pretendo com a Arte é o mesmo que pretendo com todos os outros lados da minha existência: problematizar e tencionar os aparelhos de poder e controle do Estado, porém, a partir das ações coletivizadas. Ou seja, levar meus variados trabalhos para interagir com outras proposições que queiram bagunçar e reconstruir os pilares da sociedade brasileira.


OM2ATO: DISCORRA SOBRE A OBRA PRODUZIDA PARA A CAPA DA REVISTA E OS MOTIVOS QUE O LEVARAM A PRODUZIR TAL TRABALHO?
JM:
Primeiramente eu gostaria de agradecer a oportunidade que vocês me deram. Fiquei super lisonjeado e empolgado em poder colaborar com a revista O Menelick 2º Ato, pois sou admirador do intenso e potente trabalho que vocês desenvolvem. As suas provocações e tensionamentos são extremamente necessários na atual situação política e social do Brasil.


O trabalho que desenvolvi para a capa da revista segue uma lógica que venho desenvolvendo nos últimos anos. Tal lógica consiste em utilizar imagens e costumes da cultura popular para questionar a perpetuação da violência institucional (com as suas origens muitas vezes no período colonial) na sociedade brasileira. Com isso, pretendo evidenciar que o simples fato da substituição dos orixás por santos católicos carregam em si uma violência gigantesca, porque esta operação de resistência só se fez necessária por conta da violência da deportação das nações africanas para trabalharem como escravos no Brasil. A percepção desses pequenos gestos de racismo apontam para as estruturas maiores da violência e segregação racial que balizam a sociedade brasileira.


Na imagem que fiz para a capa desta edição da revista O Menelick 2º Ato utilizo a imagem do Orixá Iemanjá, que de origem negra Iorubá é majoritariamente retratada como branca nos festejos brasileiros. Por isso, a sua popularidade é crescente dentro da sociedade brasileira. Este ato de branquear um orixá de origem negra evidencia como se dá a aceitação dos negros na sociedade brasileira, ou seja, para ocorrer tal aceitação, na maioria das vezes, é esquecido, apagado e negligenciado os seus traços raciais. Isto está presente também nos discursos de democracia racial proferidos por intelectuais Brasil a fora.





NOTA DE RODAPÉ
* BNH é a sigla de Banco Nacional de Habitação empresa pública voltada a construção de imóveis, uma espécie de conjunto habitacional como as COHABs, porém este, num bairro que se tornou nobre graças à especulação imobiliária e aos processos de gentrificação pelos quais passam os bairros mais antigos de São Paulo.



PARA LER
O Fim da História da Arte
Hans Belting
Cosac & Naify
São Paulo, 2012


Após o Fim da Arte
Arthur Danto
EDUSP
São Paulo, 2010


SAIBA + JAIME LAURIANO / GUERILLA GIRLS





RENATA FELINTO é doutoranda em Artes Visuais pelo Instituto de Artes/UNESP, mestre e bacharel pela mesma instituição. Atua como pesquisadora, artista plástica e educadora.

http://omenelick2ato.com/files/gimgs/490_obra-jaime-lauriano-1.jpg
NESSA TERRA, EM SE PLANTANDO TUDO DÁ
Madeira, vidro, reservatório de água, climatizador, termômetro, sistema de irrigação e fertilização, temporizadores, terra, adubo e muda de pau-brasil. 200 X 50 X 50 cm (2015).
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/490_obra-jaime-lauriano-2.jpg
REPÚBLICA (democracia racial)
Desenho do mapa do Brasil e trecho do Hino da Independência feito com lápis dermatográfico e pemba branca (giz utilizado em rituais de Umbanda) sobre algodão preto. 145 X 180 cm (2015)