AFRO COMO ASCENDENCIA, ARTE COMO PROCEDENCIA


TEXTO ALEXANDRE BISPO ARAUJO
NOVEMBRO/ 2013


A exposição Afro como ascendência, Arte como procedência (em cartaz no SESC Pinheiros entre os dias 1/12 e 09/03/2014) apresenta obras de cinco jovens artistas contemporâneos, que aludem direta ou indiretamente a temática étnico-racial no Brasil em seus trabalhos. São pinturas, objetos, fotografias e uma vídeo-performance inspirados em questões ligadas à população afro-descendente, como as práticas religiosas do candomblé e a experiência corporal feminina. Resultado de investimentos formais, esses artistas não transformam seus trabalhos em panfletos políticos nem militância óbvia contra as desigualdades étnico-raciais que impedem a plena ascensão dos negros em diferentes setores da vida social brasileira.


Ao reunir esses cinco nomes, entre os vários artistas contemporâneos que se enquadram na chamada arte afro-brasileira, categoria que abarca uma variedade de produtos estéticos, nosso objetivo é mostrar que temas como o candomblé, religião de impressionante riqueza visual e material, continuam a inspirar artistas como Moisés Patrício e Sérgio Soarez. Tal como já ocorreu na história da arte brasileira com Carybé (1911-1997), Djanira da Motta e Silva (1914-1979), Mestre Didi (1917-2013) e Rubem Valentim (1922-1993), entre outros.


Para Moisés Patrício trata-se de emprestar desta religião o gesto das mãos abertas em atitude de dádiva, de oferecimento. No candomblé, o dar é parte essencial da rede de trocas entre deuses e humanos, e os saberes manuais permeiam a vida dos iniciados que, com o tempo, dominam um repertório de gestos rituais e cerimonias. Na série “Aceita”? 2013, Patrício cobre o pulso com uma pulseira de palha e búzios e nos oferece coisas: um pedaço de plástico das luvas de látex Mucambo, uma peça de metal, tampinhas de garrafa amassadas como se fossem búzios, restos de uma lâmpada. São resíduos de relações humanas devolvidos à circulação pelo ato fotográfico. E você aceita?


Entre ferros, madeiras, miçangas, tecidos, porcelana e cobre desenvolve-se a poética de Sergio Soarez. O artista explicita em cada peça aqui exibida seu fascínio pela cultura material do candomblé. A ele interessam os símbolos materiais que representam os orixás e as ferramentas por eles dançadas em dias festivos. Os orixás são deuses iorubanos associados aos domínios da natureza – água, terra, ar, fogo. Sérgio lhes rende homenagens como a Ogum, orixá da tecnologia. A obra “O cara”, 2007, nos coloca diante das ferramentas civilizatórias da guerra e do trabalho de modificação e controle da natureza. Com “Ofá real” 2008 é Oxóssi, irmão mítico de Ogum, que comparece no arco e flecha a ele associados. Enquanto as matas são seu domínio natural, em “Omi” 2012 é a água amarela das contas de plástico que evocam Oxum, orixá feminino das águas doces. Inspirada na mãe de Xangô, orixá ligado ao fogo, aos raios e trovões, “Baiani” 2012 é uma peça que se estrutura em torno da madeira, e cujas contas vermelhas e brancas lembram as cores distintivas desse Deus. Em “Assentamento”2013, Sérgio recombina objetos pré-constrangidos por seu uso e descarte e nos ensina que o segredo é uma forma de compartilhamento, diálogo e sociabilidade no candomblé.


Seguindo uma trilha aberta por Rosana Paulino (1967) que desde o início de sua carreira vem discutindo a relação entre raça, corpo, gênero e história da mulher negra no Brasil, Janaína Barros e Renata Felinto tomam o corpo como plataforma expressiva.


Janaína reconstrói a relação entre mulher negra e trabalho braçal doméstico, como em “Bulina-me” 2010, no qual ilumina com lantejoulas um avental de cozinha aproximando trabalho doméstico e festa. A frase que dá nome à obra é bordada em linha vermelha sobre um tecido opaco de mesma cor nos convidando a chegar mais perto. Com delicadeza, a artista costura roupas para objetos ordinários como luvas de cozinha, puxa-sacos, liquidificador, aproximando artefato e gênero. Tais trajes, dado ao cuidado de sua feitura e decoração, escondem relações desiguais de gênero e classe social, como no trabalho “Sou todo seu”, na qual a artista reflete sobre o desejo da mulher negra, muitas vezes frustrado, de ser desejada, de encontrar abrigo afetivo em uma relação de igualdade e respeito.


Renata Felinto, por sua vez, se autorretrata como Bardot, Bassinger e Monroe, loiras famosas, sedutoras e sorridentes. Força relações de alteridade, e sem negar as outras, transforma-se nelas. Nessa operação, as estrelas das telas do cinema hollywoodiano são antropofagicamente assimiladas. Felinto questiona os padrões de beleza construídos, mas veiculados como naturais pela cultura de massa. Ao brincar com os cabelos louros, cor que no Brasil tem muitas representações positivas e marca o desejo de homens e mulheres em torno desse símbolo erótico, o efeito é uma figura híbrida e irônica. Em White Face and Blonde Hair, parte do projeto “Também quero ser sexy”, de 2012, ela investe no travestismo de classe social e se autorrepresenta como uma loura que esbanja riqueza e capacidade de consumo do luxo oferecido na rua Oscar Freire, na qual fez uma performance desconcertante para aqueles que foram seu público, ainda que sem saber.


Wagner Viana se distancia dos outros ao descolar seu trabalho das alusões às religiões afro-brasileiras e do corpo racializado. Em vez disso, assume um formalismo abstrato, frio, distante, desde que não saibamos as condições de produção do trabalho aqui apresentado. Resultado de um projeto que já dura treze anos, Viana volta constantemente à cidade de Pirapora do Bom Jesus, recolhe amostras de terra para observar suas temperaturas cromáticas. Surge daí a instalação “Projeto Terra de Pirapora 23º 25’ 0” Sul e 47º0’0” Oeste”, em que o artista simula as cores da natureza local, recriando uma geologia sem natureza na composição em lâminas instaladas no encontro entre paredes. A escolha por alocar seus trabalhos nessa posição é uma metáfora do encontro entre a origem do deslocamento e o destino para onde se vai.


Tal operação nos permite explicar o porquê do nome desta exposição que ressalta a África como ascendência, aquilo que vem à tona, fruto das gerações passadas, mas também como procedência, lugar de onde todos os humanos provém. Trata-se da hipótese de que a África é o berço das nossas origens humanas, formulada inicialmente por Charles Darwin, mas que começou a ser comprovada apenas quando em meados dos anos 1930 o paleoantropólogo Louis Leakey fez descobertas fósseis importantes no continente africano. Foi no Quênia que seu filho Richard Leakey e sua mulher Meave descobriram, em 1984, um esqueleto inteiro de 1,6 milhões de anos, a qual deram o nome de “Garoto de Turkana”. O garoto, cuja imagem aparece três vezes no chão desta exposição, era do gênero homo – um homo erectus, espécie que apresenta todas as características que os estudiosos até então consideravam exclusivas do homo sapiens: bipedismo, capacidade de julgamento moral, habilidades tecnológicas. Ao ascender do fundo da terra, tal descoberta material nos revela que nossas origens estão na África e que, portanto, somos todos afrodescendentes.


Na exposição Afro como ascendência, Arte como procedência, nossa intenção é fazer emergir uma produção afro-orientada, que coloque questões importantes de interesse não apenas desse segmento da sociedade, ou dos que assim se autodeclaram. Como ação política e poética, nosso desejo é ampliar os horizontes da arte contemporânea pela oferta de produtos artísticos multiculturais, qualificando a cultura de democracia no país.


PROGRAMAÇÃO PARALELA


O evento conta também com duas oficinas a serem realizadas na Sala de Atividades, 3º andar, das 15h às 17h:


14/12 - Wagner Viana (Exercício poético coletivo da cor: jogo de analogias cromáticas entre palavra e a imagem)


15/12 - Janaina Barros (Quando o corpo é apenas uma ausência: a autoria e o ato experimental no exercício de criação).


O Sesc Pinheiros fica na Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros, São Paulo/ SP.
Telefone: (11) 3095 9400



ALEXANDRE BISPO é mestre em Antropologia Social pela FFLCH/ USP, Cientista Social pela mesma instituição e curador da mostra Afro como ascendência, Arte como procedência.


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