DE UM REINO DISTANTE: UM RELATO SOBRE A PRIMEIRA VEZ EM SOLO AFRICANO



TEXTO CHRISTIANE GOMES
FOTOS FABIANA ERAMO
DEZEMBRO/ 2015



“... Mas guardei na alma a minha bagagem, memórias de força e coragem
Palavras, orações ancestrais, tambores, sabores e cores demais.
Uma tal riqueza nunca se viu. Toda esta beleza, veio de navio.
A África negra foi recriada no Brasil”.



A letra acima, da canção Negro Mar, de autoria de Estela Carvalho e que fez parte do repertório de composições do Carnaval 2010 do bloco afro Ilú Obá de Min, cujo tema neste ano era o Atlântico Negro, ecoou em minha mente durante toda a minha estada no Senegal, em julho de 2015. Era a primeira vez que pisava em terras africanas. Uma realização para quem, como eu, vive, pesquisa e dialoga todo o tempo com a ancestralidade e suas confabulações em corpos e mentes que vivem e produzem na chamada contemporaneidade.


Minha expectativa era grande. Tão forte e pulsante como esta primeira experiência no berço da humanidade. Claro que seria o primeiro passo para vivenciar a grandiosidade de um continente que possui 49 países (divisão esta imposta ainda no final do século 19 por algumas das principais potências coloniais europeias), seis ilhas e uma população de mais de 1 bilhão de pessoas, de acordo com os dados de 2013 do Fundo de População das Nações Unidas (FNUAP). Uma gama diversa e complexa de línguas, costumes, tradições e religiões. Por isso costumo dizer que conheci o Senegal, pois dizer que se conheceu África é algo que requer muito mais do que a visita à apenas um país do continente.


Meu destino era Toubab Dialaw, pequena vila de pescadores distante cerca de 50 quilômetros da capital Dakar. É lá que está localizada a Escola de Areia (École de Sables), importante centro internacional de danças negras tradicionais e contemporâneas criada em 1998 pela bailarina franco-senegalesa de origem beninense Germaine Acocny.


Já há alguns anos acalentava o desejo de conhecer a Escola. De poder ver com meus próprios olhos e sentir em meu próprio corpo o que era estar lá. Finalmente, fui selecionada para participar do estágio internacional The March, cuja proposta principal é a difusão e ensinamento da Técnica Acogny, método de dança moderna africana criada por Germaine, e que une a movimentação tradicional do Oeste Africano e o balé clássico a uma potente consciência corporal, juntando a isso elementos da natureza, com o uso de simbologias marcantes do continente, como o baobá, o dromedário, o tigre e a estrela do mar. Uma técnica que respeita as especificidades de cada trajetória corporal e que tem como mote a liberdade na disciplina. No curso, 45 corpos, dos mais distintos tipos e biótipos oriundos de lugares como: Itália, Espanha, País Basco, Dinamarca, Holanda, Alemanha, Inglaterra, Tasmânia, Portugal, França, Brasil e Senegal.


Brasil e Senegal. Dois países irmãos, que dividem diferentes perspectivas do oceano atlântico. Conta a história que da Ilha de Gorée, localizada a 2km do mar adentro senegalês, era um posto avançado de tráfico de escravos, já que era praticamente impossível que os negros capturados em diversos países do continente fugissem de lá. Supostamente, milhões de negros e negras teriam passado pela ilha, informação contestada por alguns estudiosos que afirmam que “apenas” alguns milhares de lá saíram, vindos de diversos países da África, para partirem na epopeia da diáspora negra nas Américas, marcada por incontáveis e já sabidas sessões de violência e opressão. Foram estas pessoas que, obrigadas à abandonarem suas vidas sem sequer olhar para trás em uma travessia desconhecida, recriaram seus costumes, sua música, sua dança, sua cultura. Foram obrigados a seguir em marcha, pois não tinham outra escolha. Precisaram deixar tudo para trás. Muitas histórias de vida, de amor, de família, foram interrompidas abrupta e cruelmente. Mas foi por conta desta interrupção, deste rompimento, que outras histórias começaram. Como a minha própria. E por conta deste enredo, o meu mundo, depois de muito girar, me levou até o outro lado do Oceano Atlântico.


A emoção de olhar para o mar de Toubab Dialaw e mirar aquele horizonte pela perspectiva africana foi um dos sentimentos mais intensos de minha vida. Algo que tento aqui descrever em palavras, mas que se mostra muito difícil de fazê-lo, pois este sentimento tomou meu corpo e espírito de uma maneira inexorável. Era encanto e alegria mesclados à um intenso pulsar ancestral de estar ali, onde metaforicamente para mim, era uma espécie de ponto de partida, onde tudo tinha começado. Em meus devaneios solitários na praia de Toubab, me perguntava se meus ancestrais mais longínquos teriam nadado naquele mar. Para mim, era como um ciclo que se completava, para que um outro novo, pudesse se iniciar. Pensava muito em minha mãe Marlene. Em minha avó Joana. Em minha bisavó Mariana. Mas não consegui ir além, pois a cultura do esquecimento, quando se trata da história da origem dos africanos escravizados no Brasil é determinante. Não sei de que país ou região da África saíram minhas ancestrais, a história brasileira não deixou que eu descobrisse.


Mas o coração não era o único órgão tocado por essas emoções e reflexões. Todo o meu corpo, músculos, pele, ossos sentiram e viveram esta experiência. Afinal, eu estava lá para também dançar. Viver a dança em sua mais genuína forma de manifestação. Com todo o respeito às outras culturas, mas a dança e a música para os africanos é algo tão orgânico como respirar, comer, dormir. É como se o dançar tivesse sido cultivado e nascido em África. E a Escola de Areia me proporcionou compartilhar disso. Lá se vivencia a dança, mas não apenas do ponto de vista técnico do aprendizado e execução de movimentos, mas a partir da perspectiva do humano e do divino, simultaneamente. Para mim, verdadeiramente, um lugar mágico. Lembro-me do dia em que cheguei. Era madrugada, a escuridão da Escola naquele momento, era quebrada pela lua cheia mais cheia e brilhante que pude ver na vida. Uma pequena mostra do que seria esta jornada dançante de conexão com a natureza, que me proporcionaria a plenitude de um corpo livre. Um corpo que é e existe para dançar! O próprio ambiente da escola explica isso: um lugar repleto de pedras vulcânicas, pássaros que pareciam acompanhar os ritmos dos tambores tocados durante as aulas, dos baobás vistos ao longe, junto com o horizonte do mar, e pela generosidade dos mestres e mestras que lá estavam. Essa magia era algo permanente e que, dia após dia, se fortalecia dentro de mim.


Foram 15 dias de imersão na École de Sable e nas práticas do The March. Com toda a infraestrutura necessária para receber bailarinos de diversas partes do mundo e de toda a África, pois preza por formar bailarinos do próprio continente, a Escola de Areia possui cozinha, alojamento, restaurante, dois espaços incríveis de dança (as salas Henriette e Alopho), salas de administração, distribuídos em um espaço com vista para o mar senegalês e os monstros da potência africana, os baobás. Ah os baobás.... imponentes, belos, definitivos e permanentes, eles são a árvore símbolo da cultura africana tradicional. Parecem como testemunhas oculares de séculos de história e, por conta disso, possuem uma vibração, uma energia que me repito ao destacar a dificuldade de explicar este sentimento em palavras.


Alguns parecem ser como imponentes griots, como aquela avó que nos conta histórias enquanto trança nossos cabelos. Outros parecem estar na flor da idade, na adolescência e trazem o frescor de quem está descobrindo diversas coisas pela primeira vez. Os baobás figuram entre a história africana desde sempre. E desempenham um papel fundamental na Técnica Acocny.


A simbologia desta árvore ancestral foi algo que também esteve presente em corpo, mente e coração durante toda a jornada do The March. Para mim, ele não era mais uma imagem vista em filmes, fotos, livros ou em contos. Era real. Estava ali, na minha frente. E pude abraçá-los. Não eram mais uma referência onírica. Eu os dançava. Meu corpo dava forma à eles. Eu havia descoberto o meu baobá particular e interno.



SUBMERSA POR MOVIMENTOS E SENTIMENTOS


A imersão proposta pelo estágio The March na École de Sable proporcionou também o intercâmbio e a construção de vínculos entre pessoas de diferentes culturas, mas unidas pela solidariedade fraterna, difícil até de cultivar na loucura da babilônia das grandes cidades, e pelo amor a dança. Na École de Sable havia o tempo cronológico que nos guiava para os horários das refeições, do início das aulas, da hora do descanso, daquela olhadinha na internet. Um tempo quantitativo, necessário para o cumprimento dos horários que deveriam ser respeitados a risca, pois a disciplina e a responsabilidade são fatores fundamentais e intrínsecos à dança. Mas para além deste tempo, havia o tempo mítico, o tempo qualitativo, onde não se mensura minutos, horas, semanas... Um tempo guiado pela intensidade de emoções e informações onde o que dava o tom e o ritmo era o repertório de vida de cada ser que ali estava. Para mim, por exemplo, no segundo ou terceiro dia de curso, meu tempo interno que sinalizava que eu estava lá há meses, tanta era a intensidade das emoções ali vividas.


Uma escorregada nas pedrinhas portuguesas do centro de Lisboa, por onde passei antes de embarcar pra Dakar, me custou uma inflamação na lombar que me causou fadigas e dores. E dá-lhe óleo de arnica, emplastos musculares, massagens e anti-inflamatórios, rezas e mandingas de tudo o quanto era tipo. Mas, como o saudoso Paulo Vanzolini aconselha em sua canção, levantei, sacudi a poeira e dei a volta por cima em grande estilo, afinal estava finalmente dançando no Senegal. Mais do que isso: aprendendo a lidar e a trabalhar com a consciência do meu corpo, conectado com os elementos da natureza que estavam dentro e fora do mim.


Internamente, ao acionar a minha ancestralidade, ativo meu corpo afro-brasileiro que é contemporâneo na medida em que vive em pleno século 21, mas que traz consigo heranças daqueles que vieram antes e que de alguma maneira, sobrevivem em mim. E foi essa a ficha que me caia, dia após dia. Externamente, aprendi a construir as imagens a partir das referências e suas relações com coluna, pélvis, braços, sorrisos, expressões, a admirar o cantar dos pássaros, o brilho e o calor do sol, o impacto ora suave ora intenso das ondas do mar, a beleza rara de uma chuva inesperada ao final da tarde. Percepções que, vivendo e dançando em uma megalópole como São Paulo, às vezes se perdem na correria, na necessidade de cumprir prazos, metas e horários.


Ao final dos 15 dias de The March teríamos como meta apresentar um espetáculo que pudesse compartilhar com os moradores de Toubab Dialaw o que havíamos feito e aprendido em duas semanas de Curso. Apresentar o resultado de nossas práticas para uma plateia tão especial como aquela causou um misto de alegria e ansiedade. Uma grande responsabilidade de fazer parte deste momento. E Mama Germaine (como é carinhosamente chamada Germaine Acogny) também estava lá: linda, como a deusa africana que é.


Muitas vezes, buscamos a ancestralidade em coisas míticas, lembranças de uma África distante e sofrida. Mas esta ancestralidade está em mim também: no corpo, na existência, no ser. Neste meu corpo brasileiro, afro-brasileiro, que é fruto de uma diáspora iniciada há séculos que recriou e ressignificou a cultura africana no Brasil. E em Toubab Dialaw tive a certeza disso, ao sentir na carne, nos ossos e no coração. E foi esta experiência repleta de subjetividades, sentimentos e lembranças ancestrais que optei em compartilhar neste texto.


Poderia ter feito a opção de escrever linhas mais técnicas, relatando a viagem sob um prisma mais intelectualizado e conceitual, características que marcam meus textos aqui publicados. Mas isso não seria possível. Foi uma jornada marcada por emoções, descobertas, dores físicas e subjetivas, mas principalmente pela alegria e satisfação de reencontrar a minha origem. E foi a dança que me trouxe isso!





PARA LER
Germaine Acogny - Escritas de Um Corpo em Tempos Reais
Luciane Ramos Silva
Revista O Menelick 2° Ato, edição ZER012


SAIBA +
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CHRISTIANE GOMESS é jornalista, mestra em Comunicação e Cultura pela USP e coordenadora do corpo de dança do Bloco Afro Ilú Obá de Min.


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