OUTRA ÁFRICA

NA TERRA DOS HOMENS ÍNTEGROS



Por Luciane Ramos Silva
ABRIL/2011



Burki o quê? “Burkina Faso“, respondi à uma colega quando, discutia o roteiro do meu próximo destino ao continente africano. Esse pequeno país, incrustado na África do Oeste, à primeira vista pode não ter os atrativos mais saborosos para aqueles que desejam conhecer as Áfricas. Sem saída para o mar, e portanto, dependente dos portos de país vizinhos; Sem grandes saídas econômicas, tendo a agricultura como carro chefe; Sujeito à longas estações de seca muito peculiares do Sahel, faixa que separa o Saara das terras mais férteis do sul; Sem muitos recursos naturais, que o façam cair nas graças ( muito audaciosas ) das potências europeias... Sem mais o quê? O relato das ausências, carências e fracassos, nós já conhecemos bem. Serviço prestado pelos noticiários, ONG´s, livros didáticos, e por toda longa história pessimista narrada a respeito do continente africano. Minha passagem pelo país, breve porém atenta, captou outras imagens e movimentos. É sobre essa “Outra África”, parafraseando o economista Serge Latouche, crítico radical da noção de desenvolvimento economicista, que considero importante falar.


Liberto das amarras coloniais francesas em 1960, o país viveu tempos de intensas mudanças sob a liderança de Thomas Sankara, que ao tornar-se presidente em 1983, aos 33 anos, implementou um programa revolucionário de reforma econômica e social, priorizando a educação, a saúde ,auto-suficiência e transparência na gestão das coisas públicas. Seus esforços também se direcionaram para a emancipação das mulheres, nomeando-as para cargos no governo e colocando em questão temas como a mutilação genital feminina e a poligamia.


Sankara mudou o nome do país para “Terra dos homens íntegros” ( tradução de Burkina Faso), nome originário de duas línguas locais - a moré e a diulá - que parece resumir o desejo do jovem presidente, assassinado em 1987, de construir um estado para todos. O sonho durou pouco, mas o sentimento nacional de orgulho e respeito ecoa até os nossos dias nas expressões do povo burkinabê. Eis uma biografia insuspeita, frente à postura costumeira das lideranças africanas contemporâneas – celebrizadas por arbitrariedades e corrupções - que caminham na contramão das ações anticoloniais dos líderes das independências. Será exclusiva a trajetória de Sankara? Um exceção? Creio que não. A convicção de uma África consciente de seu passado e capaz de caminhar com os próprios pés esteve presente nas ações de outros ativistas, professores e intelectuais nacionais. O historiador Joseph Ki-Zerbo é um exemplo. Se ultrapassarmos a “África oficial”, encontraremos boas surpresas.


Um pouco de asfalto e muito chão de terra pavimentaram minhas andanças pela capital Ouagadougou, terra das motocicletas! As duas rodas são o principal meio de transporte – um vai e vém auto organizado. Diante de poucos semáforos e guardas de trânsito, o povo se virava. É também no esquema do “se virar” que boa parcela da população dribla os sérios índices de desemprego. A chamada economia informal é ocupação de grande parte da população economicamente ativa. Vale o destaque para a participação das mulheres no fomento da economia atuando no comércio de gêneros alimentícios em feiras e mercados, na circulação de tecidos, na produção dos alimentos consumidos nas ruas da cidade – espaços efervescentes. Meus pés sempre empoeirados e a pele marrom da terra, não me assemelhavam a uma burkinabê, mas mesmo estrangeira no passo, na veste e no olhar, eu me tornava igual nas horas de comer. Bom apetite! Eu te convido! expressões que antecediam as refeições. Na engrenagem capitalista, a sociedade burkinabê parece estar órfã na informalidade. Mas será adequado o termo “informal” considerando os arranjos criativos e intercâmbios entre reciprocidades, sabedorias locais e lógicas de mercado?



NA POEIRA, OLHOS QUE BEM ENXERGAM

No começo do mês de março, o país realizou o maior festival de cinema do continente africano, o FESPACO. O evento mobiliza realizadores, artistas, instituições e grande parte da população em um acontecimento cultural que inclui apresentações de música, teatro e dança entre as exibições cinematográficas. Paulistana que sou, ciente do acesso restrito da maioria de nossa população a mostras de cinema, saúdo essa iniciativa que leva a sétima arte ao povo. Relevante é também o projeto do cineasta Gaston Kaboré, nascido em Bobo Dioulasso, segunda maior cidade do país. Trata-se do IMAGINE – Centro de aperfeiçoamento que proporciona formações na área do cinema, televisão e multimídia. Idrissa Quedraogo e Dani Kouyaté são outras referências do cinema local.



IRENE TASSEMBEDO: SABER DANÇAR E SABER VIVER

“Para mim, a dança é a vida de todo dia” - palavras da coreógrafa, bailarina e atriz Irene Tassembedo, diretora da EDIT, Escola Internacional que tem como missões fundamentais a formação profissional em dança, o progresso de uma comunidade artística engajada e a valorização da arte/cultura como potenciais campos para o desenvolvimento durável. A escola agrega também a formação em música e canto, impulsionada pelos elementos de convivência comuns às culturas africanas: a vida coletiva, o “nós” em detrimento do “eu”, a lógica da reciprocidade e o respeito aos mais velhos. “Dançamos com nossa cultura”, ressalta Irene. Seu espírito sagaz, disposição e reconhecimento das diversidades, além de um olhar certeiro sobre a importância da modernidade no porvir das danças africanas, fizeram-me reconhecer nela, uma grande mestra. Que o Brasil possa, um dia, conhecê-la!







PARA LER

Para quando África
Joseph Ki-Zerbo
Editora Pallas
Rio de Janeiro, 2006



PARA VER

A Dançarina de Ébano (La Danseuse d’Ébène)
Direção: Seydou Boro
Gênero: Documentário
Duração: 52 min.
França, 2002



PARA CLICAR

EDIT (ESCOLA INTERNACIONAL DE DANÇA IRENE TASSEMBEDO)
www.edit-danse.org







LUCIANE RAMOS SILVA é antropóloga, professora de estudos africanos e dançarina.



http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-3_v2.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-8.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-5.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-4.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-6.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa_v2.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-1.jpg
http://omenelick2ato.com/files/gimgs/146_site-africa-7.jpg